Jorge Sequeiros: um campeão a disparar

No passado dia 9 de Setembro, Jorge Sequeiros, do clube “Futebol Clube Os Marialvas”, de Cantanhede, sagrou-se duplo campeão nacional nas provas dos 100 e 200 metros e vice-campeão nos 300 metros (tendo batido o record nacional do agregado com 740 pontos em 750 possíveis), em BRPC (Bench Rest Percussão Central), uma modalidade de tiro, desporto que conhece bem de perto e que pratica desde petiz.

Foi em Moçambique, África, onde nasceu, que bem cedo começou a aprender a disparar uma arma. “Pratico tiro desde miúdo, como muita gente nascida em África, onde era normal e até saudável ensinar a miudagem a manusear as armas, a atirar com elas e, sobretudo a respeitar as mesmas, com um lema que o meu pai me ensinou desde pequeno, ‘uma arma deve ser entendida como se estivesse sempre carregada’, daí nunca se apontar a nada e muito menos a alguém”, começa por explicar ao AuriNegra.

Como a maioria das pessoas que pratica tiro, começou com pressões de ar, “mas depois fui desenvolvendo o gosto e a curiosidade pelas diversas modalidades”.

Com a vinda para Portugal, o tiro ficou esquecido, “pois não tinha condições financeiras, nem tempo disponível”. Só muito mais tarde, quando começou a poder pensar em ter um hobby, decidiu regressar às armas. “Foi aí que me meti à procura desta actividade na zona de Coimbra, cidade onde moro”.

Em 2004 foi apresentado a uns atiradores do Clube de Futebol “Os Marialvas”, em Cantanhede, “Armindo Vassalo e Fernando Silva, que muito me ensinaram e me deram a escola dos 10 metros em ar comprimido, quer em carabina, quer em pistola, modalidades que pratiquei vários anos”.

Em 2005 decide inscrever-se na Federação Portuguesa de Tiro pela equipa cantanhedense e o gosto pelo tiro é aprofundado com um conhecimento mais alargado das diversas modalidades de tiro, onde, como nos diz, “a exigência mental é muito forte, obrigando a níveis de concentração muito altos, agregados a uma razoável preparação física”.

Na última década, Jorge Sequeiros passou por modalidades diversas, como o Field Target, “a minha grande escola de balística e tratamento das variáveis externas, como o vento, a humidade, a luz, etc”. Seguiram-se as modalidades de calibres superiores, como o tiro com calibre 22, até aos grossos calibres, como o 9mm nas pistolas de tiro prático (IPSC), o calibre de 308  e 6mm BR nas carabinas de tiro até 300 metros e ainda as shotguns (vulgo caçadeiras) no PTPC (tiro prático com armas de caça).

“Como em 2016 passei a uma situação de pré-reforma, e, consequentemente, com mais tempo disponível, comecei a dedicar um pouco mais desse tempo ao tiro. No entanto, e porque a idade também nos vai levando a capacidade física, tenho-me dedicado mais a uma modalidade que se chama BRPC (Bench Rest Percussão Central), onde o esforço físico é mínimo e é quase totalmente uma modalidade baseada na concentração, na capacidade de foco, abstração total de factores de ‘ruído’ e muito trabalho e ‘transpiração’”.

Mas afinal em que consiste o BRPC? “É uma modalidade desenvolvida numa mesa com as armas assentes em apoios (bench rest), onde o atirador se senta junto à mesma e os alvos são colocados a 100, 200 e 300 metros”

Há ainda uma 4.ª vertente que só se faz a 100 metros que se chama “Miras abertas” e “que é feita com armas antigas, do tempo da 2ª Guerra Mundial, e que são as únicas que não podem levar miras, competindo somente entre si. As armas, para as primeiras 3 vertentes referidas, são equipadas com miras telescópicas e fazem-se 25 tiros por prova/distância. Cada cartão/alvo, tem 6 alvos, um de ensaio e 5 de prova, portanto utilizam-se 5 cartões durante cada prova, sendo que para cada cartão, só dispomos de 7 minutos para fazer os disparos de ensaio (os que cada atirador entender necessários) e os 5 da prova (1 disparo por alvo)”.

