Haja saúde!

É quase unânime a opinião de que o Serviço Nacional de Saúde foi uma das principais conquistas da Revolução de 25 de Abril de 1974.

Os mais velhos ainda se lembrarão de como as coisas funcionavam antes, quando a prevenção era coisa rara e o tratamento das doenças era muito diferente para ricos e para pobres – tal como, por consequência, muito diferentes eram a taxa de mortalidade e a esperança de vida entre as classes privilegiadas e as mais desfavorecidas.

A Constituição da República Portuguesa refere, expressamente, no seu Artº 64.º, que “Todos têm direito à protecção da Saúde e o dever de a defender e promover”. E acrescenta que esse direito é realizado “através de um serviço nacional de saúde universal e geral e, tendo em conta as condições económicas e sociais dos cidadãos, tendencialmente gratuito”.

A verdade é que o Serviço Nacional de Saúde (SNS) tem vindo a degradar-se e começa a dar sinais preocupantes.

Disso mesmo se apercebeu António Arnaut, considerado “o pai do SNS” (porque foi projectado e aprovado quando ele era Ministro dos Assuntos Sociais), que foi lançando diversos alertas para essa degradação, tendo até publicado um livro sobre o assunto, em parceria com o médico e dirigente do Bloco de Esquerda João Semedo. Ambos viriam a falecer pouco tempo depois. Mas a sua preocupação continua viva e de cada vez mais actual. Aliás, no funeral de António Arnaut (em Maio do corrente ano), o Primeiro Ministro António Costa revelou qua na última conversa que tivera com o advogado, dias antes do falecimento, este lhe pedira: “Oh Costa, aguenta lá o SNS!”. Ao que ele respondeu: “Vamos aguentar o SNS nesta geração e para as próximas gerações!”.

A verdade é que não bastam as boas intenções para resolver problemas. E os que recorrem aos serviços de saúde notam que as coisas estão a piorar.

Um estudo apresentado na passada segunda-feira pelas ordens profissionais da Saúde, refere que o SNS precisa de mais 5.500 médicos, 30 mil enfermeiros e 140 farmacêuticos para os hospitais.

Na maior parte das especialidades, há longas listas de espera. Um problema qua agora se está agravar ainda mais, com a greve dos enfermeiros. A Ordem dos Enfermeiros estima que, por causa da greve, estejam a ser canceladas ou adiadas 500 cirurgias por dia nos blocos operatórios dos cinco hospitais que aderiram à greve – que se prolonga até 31 de Dezembro. E a bastonária afirmou mesmo que “o SNS não vai ter capacidade para reprogramar nos próximos anos essas cirurgias”.

É claro se até os juízes se sentem no direito de fazer greve, não se pode negar essa opção aos profissionais do sector da Saúde. Mas é legítimo questionar o que são, para eles, serviços mínimos. Ou, postas as coisas de forma mais crua: quantas pessoas vão morrer, desnecessariamente, por causa destas greves?

Enquanto as coisas assim estão no sistema público, vão surgindo mais a maiores hospitais privados, a demonstrar que a saúde pode ser um bom negócio.

Aliás, quando se questionam os cidadãos sobre o que consideram mais importante, todos respondem que é a saúde – sobretudo importante quando se passou já pela experiência de ela faltar…

A verdade é que, independentemente dos problemas do SNS, cada um de nós pode dar um contributo importante para preservar a sua saúde e a dos outros, através de gestos simples de prevenção e de civismo. Veja-se, por exemplo, o que sucede no Japão, onde milhares de pessoas usam máscaras quando estão constipadas ou têm outras patologias, de forma a não contagiar os seus concidadãos.

Entre nós, pelo contrário, nesta altura do frio, quando chegam as constipações e as gripes, assiste-se a uma generalizada falta de educação, sobretudo nos transportes e locais públicos, com gente a tossir e a espirrar para cima de quem está ao lado, numa chocante falta de respeito pelos outros.

Registe-se, a esse propósito, uma exemplar sentença do Tribunal de Aveiro, que esta semana condenou a um ano e quatro meses de prisão uma mulher por ela ter circulado vários dias em espaços públicos sem máscara de protecção, embora soubesse estar infectada com tuberculose.

As escolas têm aqui um papel muito importante, ensinando aos alunos estes gestos simples no dia-a-dia e sensibilizando-os para que sejam eles a exercer o papel de educadores em casa, junto das respectivas famílias.

Para que haja saúde!

Autor: Jorge Castilho (Director do AuriNegra)

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *