Hoje somos poucos, amanhã seremos ainda menos!…

O défice continua a baixar, a taxa de desemprego diminuiu, temos o Ministro Centeno (classificado como “Ronaldo das Finanças”!) a presidir ao Eurogrupo, o Turismo cresce de cada vez mais… Enfim, parece que Portugal foi bafejado pela sorte e só surgem boas notícias!

Infelizmente não é verdade! E não me refiro aos incêndios e outras tragédias, nem à dívida pública que continua a aumentar.

A minha preocupação vai para um outro aspecto que há vários anos se manifesta, sem que os sucessivos Governos (e toda a classe política!) lhe concedam a importância que ele merece e, pior do que isso, tomem as medidas urgentes que a questão exige.

Estou a referir-me à demografia. Dados do Instituto Nacional de Estatística divulgados esta semana revelam que em 2017 se registaram, em Portugal, mais 24 mil mortes do que nascimentos.

E se isso, por si só, já era grave, assume proporções bem mais alarmantes quando se verifica que é o oitavo ano consecutivo em que nascem menos cidadãos portugueses do que aqueles que morrem. Foi em 2009 que o total de óbitos ultrapassou, pela primeira vez nos tempos mas recentes, o número de nascimentos. Nesse ano o saldo negativo foi de cerca de 5 mil cidadãos. De então para cá as coisas têm vindo a agravar-se, e em 2017 a quebra foi quase cinco vezes maior: só nasceram 86.180 pessoas, tendo morrido 110.197.

Há muitos anos que alguns especialistas chamam a atenção para este problema.

Destaco aqui o alerta muitas vezes repetido pelo Prof. Agostinho Almeida Santos, seguramente o português que mais tem contribuído para a demografia positiva em Portugal. De facto, este ginecologista de Coimbra foi “pai” de mais de 17 mil crianças – isto é, conseguiu que pelo menos 17 mil casais de todo o País, com problemas de fertilidade, acabassem por ter filhos.

Este ilustre catedrático da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra, tem vindo a sublinhar a gravidade da situação e a necessidade de a enfrentar com medidas urgentes e eficazes.

Mas a nossa classe política continua distraída, mais preocupada com questões menores – como, por exemplo, a legislação que regulamenta o financiamento dos partidos…

Ora estes dados demográficos constituem uma verdadeira tragédia nacional!

Porque são terríveis as consequências, a médio e longo prazo, deste acentuado decréscimo na regeneração dos portugueses. A verdade é que este declínio da população não é um fenómeno generalizado.

Pelo contrário, na maior parte dos países europeus a população tem vindo a aumentar. De acordo com dados do Eurostat referidos pelo jornal “Público”, em 2016 havia 18 países europeus onde a população aumentava e só 10 onde ela diminuíra: Bulgária, Croácia, Estónia, Grécia, Hungria, Itália, Letónia, Lituânia, Portugal e Roménia.

É sabido que os jovens casam de cada vez mais tarde, que também de cada vez mais tarde têm filhos e que de cada vez têm menos filhos. Paralelamente, a esperança de vida aumenta a cada ano que passa, pelo que a nossa população está de cada vez mais envelhecida e de cada vez menor. Para focar apenas um dos aspectos do problema, o da segurança social: somos de cada vez menos a contribuir para assegurar a reforma e a assistência à saúde de cada vez mais.

Alguns especialistas defendem que, no imediato, só os nascimentos no seio das famílias de imigrantes conseguirão inverter esta tendência. A verdade é que nenhum cidadão responsável, minimamente preocupado com o futuro de Portugal e das novas gerações, pode continuar a alhear-se desta magna questão. Pelo contrário, impõe-se que ela seja sistematicamente abordada, para que se consiga inverter esta tendência demograficamente desertificante. Importa pressionar a classe política para que reconheça a importância vital deste problema – e assim tome as medidas urgentes e eficazes de que o País precisa e o bom senso exige.

Autor: Jorge Castilho (Director do AuriNegra)