Experiência de vida (e para a vida)

João Pedro da Fonseca Lopes tem 36 anos, é natural da Pocariça e há mais de 11 anos que é advogado na área do direito do trabalho, penal e da família. Este ano, de forma a “fugir” à rotina que a sua profissão exige, decidiu ocupar as férias com algo diferente e partiu para o Quénia onde permaneceu durante quinze dias.

No entanto, e ao contrário do que se poderia pensar, não foi em turismo e muito menos para descansar que o pocaricense escolheu o país africano. “Fui como voluntário para um orfanato em Rimpa, uma pequena aldeia queniana”, começa por explicar João Pedro.

O jovem advogado refere que sempre teve “propensão para ajudar os outros” e que o desejo de partir numa aventura deste género já existia há algum tempo. Porém, foi uma reportagem num jornal nacional que o fez tomar a decisão final que o levou para o Quénia. “Nessa reportagem falava de uma associação do Estoril, a ADDHU (Associação de Defesa dos Direitos Humanos), que aceitava voluntários”, explica. Fez uma breve pesquisa, enviou um e-mail e, pouco tempo depois, recebeu uma resposta positiva: havia sido aceite como voluntário. Um mês e meio depois estava num avião a caminho do Quénia.

No início, refere, o choque foi grande. “Sabia mais ou menos ao que vinha mas não tinha certezas”, frisa.

Chegou à aldeia já a meio da noite e a escuridão e as condições, bem diferentes daquelas que existem em Portugal, tornaram esse primeiro contacto dramático. “Se pudesse acho que nesse mesmo dia tinha regressado a casa”, brinca.

“Deparei-me com uma realidade verdadeiramente diferente da nossa, com condições muito precárias”, refere João Pedro, recordando-se, por exemplo, dos momentos em que a aldeia ficava sem água durante dias.

Outro dos aspectos que mais surpreendeu o pocaricense foi “o trânsito caótico. Para além disso vendem de tudo na rua, desde fruta, pneus, botijas de gás, água, roupa… Também é normal vermos cabras e burros a passear pelo meio da estrada e a parar o trânsito todo”.

Em Rimpa, o advogado trabalhou num Centro de Acolhimento com cerca de trinta crianças, dos 3 aos 18 anos, que perderam a mãe, o pai, ou ambos. “As minhas funções eram várias. Ajudava a preparar e a servir as refeições, ajudava nos trabalhos da escola”. Noutros momentos, apoiava ainda crianças de um bairro de lata.

Na aldeia, como nos conta, não há saneamento e as principais diferenças são ao nível das habitações (precárias) e da alimentação, bastante frugal. Porém, e talvez por se tratar de crianças carentes, o pocaricense afirma que foi recebido com grande carinho. “São pessoas muito acolhedoras e é muito fácil fazê-las felizes. Ali sentes-te pequenino e sentes que com o mínimo podes fazer alguma diferença na vida deles. O importante é tentar melhorar um bocadinho a vida deles também com um abraço, um carinho, um sorriso”, refere.

Apesar de ter ficado apenas duas semanas, por motivos profissionais e também por não saber o lhe esperava nesta sua primeira aventura no voluntariado além-fronteiras, João Pedro afirma que não é nenhum “super-homem” e que felizmente ainda há muita gente a fazer este género de missões de voluntariado.

“Apenas é necessária alguma coragem mas também, e acima de tudo, uma mente aberta e uma grande vontade de dar um pouco de si”, sublinha. “Atenção que não é necessário ir para o fim do mundo ou sequer sair do país para fazer voluntariado, eu quando andava na Universidade, por exemplo, cheguei a ser voluntário na Liga dos Amigos dos Hospitais da Universidade de Coimbra… Mas agora preferi fazer algo numa realidade diferente e relacionado com crianças, uma faixa etária com a qual passei a gostar muito de lidar depois de ter sido professor na ETPC”, refere.

Apesar das dificuldades com que se deparou e do choque que foi lidar diariamente com a pobreza e com uma forma de estar na vida diferente, João Pedro pretende repetir a experiência, talvez noutro país.

“Com o tempo caímos numa rotina, em que temos tudo… É bom levar um choque para ver a vida de outra perspectiva e para perceber quais os nossos limites e a nossa capacidade de superação. Para mim foi uma experiência arriscada mas espectacular, que contribuiu muito para o meu enriquecimento pessoal”, conclui.

Autor: Redacção (Carolina Leitão)