Fogos VI – A escolha das espécies florestais

Um amigo gostava muito de castanheiros e queria plantar uma área na Bairrada. Expliquei-lhe que não era região para castanheiros que eles precisavam de frio no inverno, acima de uma determinada altitude e virados a Norte. Mas, o meu amigo gostava mesmo de castanheiros, teimou uma, duas, três vezes e não sobreviveram. Claro o dinheiro era dele e tirou as conclusões devidas.

Em zonas de linhas de água, ou encharcadas, só sobrevivem espécies cujo sistema radicular esteja adaptado a condições anaeróbicas, senão morrem por asfixia radicular. Boas opções, são as chamadas ripícolas: freixo, amieiro, choupo, salgueiro, sabugueiro, bétula ou vidoeiro… Outras, simplesmente morrem.

Plantou-se muito choupo quando existia a Fosforeira, em que a madeira era óptima para fósforos. Quando desapareceu, “emigrou”, a empresa e não havia aproveitamento industrial, deixou de se plantar choupo. Os salgueiros também eram muito interessantes quando se produziam muitos cestos de vime…

Em zonas calcárias sobrevivem as árvores que suportam um pH do solo mais elevado, como o pinheiro manso, o pinheiro do alepo ou o Cupressus lusitanica vulgarmente conhecido como cedro do Buçaco… outros não se dão bem, não se desenvolvem…

Na família dos Quercus – carvalhos – nota-se nas próprias folhas a adaptação a cada região: O Quercus pyrenaica, carvalho negral, de folha muito mais recortada para reduzir a evapotranspiração nas regiões do interior; se se vem para o litoral encontra-se o Quercus robur, carvalho roble ou alvarinho, com folha menos recortada, já beneficia de mais humidade; se vamos para o sul então domina o sobreiro e a azinheira, ambas de folha pequeníssima para suportar os excessos de calor e a falta de humidade.

As dunas do litoral foram fixadas com o Pinheiro bravo, mas acima dos 700 m o P. bravo já não se dá bem… se vamos para maior altitude então é o Pinheiro silvestre que era muito procurado quando se faziam postes de madeira, depois chegou o cimento…

Toda esta conversa para dizer que não se escolhem as espécies por serem mais ou menos bonitas ou por questões de gostos ou afectos. Existem as condições edafo-climáticas que determinam a escolha e a adaptação das espécies e o interesse comercial, a possibilidade de venda.

Reina por vezes alguma mentalidade em que a Natureza parece que só existe fora das cidades… e que aqueles que vivem, ou trabalham nos meios rurais, têm de se sujeitar às vontades e gostos dos que lá não vivem…

Também não deixa de ser curioso que só se fala em exóticas quando o tema são árvores. E se alargássemos essa preocupação aos restantes produtos do campo? Deixávamos de plantar batatas? Milho? Laranjeiras? Olhem que a lista é mesmo grande…

Se há boa água para consumo nas cidades é porque há floresta a montante que protege o solo, evita a erosão e ajuda à infiltração da água no solo que depois há-de correr para os ribeiros e rios e desaguar nas torneiras das nossas casas. Claro que se paga a sua distribuição, mas ninguém paga a sua “produção”.

O mais eficiente meio de fixação do carbono, libertando-se o oxigénio, é nas árvores. Carbono que é retido no seu lenho, madeira, e mais tarde nos produtos transformados. E assim os meios rurais, a floresta, andam a limpar o CO2 e os monóxidos de carbono produzidos pelas cidades, fábricas, automóveis… Claro que as árvores mais eficientes são as mais jovens e de crescimento mais rápido porque processam mais fotossíntese. Goste-se ou não se goste, é esta a verdade.

A floresta que produz também protege!

A escolha das espécies, a diversidade vai depender da sua utilização. Enquanto tivermos uma indústria de mobiliário que importa mais de 90% da madeira que utiliza, é muito difícil termos utilização para as nossas madeiras nobres, e não poucas vezes vemos que o único destino que se encontra para as madeiras nobres, como carvalho ou outras, é o menos nobre, para lenha, para queima …

Há interesse pelo castanheiro, nos locais próprios, porque há venda e transformação para o seu fruto. Há interesse pelo pinheiro manso, nos locais próprios, porque há venda para o pinhão e transformação, preparação do miolo e assim por diante…

Por tudo isto, afirmo que não se escolhem espécies por serem mais ou menos bonitas e que o problema da diversidade das espécies também está a jusante, na transformação, na indústria.

A silvicultura também se tem de adaptar aos destinos da madeira. Hoje já não se usam madeiras de grandes dimensões. Na generalidade as pessoas vivem em apartamentos, andares. É necessária mobília que se transporte e se monte facilmente. As peças de madeira podem ser coladas, ou encaixadas. Assim, serão precisos menores diâmetros e algumas dessas espécies podem ser cultivadas com ciclos, rotações mais curtas.

Se o proprietário tem rendimento, então cuida melhor, limpa, preserva a sua propriedade. Qual a admiração? Não é assim nos outros sectores de actividade? Nas cidades, nas indústrias e comércios…

Autor: Vasco Paiva (Engenheiro Florestal) 

O autor colaborou com o AuriNegra na elaboração de 13 textos referentes aos incêndios.