Fogos XI – Os fogos e a tragédia deste fim-de-semana (15 de Outubro)

Não fiz nenhum comentário de propósito até agora. Não gosto de reagir a quente, sobretudo quanto toda a gente “percebe” do assunto, percebem de futebol, acidentes de automóvel e de fogos florestais.

Nada de espantar, no passado também se tiravam dentes no barbeiro e acho que o famoso Zé Lerias, de Coimbra, conseguia cortar crinas de cavalos, cortar a cabelo e a barba a homens e sempre dava um jeito a arrancar um dente.

Estamos perante uma situação mesmo muito grave, com uma dimensão de vítimas e de área ardida provavelmente nunca vista.

Não vou repetir o que já escrevi antes, mas passados estes dias, já com os ânimos mais serenos, importa registar algumas reflexões.

1 – Uma tragédia desta dimensão, com um número tão elevado de mortos, de feridos e com uma destruição deste tamanho, merce em primeiro lugar respeito.

A forma como PSD e CDS procuraram fazer chicana política com os mortos é no mínimo miserável e reveladora de falta de ética, de valores e princípios morais. O PSD atolado num desastre político e divisões internas, procurou desviar atenções e cavalgar a tragédia, o CDS seguiu-lhe o exemplo ou até quis ir mais adiante, Cristas do alto da sua pequenez até ignorou que foi ministra com responsabilidades na matéria. Ambos lançaram poeira para os olhos e procuraram esconder as suas responsabilidades na criação da situação que se vive.

2 – O ano foi terrivelmente seco, as condições meteorológicas anormais. A vegetação estava seca. O fim-de-semana esteve em condições extremas. O furacão Ofélia trouxe massas de ar seco e quente de África para a Península Ibérica, o que foi agravado pelo vento e originou maior temperatura e ausência total de humidade. Há de facto alterações climatéricas que têm de merecer uma atenção diferente.

3 – O número de ignições, 500, é absolutamente anormal. Fizeram-se queimadas que depois se desdobraram em fogos incontroláveis. Muitos queimam lixo, outros fazem queimadas de matos para nascer pasto verde. Há incêndios provocados pelo sobreaquecimento de linhas da EDP e por vezes não têm as faixas de protecção limpas, outros ateados por utilização de máquinas agrícolas e até por travagens de comboios ou nascidos na berma da estrada pelos tubos de escape de camiões ou outras viaturas. Continuam e continuaram as festas em aldeias com lançamento de foguetes, quem permite? Quem autoriza?

É preciso proibir, mas não basta. É necessária uma acção pedagógica em que as televisões e os órgãos de comunicação social deveriam ser obrigados a participar e divulgar.

Os pastores deveriam ser apoiados para fazerem os seus fogos controlados na época própria.

Os prevaricadores deveriam, no mínimo, ser multados e deveria ser estimulada uma atitude de denúncia. Vê-se uma queimada de lixo ou outra e deixa-se andar. A GNR tem de ter uma atitude mais interveniente.

Cerca de 85% dos incêndios nascem a menos de 500 metros de povoações. Se embarcássemos na teoria de que são todos incendiários, estes teriam de ser muito estúpidos para o fazerem tão perto dos sítios em que podiam ser vistos… Quando se propaga a ideia de incendiários, está-se a desresponsabilizar a sociedade e a fugir dos problemas essenciais.

4 – A detecção não funcionou também porque os postos de vigia estavam desactivados. A época de “risco de fogo”, a tal fase Charlie, tinha terminado em 30 de Setembro, uma asneira grossa em que a GNR e a protecção civil têm responsabilidades. O risco de fogo não é compatível com calendários administrativos herméticos. O mesmo aconteceu na vizinha Galiza em que a Junta despediu 500 brigadistas 15 dias antes de tragédia idêntica. O risco de incêndio nas zonas mais afectadas era máximo.

5 – Naturalmente que não se modificam as condições estruturais em meia dúzia de dias, semanas ou meses. Mas acentua-se que a causa primeira começa na ausência de prevenção, na acumulação de matos, carga combustível, de não se actuar no inverno e preparar a época seca.

A opção continuada, ano após ano, de se investir no combate em detrimento da prevenção deu asneira, é “coisa” que vem de há anos a esta parte em que os governos anteriores têm também fortes culpas no cartório.

Separar as 3 componentes, prevenção, detecção e combate, por responsabilidades diferentes só pode dar, e deu, descoordenação. É necessária uma intervenção conjunta e coerente, é necessária uma coordenação central.

6 – Os fogos desenvolvem-se sobretudo nos matos, com frequência em terras sem cultivo. O problema não é desta ou daquela espécie, não é do eucalipto e do pinheiro bravo, todas ardem. O problema é do ordenamento do território, dos espaços florestais e dos outros, das zonas envolventes das habitações, da urbanização desregrada. O problema é, insisto, de prevenção, de organização do território, de combater a desertificação humana, de promover o desenvolvimento rural.

7 – O combate não é feito aos fogos florestais, o “combate” é feito de protecção às aldeias e aglomerados populacionais. Por mais simpatia e solidariedade que mereçam os bombeiros voluntários, estes não são a solução. Os bombeiros voluntários são vítimas da situação, porque lhe são atribuídas responsabilidades para as quais não têm, nem podem ter, competências.

Os fogos nascem nos matos e nos espaços florestais, vão adquirindo dimensão e força, ficam descontrolados e muito mais difíceis de combater e só os “enfrentam” quando chegam às aldeias.

É necessário profissionalismo, são necessárias brigadas de sapadores florestais, profissionais, que trabalhem todo o ano na floresta, na beneficiação de povoamentos florestais, na criação de faixas de protecção, no uso de fogo controlado. São necessárias brigadas de sapadores que conheçam os espaços florestais, os caminhos e que, no Verão, são, e serão, os mais competentes para atacar os fogos na sua nascença e minimizarem prejuízos.

8 – É curioso assinalar que muitos dos que sempre defenderam, e defendem, menos Estado, nesta (s) ocasião pedem mais Estado e atribuem mais responsabilidade ao Estado. A hipocrisia, ou os interesses, não tem limite.

Há saber, há conhecimento, há Engenheiros Florestais que têm de assumir maior responsabilidade, têm de ser devidamente aproveitados. Infelizmente os órgãos de comunicação social, as televisões, estão mais interessados em ouvir patarecos que nada percebem do assunto.

Tem de ser recuperada a capacidade dos “Serviços Florestais”.

Tem de se ter uma abordagem múltipla e tratar do território no seu conjunto, envolvendo não apenas engenheiros florestais, mas também arquitectos paisagistas, economistas, sociólogos, antropólogos, etc. tem de se reforçar os meios do Estado, só assim venceremos o desafio e evitaremos situações semelhantes no futuro.

Autor: Vasco Paiva (Engenheiro Florestal) 

O autor colaborou com o AuriNegra na elaboração de 13 textos referentes aos incêndios.