Folclore português em Bordéus

Vítor Manuel Mineiro nasceu em Seadouro, Covões, no ano de 1967, mas há mais de duas décadas que a sua terra Natal se tornou apenas local de férias e de descanso. Quando completou 26 anos partiu para França à procura de um futuro mais promissor e desde então nunca mais de lá saiu

“Em Portugal trabalhava em obras por todo o concelho, mas como havia mais fartura de emprego e dinheiro em França decidi arriscar. Passados sete meses a minha esposa foi lá ter com os meus dois filhos [o terceiro nasceu em França] ”, afirma ao AuriNegra.

Primeiro fixou-se em Landes, onde, através de um cunhado, foi trabalhar para o corte de madeira. No entanto, em 1996, mudou-se para Bordéus e foi por lá que, entre muito trabalho, descobriu uma verdadeira paixão pelo associativismo.

Actualmente, é presidente do rancho folclórico “Estrelas do Vale do Lima”, criado em 2014, mas o seu percurso nestas andanças começou bem antes.

Trabalhador da construção civil, mas parado há dois anos devido a uma hérnia discal, Vítor Mineiro, de 48 anos, explicou-nos como descobriu o folclore português em terras gaulesas: “Em 2005, o meu filho do meio convenceu-me a entrar para o ‘Grupo Folclórico Danças e Cantares do Alto Minho’, um rancho da comunidade portuguesa de Arcos de Valdevez em Bordéus, e eu decidi ir”.

Inicialmente, ajudava apenas nas festas, “no grelhador e a servir no bar mas com o tempo, fui ganhando cada vez mais gosto e também responsabilidades e acabei por ser eleito presidente da direcção”.

Pouco habituado a “festas e borgas”, Vítor Mineiro afirma que com o rancho acabou por conhecer uma nova vivência, “com um cheirinho português”, sem sair de Bordéus. “A vida de emigrante é um bocadinho dura. Apesar de se ganhar mais do que em Portugal, trabalha-se muito e os dias são passados de casa para o trabalho e do trabalho para casa. Estes momentos de descontracção e de convívio ajudam a aproveitar melhor a vida”, afirma. Através do folclore, fez novos amigos, conheceu novas tradições e conheceu novos lugares: “Tivemos actuações em Nice, Lyon, entre outros locais. Claro que as comunidades portuguesas são quem mais aprecia este tipo de grupos mas os franceses também gostam e dão valor”.

Durante sete anos, Vítor Mineiro esteve à frente do “Grupo Folclórico Danças e Cantares do Alto Minho”, mas um desentendimento com outros membros do grupo acabou por ditar a sua saída.

“Acabámos por sair vários elementos e decidimos criar um novo grupo. E assim nasceu o ‘Estrelas do Vale do Lima’ ”, no qual manteve o cargo de presidente da direcção. Dançar, refere, não é com ele, mas tanto a esposa como os filhos – que também integram o rancho folclórico – substituem-no na perfeição nesse papel.

Com um sorriso orgulhoso, Vítor Mineiro refere que o rancho “Estrelas do Vale do Lima” tem vindo a traçar um percurso demorado mas seguro: “Tem corrido bem. Temos as contas todas em dia – que vamos conseguindo pagar com o lucro obtido nos eventos que organizamos – e já temos recebido vários convites para actuações”.

“Quando me meto nas coisas levo- as muito a sério. Para além disso conto com uma verdadeira equipa que muito me ajuda e que tem sido uma segunda família”, sublinha.

Uma vez que a maioria dos elementos do grupo é natural de Arcos de Valdevez, o rancho é fiel ao verdadeiro estilo minhoto. “Desde os fatos às danças … Tudo remete para o Minho”, explica Vítor Mineiro, para logo depois acrescentar, em jeito de desabafo: “Preferia que fosse ao estilo gandarês, mas em Bordéus há pouca gente daqui do concelho. A comunidade portuguesa que lá está é maioritariamente do Minho, especialmente de Arcos”.

Ainda assim, Vítor Mineiro garante: “Serve à mesma para nos sentirmos mais perto de Portugal, das nossas raízes. Então nas festas de Natal e de Aniversário é uma maravilha. Jogamos ao loto, desenferrujamos a língua e comemos petiscos portugueses…”.

Voltar definitivamente para Portugal é uma hipótese que não coloca de lado, no entanto, é por França que pretende ficar nos próximos tempos, junto da esposa, dos filhos e dos netinhos. “Por enquanto é assim. Vamos aproveitando as férias [vem sempre a Covões em Agosto e em Dezembro] para matar saudades da família, da bebida, da comida e da terra”, conclui.

Autor: Redacção (Carolina Leitão)