Fernando Santos, doutor na cidade escolhida

(Reportagem publicada originalmente em Maio de 2003)

Foi um acaso ter vindo, mas Febres acabou por ser a sua “cidade”. Fernando Rodrigues dos Santos, 73 anos de idade e 50 anos de médico. Hoje como sempre permanece diariamente no seu posto, pronto para o que der e vier. Disponível para a terra que o “enredou” e a quem oferece um livro.

Quem entra no consultório, na casa situada no limite altaneiro da praça central de Febres, não diz que o doutorado Fernando Rodrigues dos Santos ou Ferro Santos, como aparecerá em “Contos do meu Rosário”; esteve muito mal de saúde.

Não passaram 15 dias sobre duas intervenções cirúrgicas sucessivas e o médico já ocupa o seu posto de quase 50 anos, bata branca cingida, sentado atrás da secretária, onde um computador ocupa agora o lugar central.

“Vou ficar aqui até morrer” – diz, com o maior dos à-vontades. O cirurgião que o operou ficou “danado” por ter voltado ao consultório sem respeitar o descanso recomendado, mas o doutor confessa que, “mesmo mal”, não se cansava de pensar: “Quando estiver bom, vou lá para a consulta”.

NÃO CUROU, MORREU!

Licenciado em Medicina e Cirurgia em 1953, veio para Febres, como diz, “por acaso”. Américo de Oliveira, pai do médico Fernando de Oliveira e do escritor Carlos de Oliveira, adoeceu já o ano de 1957 definhava. Por alturas de Novembro, Fernando Santos era já médico em Cantanhede, com consultório aberto, carreira hospitalar iniciada e tropa cumprida.

“O Dr. Fernando de Oliveira foi a minha casa e pediu-me para vir para aqui fazer a consulta do pai, porque ele tinha sido internado de urgência em Coimbra. E eu vim. Vinha aqui, fazia a consulta de manhã e à tarde ia para o meu consultório em Cantanhede. Na presunção de que o Dr. Américo ficaria curado dentro de 15 ou 20 dias que foi o que o Fernando de Oliveira me disse”.

Não curou. Morreu. Morreu logo no início de 1958. “No dia primeiro, acho eu, ou segundo. Era um homem extraordinário. Deixou muita pena. Mas eu agarrei na maleta e fui-me embora para Cantanhede, onde queria ficar. Passados dias apareceu-me lá o Dr. Fernando a pedir-me para vir para aqui até Setembro, para a viúva, a mãe, receber a avença. Ainda se estava no tempo da avença e a avença era paga pelo S. Miguel”.

E eu vim. Vim por uma razão: entre mim e o professor Fernando de Oliveira e o Dr. Américo de Oliveira já havia uma amizade tão grande que eu era incapaz de dizer que não”.

Veio e para ficar sozinho. Quinze dias depois de se ter instalado, a criada “muito velha” da família Oliveira disse que não queria ficar com o Dr. Fernando, um jovem na flor da idade, “porque era uma vergonha”.

“Só não morri a rir porque não calhou. Entretanto casei, em Março de 58, e depois vim para aqui morar. E fiquei eternamente”.

“Eu queria ir para uma cidade. Estava só em Cantanhede, a pontos de fazer a especialidade e depois queria projectar-me, enfim, numa cidade. E a cidade onde eu me projectei foi Febres, num meio rural, onde a medicina, nessa altura, era heróica. Absolutamente heróica”.

DOS PÉS À CABEÇA

Hoje com os dois filhos professores universitários (nenhum na área da Medicina), com o computador à frente, a televisão a debitar o EuroNews por entre mapas do corpo humano e um rol de livros acumulados, parece distante o passado do médico sempre pronto para todo o serviço, sem horários nem férias, a tratar de tudo e mais alguma coisa, incluindo urgências que deveriam ter ido para o hospital mas que, por pobreza extrema, nem para lá podiam ser transportadas.

Só um amor muito grande podia fazer com que o jovem médico tivesse deixado as ambições para trás. “Fiquei completamente enredado. Esta é a minha terra. Esta é a minha terra” – diz Fernando Santos (a repetição, serena, é dele), reforçando a opção que ainda hoje é a sua, apesar de há 14 anos, estar a residir em Cantanhede.

