Este lar não é para velhos

Quem segue a Associação de Idosos Mirense no Facebook sabe bem que animação é coisa que não falta neste lar. À Solidariedade, Humanidade e Compromisso – valores pelos quais a Associação se rege diariamente – podemos juntar também a diversão, boa-disposição e o salutar companheirismo. Criada a 4 de Agosto de 1987, a AIM nasceu pelas mãos de um grupo de mirenses que tinha como objectivo “prestar serviços de excelência à população idosa do concelho e zonas limítrofes, no sentido de superar as suas necessidades e expectativas”.

Com uma missão digna para cumprir e muita força de vontade foram, ainda assim, muitos os obstáculos a ultrapassar na história da associação que hoje se orgulha de ser um local de excelência, escolhido por muitas famílias que lhes confiam os seus familiares mais dependentes.

“O nosso percurso não começou de uma forma nada fácil. Quando a associação nasceu ainda era numa casa privada, onde alguns quartos serviam como residência para idosos”, explica-nos Maria Mesquita, directora técnica da instituição. Aos poucos, e com a ajuda da população e de vários benfeitores, a associação foi crescendo, instalou-se num terreno doado por Judite Calisto, por vontade do seu marido João Evangelista Calisto, e foi ganhando valências, como é o caso do Centro de Dia, inaugurado em 1990 “e um momento muito importante para nós, que contou com a presença de Mário Soares, e que foi um ponto de viragem para uma melhoria nos nossos serviços e das condições da associação, que acabou por ser construída em três fases”.

A boa disposição reina na Associação de Idosos Mirense

Actualmente a AIM conta com três valências diferentes: Estrutura Residencial Para Pessoas Idosas, Centro de Dia e Serviço de Apoio Domiciliário, que acolhem um total de 110 idosos. A assegurar o bem-estar destes está uma equipa multidisciplinar que inclui desde assistentes sociais, gerontólogos, enfermeira, médico, psicóloga, nutricionista e auxiliares, num total de cerca de 50 funcionários que garantem o funcionamento da instituição 24horas diárias, 365 dias ao ano.

Para o presidente Carlos Camarinha, a AIM está em grande forma. Ainda assim há muito ainda por ‘conquistar’: “O nosso objectivo é ampliar a parte de Estrutura Residencial, porque a fila de espera não acaba…”. Outro dos aspectos que gostava de ver melhorado são as compartições da Segurança Social, “que não acompanham as necessidades e o aumento dos gastos”.

Mas deixando-nos de coisas “mais sérias”, regressamos à animação que funcionários e idosos espalham pelas redes sociais. Principalmente no facebook, onde vão dando o ar da sua graça e mostrando o seu dia-a-dia de uma forma bem-disposta e activa. Orientandos por Jonathan Margarido, o gerontólogo da associação, os seniores transformam-se em modelos e actores amadores e vão acatando as várias propostas de vídeos ou fotografias, sempre de sorriso no rosto, “ainda que por vezes alguns refilem”.

Com efeito, a comunicação é umas das facetas mais importantes desta associação, que se quer mostrar à população fora de portas. “A ideia é desmistificar a ideia de que um lar é um sítio parado, para onde as pessoas vêm para morrer”, confessa Cristina Pintassilgo, Técnica de Serviço Social.

A horta é um dos locais favoritos dos séniores

A ideia de investir nesta vertente remonta há alguns anos, quando, como nos explica Jonathan Margarido, “num dos passeios que fazemos regularmente ao centro da vila, encontrámos uma senhora com um discurso derrotista, a dizer que a AIM parecia uma prisão com grades. Aquilo foi o mote para realmente mostrarmos o que se passa cá dentro e fazer ver às pessoas que, apesar da idade, há ainda por muito por fazer. Podem ter menos energia mas têm mais tempo livro e o objectivo é aproveitar esse tempo com qualidade e de forma útil”.

Desde então, e com frequência, a associação passou a mostrar no Facebook que vitalidade é coisa que não lhes falta. As semelhanças com o lar de Gafanha do Carmo, que se tornou famoso pelas divertidas interpretações de algumas músicas nas redes sociais, são muitas, o que não é de admirar. “Foi através deles que começámos. Fizemos uma formação com a Sofia e o Ângelo, os gerontólogos de lá, e foi assim que começamos a tirar as fotografias e a fazer vídeos”.

