História de Enxofães em livro

No dia 17 de Março, a ACRE (Associação Cultural e Recreativa de Enxofães) assinalou o seu 37.º aniversário com um programa diversificado que teve como um dos pontos altos a apresentação do livro do professor António Rodrigues da Costa.

Intitulado “Enxofães: Mais de Mil anos de História”, a obra resume tudo aquilo que o investigador foi descobrindo através de leituras e muitas centenas de horas passadas em bibliotecas e arquivos.

“Tudo começou quando estava a fazer uma exposição sobre o Mosteiro de Santa Cruz, em Coimbra, e comecei a encontrar várias referências a Enxofães”, explicou ao AuriNegra o autor; acrescentado que depois disso foi levado pela curiosidade: “Decidi iniciar uma investigação histórica que me permitiu descobrir muito sobre a aldeia. Quanto mais procurava saber sobre esta terra, mais encontrei. É fascinante”.

Durante a sua intervenção na apresentação do livro, Rodrigues da Costa começou por agradecer “àqueles que ajudaram a tornar este projeto uma realidade”.

“Quero agradecer principalmente a todos os enxofanenses que, generosamente, nos disponibilizaram as 149 fotografias, algumas utilizadas na ilustração do livro; e que no seu todo constituem um acervo que importa salvaguardar”, partilhou, recordando ainda o apoio “imprescindível” dos técnicos da Câmara Municipal de Cantanhede, “O Dr. Mário José Silva Jorge Martins e o Dr. Nuno Miguel Pessoa Caldeira, pela competência e pelo muito empenho colocados na concretização da edição deste livro”.

Depois, Rodrigues da Costa apresentou os resultados da investigação realizada durante três anos sobre Enxofães “a terra que, em boa hora, me acolheu” e que ainda “tem muitos aspectos que permanecem escondidos nas entranhas da terra e na poeira dos arquivos, enquanto outros esperam por um esclarecimento fundamentado”. Marcos, fontes, moinhos, tradições e locais históricos são apenas algumas das temáticas referidas nesta obra, que agora vê a luz do dia e que pode ser adquirida na sede da associação.

No entanto, frisa o autor, “existem outros fundos a necessitar de estudo, bem como alguns documentos já identificados, cuja leitura e interpretação importa aprofundar; e desde já me comprometo a fazê-lo, se a saúde e o jeito mo permitirem”.

 

O Sarrar da Velha

Uma das tradições que Rodrigues da Costa recorda no seu livro é o sarrar das velhas. “Uma tradição levada a cabo pelos rapazes em que nunca havia denúncias de quem tinha feito o sarrar pois todos guardavam segredo”.

“Acontecia a meio da quaresma, sempre a uma 4.ª feira. Chegando a ser feitas mais de vinte serradelas. Já noite dentro, os rapazes juntavam-se à porta da loja do Sr. Herculano, levando latas velhas e pratos; um deles ia munido com um funil. Todos estavam encapuçados para não serem reconhecidos, usando pela cabeça os xailes das mães ou um outro qualquer pano”, começa por explicar.

A função iniciava-se à meia-noite, deslocando-se sempre de uma casa para a outra em total silêncio. “Quando chegavam junto da porta da avó [só se dirigia a mulheres com netos] a ser serrada colocavam-se um pouco afastados – porque por vezes chovia uma penicada com algo malcheiroso ou porque, de outras vezes, mal começava o serrar alguém saia da casa a correr atrás dos serradores com um varapau”.

Os serradores, explica o investigador, tinham papéis bem definidos: “um, o imitador, procurava imitar a voz da mulher velha; outro, o confessor, falava através de um funil para que a sua fala fosse bem ouvida e não reconhecida”.