“Não vivo em Cantanhede. Vou dormir a Cantanhede. Porque perdi o contacto com os amigos. Os meus colegas morreram praticamente todos, menos um. Os amigos de café, os amigos de infância, os amigos da escola e tal desapareceram. Os amigos do futebol (porque eu joguei futebol) desapareceram. Desapareceram não, uns desapareceram e outros perdi completamente o contacto. De maneira que as minhas raízes estão aqui. Sou um febreense dos pés à cabeça”.

Se não tivesse queimado os registos que foi fazendo durante muitos anos, as gavetas do armário que outrora estavam ali, por cima da mesa de trabalho médica que carrega as mesmas histórias do doutor, seriam testemunhas de uma vida dedicada a Febres e à região. Fernando Santo está convencido de que seria possível já documentar mais de um milhão de actos médicos realizados, o que faria de si caso raro no mundo, com dias de “mais de 63 pessoas”, 50 anos sem nunca tirar férias.

LA IA O MÉDICO

Incluindo longos anos em que não havia nem laboratório raio x em Cantanhede e as condições de vida não tinham nada a ver com o presente.

“Fiz partos para aí, em todo o lado, à luz de velas. Tinha chamadas às três e quatro da madrugada de sítios onde nunca tinha ido. Ali, naquela mesa, fiz centenas de gessos, curetagens uterinas no hospital, incontáveis. Não havia planeamento familiar, não havia contraceptivos, as mulheres engravidavam com muita facilidade. Não podiam ter famílias grandes porque era dispendioso, então recorriam às abortadeiras da Figueira da Foz e de Coimbra que deixavam sempre qualquer bocado de placenta… Lá ia o desgraçado do médico à uma ou duas ou três da manhã, com hemorragias brutais em condições…mas nunca me morreu ninguém”.

O médico tinha que fazer tudo. Desde o penso ao gesso, desde a sutura…a tudo. Primeiro não havia transportes para os Hospitais da Universidade de Coimbra, nem havia a cultura de enviar as pessoas. Quanto muito paravam no hospital de Cantanhede e aí nós tínhamos que fazer tudo”.

“A coisa foi-se modificando, lentamente, e hoje aqui a zona de Febres já se pode considerar uma zona citadina. Todos os lugarzitos que têm nome – Cabeços, Balsas, Chorosa, Sobreirinho, Forno Branco, Lagoas, Arrancada…não estavam em contacto uns com os outros. Eu fui presidente de uma comissão de festa e o resultado – tínhamos mil escudos – foi para ligar a electricidade daqui de Febres para a Arrancada. Nós é que pagámos esse ramal”.

DESESPERADOS

Fernando Santos exemplifica para retratar o que era “de facto, uma miséria”, bastando olhar “para as casas, a maior parte de chão térreo, sem casas de banho nem disso lembrança”.

“Imagine-se os primórdios, a idade da pedra, aqui. Hoje, todos estes lugarejos estão ligados e isto forma um aglomerado populacional que é enorme. Isto tudo é Febres. E se nós fossemos a cotejar todo este volume com Cantanhede não sei qual seria maior. Hoje Febres já é uma terra que vale a pena. Uma terra que anseia por progresso. Aqui há um barreirismo muito grande. Logo nas primeiras levas de emigrantes para França, Febres foi uma terra pioneira e que mais gente levou. Passado pouco tempo começavam a mandar muito dinheiro e começaram a arranjar casas. Começaram a pôr soalhos e coisas assim, a fazer quartos de banho (embora não os utilizassem). Sempre tiveram outra vida”.

50 anos depois as histórias são diferentes. O próprio Fernando Santos mudou, embora continue, como sempre, a cingir a bata branca e a aguardar que precisem dos seus cuidados. No consultório o movimento não é que se compare como o de outros tempos, mas ganhou-se espaço para a conversa correr, para uns desenhos e para o registo de uns contos que a vida teceu. Doentes também, mas só “os desesperados”, que já correram tudo e que precisam da experiência de quem os conhece de berço. Bastas vezes, também a carência e a certeza é mais de uma palavra amiga do que um papel rabiscado com uma receita.

