Leão

Cada um pode escolher a ideologia que entender. E se não se entender com nenhuma também tem direito. Cada um tem direito a escolher a religião que entender. E se não se entender com nenhuma também tem direito. Cada um pode escolher o clube que entender. E se não escolher nenhum também tem direito.

Ou seja, cada um tem direito a escolher o que entender.

O problema não está na escolha, está na forma como vemos os outros que não partilham das nossas escolhas. Eu também sou um preconceituoso do caraças. Porquê? Porque fui treinado e ensinado a isso! Calma. Quero dizer que não sou suficientemente parvo para cair nas malhas de qualquer absolutismo.

Reconheço muitos aspetos positivos de decisões políticas de quem discordo na generalidade. Posso parecer parvo aos olhos dos prosélitos, sejam eles quem for, mas tento não ser.

Em resumo, se criticar uma medida do governo devido ao impacto que considero negativo, apesar da “boa-vontade” do mesmo, porque no final quem se lixa é sempre o mexilhão, espécie a que fui desclassificado neste Portugal surrealista, posso sempre levar nas trombas de quem se julga ser detentor da tal “superioridade política”. Parece que o governo quer aumentar o dito imposto do selo dos cartões, cujo custo, quer queira ou não, vai cair sempre nos utilizadores dos cartões.

Já tive muitas chatices por causa disso. – Desculpe, mas não tenho multibanco. – Ai não? E agora? –

Agora, se quiser vá lá baixo, à esquina, onde há uma máquina. Quando me dizem isto fico “cianosado” de raiva. Às vezes saio e não regresso. Outras vezes deparo-me com o anúncio na porta, “não aceitamos multibanco”. – Ótimo. Neste caso já nem entro. Mas há casos em que o vendedor pede desculpa pelo facto de o multibanco estar avariado! Enfim, tenho tantos casos que o melhor é ficar por aqui.

É evidente o que está por detrás disto tudo. Custos a serem suportados pelos comerciantes, cuja vida, na grande maioria dos casos, anda pelas ruas da amargura.

Nas minhas voltas sem sentido acabei por passar em frente da loja. Ainda hesitei se deveria ou não parar. A forte escanevada que caía aconselhava-me, ruidosamente, que o melhor era ir mesmo para casa e deixar de aventuras. Mas não. Decidi dar a volta e acabei por entrar no espaço, vazio de pessoas.

Corri para fugir à chuva. Entrei e disse: – Boa-tarde! O tempo está muito mau. O senhor, de ar triste, lançou um sorriso, respondendo ao cumprimento. Senti que deveríamos ser as primeiras pessoas a visitar a loja nesse dia. Quase que ouvi o pensamento do senhor: – Vêm ver, mas não vão comprar nada. O costume.

Andámos e vimos um pequeno quadro de rosas. Um quadro simpático e barato. Ficou admirado quando o adquirimos. Foi pago com dinheiro. Depois, ao sair, vi uma bela escultura, um leã de bronze. Gosto de bronzes. Vi o preço. Nada de extraordinário. De qualquer modo perguntei-lhe qual o valor do mesmo. Sorriu e explicou-me quem era o autor e que até tinha conseguido alguma documentação sobre o mesmo como a querer testemunhar o que estava a dizer. Em seguida mostrou- me a documentação. Abriu o seu sorriso, esperançoso em fazer negócio, e rematou um preço substancialmente inferior ao que estava marcado. – Fico com ela. Entreguei-lhe o cartão. Nervoso, disse-me que não tinha multibanco. O seu sorriso, que era branco, ficou amarelo. Lá fora chovia que deus a dava.

Indicou-me que havia um banco naquela zona, não muito longe, mas como estava a chover muito iria ser um pouco difícil. – Se for por aqui, e mostrou-me o caminho, pode ser que não apanhe chuva, a não ser ali, ao atravessar a rua, mas se andar um pouco para a direita consegue passá-la sem se molhar. Sorri e corri. A minha mulher ficou na loja enquanto fui levantar o dinheiro.

No final fiquei com a estranha sensação de ter ajudado alguém que deve ter abençoado as notas que recebeu. Recordei nesse momento o gesto de um velho fotógrafo “à la minute” que há mais de quarenta anos, na serra da Boa Viagem, nos tirou uma fotografia. No final beijou a nota de vinte escudos. Perguntei-lhe a razão de ser do seu gesto. – É o primeiro dinheiro que ganho hoje! Dinheiro abençoado. É para ter sorte. Sorriu. O de hoje não beijou, mas o seu sorriso foi idêntico.