No início nem todos alinhavam, refere o técnico, “era uma novidade e eles ficavam de pé atrás. Agora o jogo virou e até ‘discutem’ quando algum não aparece ou aparece mais tempo que o outro”.

No entanto, para tudo isto resultar, é necessário um grande trabalho e uma equipa unida, “em que todos dão ideias e se oferecem para ajudar e participar”. Uma das provas dessa união é a actuação que todos os anos realizam nas festas de S. Tomé, em Mira. “É um momento engraçado porque todos participam, utentes, equipa técnica, funcionários… Apesar de ser trabalhoso [ensaiam dias e dias à hora de almoço] acaba por ser muito compensador”.

Enquanto visitamos a associação acabamos por nos cruzar com a senhora Fernanda Dias, que do alto dos seus 91 anos ainda mostra muita genica. Conversadora por natureza, conta-nos a sua história de vida ao mesmo tempo que nos diz como gosta de viver na associação.

“Aqui sou muito bem tratada. Tenho tudo o que necessito”, diz-nos sorridente, acrescentando que gosta de ser uma das protagonistas dos vídeos e fotos que vão partilhando no facebook: “Eu gosto muito de entrar nas brincadeiras e a minha família e amigos também gostam de me ver”. Sempre que surge mais uma publicação da associação na internet começam a chover chamadas de familiares e amigos a dizer aos seniores que os viram no ecrã, “é uma forma de acompanharem também o dia-a-dia deles” frisa Jonathan que recorda um episódio, “em que um senhor viu o netinho pela primeira vez através do Skype. E foi muito emocionante. Para eles é uma novidade e a nós deixa-nos de coração cheio poder possibilitar este tipo de coisas”.

Os patudinhos são visita frequente nesta instituição

Por entre brincadeiras também há tempo para outras actividades. No Centro de Dia, no dia da visita do AuriNegra, era dia de fazer pompons para decoração, mas diversidade é coisa que não falta: “Tentamos dar-lhes actividades diferentes em que estimulem o corpo e também o cérebro”. Passeios pela, aulas de ginásticas e idas à piscina são apenas alguns dos exemplos de actividades com que estes seniores ocupam os seus dias. A horta é outros dos locais favoritos, “muitos deles tinham hortas em casa ou viveram da agricultura e por isso adoram meter as mãos na terra. Depois dá-lhes ainda maior gozo comer as couves e alfaces que eles próprios cuidarm”.

Quanto à chave do sucesso desta casa, todos concordam que passa essencialmente pela empatia (e carinho) que se cria entre funcionários e utentes. “Só consigo que eles participem nas coisas e de forma entusiasta depois de os ‘conquistar’ e fazer com que gostem de mim. Alguns são sempre mais receptivos que outros mas a maioria gosta de estar aqui e de colaborar connosco”.

Embora a maioria dos dias sejam felizes, há sempre dias piores. E aqui o mais difícil, dizem-nos abertamente, é lidar com a perda … “Sabemos que é normal que aconteça mas nunca nos habituamos a perda dos nossos velhinhos. Fica sempre uma tristeza aqui na associação, mas unidos lá vamos ultrapassando”.

Um dos sonhos que gostavam de ver realizado em breve era ter um patudinho a tempo inteiro na associação. “Era muito bom. Sempre que conseguimos vamos ao Abrigo de Mira para eles conviverem com cães e uma vez por semana tentamos que algum funcionário ou familiar traga um animal e eles adoram. Era bom ter um cãozinho nosso”.

Festival da Sangria

De há dois anos para cá, um dos momentos altos da Associação de Idosos Mirense é o Festival da Sangria. “Mais uma aventura em que nos decidimos meter”; conta Cristina Pintassilgo, acrescentando que muitos estranharam a ligação “sangria e idosos. Mas eles também são pessoas, podem fazer tudo o que os outros fazem, não nos podemos esquecer disso”.

Mais do que um momento de angariação de fundos, o Festival serve para unir os membros da associação e “abrir-nos ao público. Mostrar o nosso trabalho”.

A data da edição deste ano ainda não está escolhida mas será em Agosto. “É um dia de festa com muita música, sangria – como é óbvio – mas também petiscos como caldo verde, porco no espeto entre muitas outras coisas”. A expectativa para 2019 é enorme: “De ano para ano tem melhorado e temos tido cada vez mais gente. Vale mesmo a pena vir!”.

Autor: Carolina Leitão