OLHOS QUE PODEM OUVIR

Sempre do “reviralho”, diz Fernando Santos. Acusado de ser comunista, o médico diz que foi só “anti-salazarista”: “A minha resistência era aqui. Tudo quanto era Estado Novo, eu derretia. Tinha uma língua de ponta, por isso é que andavam sempre a chatear”.

“Volta e meia tinha que ir a Coimbra, à PIDE. Fizeram inquéritos aqui, fizeram inquéritos em Cantanhede, veio o próprio directo da PIDE de Coimbra (o capitão Sachetti que acabou meu amigo), e eu tive que apresentar cinco testemunhas”.

Foi dos primeiros indivíduos a ser mobilizados para a guerra do Ultramar. “O correio trouxe-me um simples postal: Apresente-se no depósito de material em Lisboa, no dia tal, para seguir para o Ultramar”. E eu agarrei no postal e fui lá despedir-me do capitão Sacceti. Ele era uma pessoa bem educadíssima. Vestia como um modelo, embora tivesse muito pouco cabelo alisava-o muito bem. O gabinete era de um luxo extraordinário. Andava sempre de pingalim e, na Baixa, ia lancha À pastelaria da moda, em Coimbra, ao lado do Nicola, a Central.

“- O que é que o Dr. Quer?

“- Olhe, venho-lhe perguntar se vamos no mesmo avião ou no mesmo barco?”

“- Para onde?”

“- Para o Ultramar”

“Você é maluco?”

“O quê? Não me diga que o Salazar não o mobilizou? Então eu sou um comunista reles, como o senhor andou aí a dizer uma data de tempo e ele chamou-me a mim? Não me diga que ele tem mais confiança em mim que em si”. Foi uma bronca mas o homem encaixou.

“Mais isto estraga-lhe a vida toda”.

“Oh Sr. Capitão, não diga isso alto que podem ouvir. Estraga a vida toda? Mas eu vou defender a pátria, que é o que dizem”.

A “cena desgraçada” ocorreu um pouco antes de Fernando Santos seguir para a guerra de África, “prémio” por um comportamento que não escondia críticas severas e públicos À situação.

COM 104 POR CENTO

“Havia aí tipos que diziam que eu era comunista. E eu era um anticomunista primário e sou ainda. Nunca me encantou aquele sistema de maneira nenhuma. Sempre fui um antissalazarista convicto como qualquer pessoa com um bocado de raciocínio. Portugal vivia num inferno, numa prisão. Não tínhamos direito à informação, à reunião, não tínhamos direitos rigorosamente nenhuns. Zero”.

Nem o direito de escolher e decidir. O voto era a máscara do regime, com os cadernos eleitorais elaborados para que votasse apenas os favoráveis à situação.

“Havia aí uma aldeia em que o cacique era um padre. Já morreu. Morreu-me nos braços. Quando chegava aquelas horas em que já não aparecia mais ninguém, faziam a ‘chapelada’. E nós dizíamos que lá nesse sítio era raro uma eleição não ser ganha por 102 ou 104 por cento, porque a mão dele era muito pesada, metia lá mais votos que aqueles que estavam descarregados nos cadernos”.

Da fama não se livrava o médico de Febres. E de algum proveito, ainda que forçado, sabe-se agora que pela sua boca, Fernando Santos, amigo para todas as ocasiões, correspondeu, em certa altura, a um pedido de um médico de Cantanhede, para o acompanhar numa emergência nocturna para a zona da Tocha.

Numa zona deserta, entre Santo André e Mira, para onde desviara o amigo, o carro parou com o pretexto de fumar um cigarro. A ideia de que o amigo tinha ligações ao Partido Comunista, o engano na direcção e a paragem no ermo, avolumaram a suspeita de que algo estranho se estava a passar. Tanto que, passado pouco tempo, um carro chegou, largou um misterioso passageiro que logo entrou na viatura dos dois clínicos, sem dar uma palavra.