No passado dia 9 de Setembro realizou-se o campeonato Nacional de BRPC, onde Sequeiros teve excelentes resultados. “Este foi o campeonato que teve o maior número de participantes desde que começou a modalidade (há cerca de 3 anos) – 18 atiradores, o que já é um número interessante de competidores para uma tão jovem disciplina com campeonato nacional”.

Jorge Sequeiros explica que, apesar de os praticantes serem novatos nesta modalidade, “e terem muitas dificuldades quer para treinar, quer para obter as próprias armas e munições”, já atingiram um nível bastante interessante – mantendo um lote de atiradores de muita qualidade e obtendo pontuações de nível superior.

“Como se pode ver pela classificação do campeonato, em 250 pontos possíveis, houve quem fizesse 248 e ficasse fora do pódio. Fazer 248, quer dizer que o atirador acertou, em 25 disparos, 23 vezes no 10 e 2 vezes no 9. Ainda assim ficou fora do pódio. Isto ilustra, penso eu, o nível que já se atingiu nesta modalidade em Portugal, mesmo sem apoios e sem grandes condições para treinar”, partilha.

“Por todo o mundo pratica-se o BRPC, com a diferença que os atiradores de fora são quase sempre apoiados, ora pela tutela desportiva, ora por empresas/armeiros e têm várias carreiras de tiro, privadas e militares. Em Portugal, só há carreiras militares (penso que só 2 ou 3 estarão activas), que felizmente nos apoiam e dão condições logísticas para tal (neste caso falo da carreira de tiro da Gala, na Figueira da Foz)”. Quanto aos treinos, Jorge Sequeiros explica “que, aqui, se conseguíssemos treinar uma vez por semana e fazer 50 tiros por semana já seria muito bom mas, infelizmente, isso raramente acontece. Lá fora, e já não falo nos EUA, Canadá ou Rússia, mas na Europa, treina-se 3, 4 ou 5 vezes por semana (os campeões treinam quase todos os dias) e fazem mais de 200 disparos por treino”.

As dificuldades, explica, passam essencialmente pelos custos: “Aqui torna-se incomportável para a esmagadora maioria das bolsas, pois tem custos elevados. Este ano, acabei por ter a recompensa de muito trabalho desenvolvido no estudo da modalidade, no aperfeiçoamento dos treinos, no detalhe a que esta modalidade obriga, na persistência do melhoramento, e numa resiliência que tem de ser grande para se enfrentar todos os fracassos que vão acontecendo durante os treinos e que, muitas vezes, nos fazem começar tudo do zero”.

No entanto, explica, “para se ter estes resultados, precisamos de outras coisas também muito importantes, como sorte (há dias onde corre quase tudo bem) e de ter companheiros/adversários com quem se trocam experiências, conhecimento, numa sã camaradagem.”

 

Aqui ficam os resultados do campeonato Nacional de BRPC

Prova de 100 metros

1.º Lugar com 250 pontos – Jorge Sequeiros

2.º Lugar com 249 pontos – António Melo

3.º Lugar com 249 pontos – Bruno Floriano

 

Prova de 200 metros

1.º Lugar com 247 pontos – Jorge Sequeiros

2.º Lugar com 245 pontos – João Bastos

3.º Lugar com 245 pontos – António Melo

 

Prova de 300 metros

1.º Lugar com 244 pontos – João Bastos

2.º Lugar com 243 pontos – Jorge Sequeiros

3.º Lugar com 245 pontos – António Melo

 

Prova de Miras Abertas

1.º Lugar com 238 pontos – Francisco Coelho

2.º Lugar com 237 pontos – Luis Moura

3.º Lugar com 228 pontos – Pedro André

 

Autor: Carolina Leitão