Honrar o legado de António Arnaut

Hoje é um dia muito triste.

Fui privilegiado com a amizade de António Arnaut ao longo de quase meio século.

Durante essas décadas foi sempre crescendo a minha profunda admiração por ele, pela forma desassombrada com que defendia os valores em que acreditava e os princípios que o norteavam – com destaque para a liberdade, a solidariedade, a justiça social.

Mas mais do que elogios (que muitos outros lhe farão), quero antes sustentar aqui que a melhor homenagem que se lhe pode prestar é honrar o seu legado, sobretudo na defesa do Serviço Nacional de Saúde, uma das mais importantes conquistas da Revolução de Abril.

António Arnaut vinha lançando sucessivos alertas para os obstáculos e os desvios que vêm afectando o SNS.

Ainda na passada sexta-feira, em mensagem para um Congresso realizado em Coimbra, aludia à “filosofia neoliberal que visou a destruição do Estado Social e reduziu o SNS a um serviço residual para os pobres”. E sublinhava: “É preciso reconduzir o SNS à sua matriz constitucional e humanista”.

Do último livro de poesia de António Arnaut, intitulado “Um homem que partiu do seu regresso” (lançado em Outubro de 2017), transcrevo:

“assim pensava o homem que estava deitado

sobre a lembrança dos dias sobrevivos

enquanto o poema esperava

a hora exacta de encarnar

e ser fogo, ritmo, verdade,

ninguém morre quando um verso canta

a eternidade”.

Autor: Jorge Castilho (Director do AuriNegra)