O QUE CHOREI

“Fique tão sufocado que nem olhei para ele. Também não sou burro e comecei perceber o que era. Largámos o tipo ali perto da Cova da Serpe, onde estava outro carro. Parámos- Nem bom dia, nem boa tarde, nem boa noite (isto já era umas duas da manhã) e só depois é que ele me disse que era uma alta figura do Partido Comunista Português que estava na clandestinidade e que precisava de ser transferido para outro sítio.

“Não sei quem era. Não olhei para trás. Mas devia ser uma figura importantíssima. Não sei se foi o Álvaro Cunhal, se foi outro tipo assim, não faço ideia nenhuma. Nem quis saber.”

A “resistência” de Fernando Santo era no seu próprio consultório. “Tudo quanto era Estado Novo, eu derretia. Tinha uma língua de prata”.

Depois foi o 25 de Abril, chegado às 8 da manhã, por boca do António Silva, empregado de farmácia. “Ah! Chorei aqui como uma criança. Sozinho. Oh meu deus, o que eu chorei aqui, porque de facto, foi uma libertação desgraçada”.

Seguiu-se um período conturbado. Os tempos do “Processo Revolucionário em Curso (PREC)” o “período mais intenso da História de Portugal”, ao mesmo tempo “mais engraçado, mais com piada”. E tudo, “sem morrer ninguém” e sem que ninguém tenha morrido à fome, apesar de durante dois anos “ninguém trabalhar”.

“Todo o espectro político deu dois ou três passos à esquerda. No primeiro programa do PPD vem lá que os programas económicos seriam resolvidos segundo a teoria marxista-leninista. No programa do PPD! Imaginem como estavam os outros. O jornal da juventude social-democrata chamava-se P’lo Socialismo em letras grandes em cima, em cor de laranja…”.

Fernando Santos foi, nesta altura, apanhado para os “comício de esclarecimento político” (dado o seu dom da palava) e foi autarca. “E depois enjoei de uma tal maneira que me apercebi que a política é porca, suja, ordinário. Isto não quer dizer que sejam todos”.

B.I – COMPANHEIRO DE SARNEY

O médico Fernando Santos nasceu no Brasil, na cidade de Pinheiro, a Princesa do Piracumã. O pai, natural de Monte Arcado, Covões, foi chamado por um tio, para tomar conta de umas fazendas no Nordeste Brasileiro mas acabou, numa primeira viagem, a seguir para os Estados Unidos da América.

“Chegou o capataz, chamava-se ‘boss’, da primeira linha de montagem dos carros Ford. Ainda hoje no Memorial em Nova Iorque o nome do meu pai está lá, em letras de Bronze”.

António Rodrigues dos Santos regressou a Portugal para casar com uma senhora dos Covões com quem voltou ao Brasil, novamente solicitado para as fazendas de um tio solteirão. Acabou por não se entender com o homem e montou “um empório, uma espécie de supermercado de agora, que vende os artigos todos, numa cidade que hoje é uma cidade universitária de 60 ou 70 mil habitantes”.

José Sarney, mais tarde Presidente do Brasil, nasceu mais ou menos na mesma data que o nosso médico de Febres.”Como havia poucas famílias genuinamente brancas e a minha mãe tinha uma cultura doméstica extraordinária (cozinha e bordados), as senhoras iam lá para casa, para aquelas tardes de chazada e fofoca e ela ensinava renda de bilros, isto e aquilo, e o José Sarney era um dos meus companheiros de brincadeira”.

A primeira filha do casal tinha morrido com gastrenterite. Fernando adoeceu com a mesma maleita, sentenciando o médico que se devia ao clima (“burro”) e aconselhando o regresso de Portugal. “A minha mãe começou aos gritos e o meu pai não teve outro remédio, agarrou e tal e veio-se embora. Pronto. Ficou em Cantanhede. E eu vivi em Cantanhede até vir para aqui. Não vivia muito porque depois fui estudar para Coimbra. Vinha só passar as férias a Cantanhede. Até que a história do Dr. Américo me trouxe para aqui”.

fotos: AuriNegra e Isidro Dias