França, o País, Portugal, a Pátria

Manuel Lopes de Oliveira tem 80 anos e há mais de 50 que vive em França. Natural da Venda Nova do Bolho, foi na Chorosa, em Febres, terra natal da esposa, que viveu até deixar a sua pátria para trás, partindo à procura de uma vida melhor além-fronteiras.

Antes de partir para França, Manuel Oliveira vivia da música. “Tocava clarinete num terceto que se chamava ‘Os três amigos’ e participávamos em festas por todas a região e não só”, começa por contar, recordando as vezes em que foi de bicicleta até Santa Comba Dão para participar em eventos.

O gosto da música, explica-nos, surgiu bem cedo, quando, com um grupo de amigos, decidiu ir para Oliveira do Bairro aprender solfejo. Pelo meio das aulas de música ajudava ainda os pais na agricultura. A mãe era dona de casa e trabalhava no campo, já o pai trabalhava na área da pirotecnia, o que o fazia andar por todo o país. “Mas como era uma profissão muito arriscada, o meu pai nunca quis que eu seguisse essa vida. Preferiu que eu continuasse na música”, frisa.

Quando partiu o pulso direito num acidente, o agora octogenário não queria acreditar que teria que deixar o clarinete: “Foi doloroso mas entretanto tinham arranjado um substituto no grupo e eu não quis intrometer-me”, refere.

Depois disso, e embora tivesse apenas a 4.ª classe, arranjou trabalho no escritório de uma fábrica de ração em Leiria, onde passou cerca de sete anos. Saiu para aprender a profissão de soldador.

Quando completou 20 anos casou com Maria Augusta, a rapariga natural de Febres que aos 11 anos conheceu a apanhar agulhas no pinhal. “Pode não acreditar mas lembro-me muito bem desse dia em que a vi e pensei ‘que rapariga tão bonita, casava com ela’ e casei”, diz sorridente.

Nessa altura, a ideia de emigrar já estava bem presente no espírito de Manuel Oliveira, que pretendia partir para a África do Sul, onde vivia uma das suas irmãs. No entanto, o destino trocou-lhe as voltas.

“Nessa altura já sabia trabalhar como soldador e tinha o objectivo de ir para a África do Sul mas fui impedido, porque era difícil obter documentos. Fiquei tão revoltado que fui para um café e desabafei sobre a situação”, relembra.

Nesse mesmo café estavam dois membros da PIDE que escutaram as palavras ditas por Manuel. “Já era noite cerrada quando um conhecido me veio alertar da presença da PIDE no café, avisando-me para fugir dali para não ser detido ou algo pior. Peguei nas minhas coisas e vim para a Chorosa. No dia seguinte fugi para França a salto”, conta-nos.

A “fuga” não foi fácil, como nos revela: “De Febres fui para o Porto de carro. Segui de Comboio para Vinhas e depois entrei a pé em Espanha. De comboio segui para a última estação de Espanha e voltei a entrar a pé em França, onde assinei um requerimento que me garantia autorização para ficar durantes três meses até arranjar trabalho e me legalizar”.

Felizmente, como nos diz, o trabalho chegou rapidamente. Inicialmente numa estufa de pepino, depois na construção civil, mais tarde numa oficina e por fim numa empresa de ar condicionado, em Orleães, onde acabou por se fixar.

Durante todos esses anos, Manuel Oliveira refere ter conhecido a verdadeira dureza do trabalho. “Era complicado. Felizmente tive a família do meu lado [dez meses depois foi buscá-los a Portugal], embora só os visse aos fim-de-semanas, porque à semana andava sempre em viagem por toda a França”.

Na adaptação ao País, o português refere que o mais difícil foi “aprender a língua. Não saber francês tornava muito complicado o entendimento, mesmo nas coisas do dia-a-dia”. Assim que se estabeleceu na empresa de ares condicionados, onde fez carreira, a vida começou a compor-se. “Nessa altura já tínhamos dois filhos e a minha mulher também trabalhava na limpeza e assim ia-mos orientando a nossa vida”, refere. Mais tarde comprou uma casa, “com a ajuda essencial de um patrão da minha esposa, que se tornou um verdadeiro amigo” e a família começou a crescer.

Actualmente Manuel Oliveira tem em França os dois filhos – Isabel Oliveira e Jorge Oliveira (o conhecido pintor) – assim como quatro netos e seis bisnetos, e é por eles que não escolhe regressar de vez à sua Gândara natal. “Sabe-me muito bem vir cá de férias mas depois de um mês aqui já estou cheio de saudades de lá”, refere, acrescentando que o seu dia-a-dia passa por “ficar em casa de manhã, almoçar com a minha senhora e depois jogar petanca durante a tarde”.

Outro dos prazeres que tem é comer os pratos preparados pela sua esposa, que faz questão de caracterizar como “uma cozinheira tradicional e de mão cheia” e assistir a programas de televisão portugueses. “Dá para matar saudades da língua e dos sabores. Porque embora o meu país seja a França, Portugal é, e sempre será, a minha pátria”.