Fogo V – Uma floresta humanizada

A floresta não é uma mera carta geográfica onde se desenham e onde podem estar, ou não, estas ou aquelas espécies, faixas de contenção, ou outas conforme se entender nos gabinetes, nas cidades ou onde quer que seja.

A nossa floresta é humanizada, tem casas, aldeias, pessoas!

A desertificação humana afectou de facto muito do nosso interior, mas ninguém pense que tudo se resolve evacuando as pessoas ou apoderando-se dos seus terrenos porque supostamente estão abandonados… ou estarão com “matos”… vegetação que também cumpre o seu papel ecológico?

Quando alguns falam em “ordenamento do território” fico sem saber o que exactamente querem e muitas vezes parece mais um chavão do que outra coisa. Porque à partida todos estarão de acordo…  mas de acordo, com quê?

O cadastro é outra justificação em voga. Não nego a importância do cadastro, mas alguma vez a sua ausência impediu que se fizessem barragens, estradas, Rede Eléctrica Nacional (REN) ou outras? E todas elas implicaram negociações com os pequenos proprietários e inclusive indemnizações… e não os encontraram? E por baixo da REN é proibida a existência de árvores que atinjam determinada altura e cumpre-se ou não? Pena é que por vezes não paguem o devido aos proprietários… E as Zonas de Caça Associativas também foram feitas sem existência de cadastro…

Quando atacam e acusam o minifúndio o que desejam é de facto apoderar-se das terras, proceder à concentração da terra… nas mãos de quem?

Quando não têm soluções, saber, capacidade técnica, debitam os dois chavões: ordenamento do território e eliminação do minifúndio. Mas o latifúndio também arde…

Mas o minifúndio foi sempre o principal fornecedor de madeira para as diversas indústrias. O minifúndio também promove a biodiversidade, quanto mais não seja porque não gera uniformidade, mesmo em termos de idade dos povoamentos. O mais importante é uma boa gestão dos espaços florestais.

O pequeno proprietário aprendeu a escolher as melhores plantas, a fertilizar o solo, a cuidar.

Também nas zonas do minifúndio é possível fazer “limpezas de mato”. Não é preciso “limpar” tudo, basta fazer em faixas, criar descontinuidade. O sub-bosque também é essencial para a fauna. Volto a afirmar: é necessário saber, técnica, Engenharia Florestal. E existem engenheiros florestais e boas Universidades e Escolas Superiores/Politécnicos que podem formar novos licenciados ou bacharéis.

Quando se retira o “mato” está também a exportar-se nutrientes que são essenciais para o solo, é preferível integrá-los na terra, com grade de discos, ou corta-matos ou proceder à sua eliminação com fogo controlado.

A utilização de fogo controlado exige saber, mas felizmente hoje já temos técnicos competentes com domínio dessa arte.

E o pastoreio… as cabras são as melhoras máquinas roçadoras, não têm gasto de combustível, limpam, comem os “matos”, cagam i.e. estrumam e no final os cabritos ainda são rendimento.

Tudo isto pode ser feito, organizado, pelas Associações de Proprietários Florestais. Também é para isso que elas existem.

O apoio económico que for dado para esses tipos de intervenção são um investimento que se multiplicará n vezes na poupança de recursos e meios que se desperdiçam no combate aos fogos. Vale mais prevenir do que remediar, não é?

Autor: Vasco Paiva (Engenheiro Florestal) 

O autor colaborou com o AuriNegra na elaboração de 13 textos referentes aos incêndios.