Fogos VII – Mas afinal o que arde em Portugal?

Socorremo-nos da estatística do ICNF (Junho 2015) que contem essa informação entre os anos de 1996 a 2014. São os dados disponíveis, mas é um intervalo de tempo extenso que corrige eventuais anomalias pontuais.

Nesse intervalo de tempo, o que mais ardeu foi MATOS E PASTAGENS – 50% da área ardida.

A seguir foram pinheiros – cerca de 15%.

Em 3º lugar surgem as áreas agrícolas e outras ocupações sociais – 14%.

Eucalipto, em 4º lugar com 11% da área ardida.

Se estreitarmos esse intervalo de tempo para os 10 últimos anos (2015 a 2014) a relação mantem-se a mesma, com ligeiros desvios pontuais. Matos e pastagens – 51%, pinheiros – 15%, área agrícola e outras 15%, eucalipto – 13%. Nos últimos 15 anos o comportamento é semelhante.

Entre 2006 e 2015 arderam em média 44.355 ha de matos e 26.507 ha de povoamentos florestais. Cerca de 63% da área ardida foi de matos.

Não tenho os dados disponíveis de onde ocorreram as ignições, mas a lógica será que a maioria ocorreu nos Matos.

Não é difícil entender que assim seja. A carga combustível é determinante para a proliferação e alastramento dos fogos, cuja melhor designação será de fogos em espaços florestais em vez de fogos florestais. Os fogos progridem predominantemente na horizontal e quando há grande carga de combustíveis, matos, então propagam-se às copas, na vertical.

As intervenções de prevenção terão naturalmente de olhar para esta realidade e actuarem no domínio da redução de carga combustível, dos matos. As operações de limpezas parciais, criação de faixas de descontinuidade e fogo controlado, a serem realizadas no Inverno, serão determinantes para se ter um Verão mais sossegado…

E as espécies florestais, qual a sua susceptibilidade?

Um trabalho realizado por Paulo Fernandes (UTAD) compara a área ardida por espécie com a sua % de ocupação.

Os resultados podem ser um pouco surpreendentes para alguns: em 1º lugar os Carvalhos – 35,8%; segue-se o pinheiro bravo com 34,8%; o eucalipto com 29,8%; outras resinosas – 26%; acácias – 20,3% e as restantes espécies em percentagens muito inferiores.

O que ressalta, neste “1º lugar” para os carvalhos, é que provavelmente os carvalhais existentes estão muito mal ordenados, mal conduzidos e com predominância de rebentação de toiça, talhadia, não cuidada.

Em termos de risco de fogo nos espaços florestais, a questão principal não será tanto das espécies, mas da forma como são conduzidas, onde estão instaladas e qual a acumulação de combustível, o mato, existente.

E, como sempre, vale mais prevenir que remediar… e é mais barato e mais eficiente.

Autor: Vasco Paiva (Engenheiro Florestal) 

O autor colaborou com o AuriNegra na elaboração de 13 textos referentes aos incêndios.