Fogos X – Porque os fogos atingem tamanhas dimensões…

1 – No ano passado houve humidade, cresceu a vegetação, os matos, as ervas… Este ano é um ano seco, uma Primavera seca, altas temperaturas…

A vegetação, os matos, estão de maior dimensão e secos, maior carga combustível, maior pasto para as chamas.

Os fogos, em Portugal, alimentam-se fundamentalmente da vegetação “rasteira”, são na sua esmagadora maioria fogos de progressão horizontal.

Mais carga combustível, mais matos e ervas, maior facilidade dos fogos progredirem e adquirirem maior dimensão.

2 – Não houve prevenção. Em Portugal desperdiça-se imenso dinheiro no combate e não se investe na prevenção. Todos os anos se “reforça” em milhões de euros os meios para o “combate”, para os bombeiros e suas corporações, para a contratação de meios aéreos e outros e pouco ou nada se atribui para a prevenção e as prioridades devem ser inversas.

Poupa-se no farelo, gasta-se na farinha.

Os fogos combatem-se no inverno, isto é previnem-se, evitam-se, reduz-se a carga combustível, constroem-se faixas de descontinuidade, promove-se o fogo controlado para reduzir os matos. Ora nada disto é feito, e tem de ser. Tem de existir um Plano e um investimento sério na prevenção.

Mesmo medidas mínimas de “limpeza” em volta das aldeias, caminhos e estradas não são efectuadas. Cerca de 80% dos fogos ocorrem num raio de 2 km à volta das localidades…

Sem prevenção na época própria, no Outono/Inverno, maior a probabilidade de ocorrerem fogos de maior dimensão no Verão.

3 – A prioridade que tem sido definida nos fogos é primeiro proteger as pessoas, as casas, as aldeias, os bens e equipamentos e só por último atacar o fogo rural, florestal.

Os fogos não são atacados no seu início, então crescem, como é óbvio, atingem dimensões que depois tornam o seu combate muito mais difícil.

Faltam sapadores florestais. Faltam equipas que trabalhem na floresta todo o ano e que, quando chega o Verão, conheçam os caminhos e os lugares como ninguém.

Os meios utilizados não são os adequados, como já referi em textos anteriores. Os fogos combatem-se no seu início com ferramentas manuais, com terra, e criando linhas limpas, usando máquinas pesadas que criem essas faixas quando atingem maior dimensão para travar o seu progresso, e, com gente competente, criar contrafogos, que vão ao encontro do fogo principal.

Faltam técnicos competentes para dirigir e coordenar o combate aos fogos. Falta Engenharia Florestal.

Quando alguém está doente, quando há alguma epidemia, não se deixa o problema nos maqueiros ou nos bombeiros que transportam os doentes. São úteis, mas não é essa a sua competência e função. Até quando se vai manter o amadorismo?

Falta ciência no combate ao fogo rural e florestal, sobra voluntarismo, improviso e desnorte.

Há algumas semanas percorri a pé a Serra da Gardunha. Olhamos a paisagem, a cobertura da vegetação. Não se compreende como o fogo que agora lá ocorreu tenha atingido tal dimensão e duração e como não foi sustido logo no seu início ou em algum ponto da sua evolução onde era previsível que ia perder força e velocidade.

As palavras desesperadas do Presidente da Câmara do Fundão são bem reflexo da desorientação reinante. O Presidente da Câmara, por muito complexa que era a situação, como responsável da protecção civil no concelho não podia perder a serenidade. Não esteve à altura da sua função.

A situação no País está a atingir tamanha dimensão que as corporações de bombeiros estão desorientadas e os homens estão cansados. Muito facilmente pode agravar-se.

4 – Por último há um facto preocupante. Há muita descoordenação, muita desorientação, como já referi. Está em causa se os actuais comandantes dos bombeiros têm suficiente formação e experiência de terreno.

Não será agora, mas no Outono há que tirar as lições e conclusões deste trágico Verão.

Autor: Vasco Paiva (Engenheiro Florestal) 

O autor colaborou com o AuriNegra na elaboração de 13 textos referentes aos incêndios.