Envolvida de coração

Quem olha para Isabel Cristina Marques de Andrade Carvalho dificilmente acredita que esta mulher, muito feminina foi um dia, como diz, uma verdadeira “super Maria-rapaz”. Nascida e criada até aos 17 anos na pequena aldeia de Freches, em Trancoso, Isabel Carvalho vive actualmente em Cantanhede, a terra natal do seu marido, mas continua a considerar-se uma “beirã” de gema.

Na verdade, foi lá que deu os seus primeiros passos e que percebeu que um dia havia de correr o mundo. Oriunda de uma família dedicada, há várias gerações, à panificação, Isabel Carvalho contou ao AuriNegra alguns episódios de uma infância feliz, em que nada lhe faltou. “Fui uma privilegiada”, começa por afirmar.

Os pais, apesar de terem sempre trabalhado muito, tentaram dar aos três filhos tudo aquilo que estes necessitavam para serem felizes e seguirem com os seus estudos. “Éramos, e somos, muito unidos. Eu era a ‘caçula’ da família, a menina do mimo”, diz, para logo depois acrescentar, entre risos, que, na verdade, ainda hoje se sente como tal.

Do período de infância recorda principalmente os fins de tarde a brincar na rua, “até à hora que me apetecesse”, e a liberdade de ser criança numa aldeia pacata, em que os perigos, se os havia, não eram conhecidos. “Lembro-me de andar de skate, de carrinhos de rolamentos… Era muito divertido”, afirma. As brincadeiras, mais masculinas, eram “comandadas” pelos irmãos mais velhos e pelos amigos destes, que normalmente acompanhava. ”Para mim era normal brincar com os meus irmãos”, refere.

Apesar de hoje ter uma imagem e uma presença muito femininas, Isabel Carvalho não tem nenhum problema em afirmar: “Eu era a típica Maria-rapaz. Andava sempre de joelhos esfolados…”, conta-nos, acrescentando, divertida, que por vezes até cortava o seu próprio cabelo “à escovinha”.

Quando tinha 14 anos, já na fase da pré-adolescência, a rebeldia mas também a determinação mantinham-se. Nessa idade, revela-nos, era habitual conduzir pela aldeia, de madrugada, a carrinha de distribuição de pão do negócio da família. “Não tinha medo nenhum e ali também não havia polícia àquela hora”, refere, para acrescentar que, acima de tudo, ficava satisfeita por poder ajudar os pais.

Porém, e ainda que até então tivesse sido feliz em Freches, decidiu partir. “Tinha uns 16 ou 17 anos. Fui para Coimbra, para o Liceu Infanta Dona Maria, para estudar Latim e Grego, disciplinas que não existiam lá na minha terra”.

Apesar de vir de um meio rural, chegar à cidade não foi, no entanto, um choque para a jovem beirã, que já conhecia várias cidades do país, principalmente Lisboa, onde tinha grande parte da família do pai, que visitava frequentemente.

Nessa altura, e apesar de ser ainda bastante jovem, Isabel Carvalho tinha um desejo: “Queria ser notária. Desde sempre tive gosto pela organização, pelo método, pela forma, e, talvez por isso, essa profissão parecia-me muito aliciante. No entanto, pelos caminhos que a vida me foi levando, não cheguei a concretizar esse sonho inicial”.

Ainda assim, terminado o Ensino Secundário em Coimbra, decidiu ingressar em Direito, na Universidade Internacional da Figueira da Foz.

Também nessa altura conheceu Camilo Carvalho, aquele que viria a ser o seu marido. “É uma história engraçada. Eu costumava ir para Coimbra para as festas da discoteca Via Latina e era lá que ele me via sempre. Na altura, como nos cruzávamos apenas em Coimbra, ele pensou que eu era estudante da Universidade. Só mais tarde, quando começámos a falar, e depois de ele andar muito tempo atrás de mim, é que percebemos que afinal estudávamos os dois na Figueira da Foz”, recorda, divertida.

Da primeira conversa ao pedido de namoro oficial, pouco tempo se passou, tendo casado cerca de um ano depois.

Entretanto, já após Isabel Carvalho ter terminado o curso, o seu marido Camilo Carvalho, director financeiro de uma empresa internacional, teve que ir viver para a Holanda por motivos profissionais e ela decidiu acompanhá-lo. Nessa altura levaram os filhos, Margarida, então com 5 anos, e Francisco, com apenas um ano.

Durante três anos e meio ficou pelos Países Baixos. No entanto, apesar da qualidade de vida que assume que tinha, não suportou o frio e regressou a Portugal, para Cantanhede, a terra natal do seu marido e onde podia contar com o apoio essencial dos sogros.

“Tinha na Holanda uma vida boa, com muita qualidade, e fiz muitas amizades que ainda visito, mas nunca me adaptei de todo ao clima”, refere, acrescentando que na altura também fazia sentido que os filhos estivessem mais próximos dos avós.

De Cantanhede, pouco ou nada sabia. “Conhecia muito pouco, pois vinha cá só esporadicamente visitar os pais do meu marido”, afirma. Porém, agora, assume que já se sente cantanhedense, pois, como nos conta, foi em Cantanhede que a família se enraizou, foi por cá que criou uma rede de amizades, e é por cá que tem desenvolvido um trabalho que muito a preenche e realiza, principalmente a nível social, envolvendo-se em várias associações.

De corpo e alma

Quando Isabel Carvalho chegou a Cantanhede o seu primeiro envolvimento com a comunidade aconteceu na Escola Primária de Cantanhede, na qual assumiu, durante quatro anos, o cargo de presidente da Associação de Pais e Encarregados de Educação. “Na altura, a minha filha Margarida era aluna da escola e o meu filho iria entrar. Eu conhecia as melhorias que a escola necessitava”, afirma, começando por explicar que a sua intervenção foi essencialmente no sentido de tornar a escola mais aconchegante e com melhores condições para acolher os alunos.

“Inicialmente não foi fácil, assumo, mas não desisti, porque as condições, principalmente do espaço de recreio, não eram as melhores”, frisa. Perseverante por natureza, Isabel Carvalho  não baixou os braços e, através da organização de vários jantares e actividades de angariação de fundos, conseguiu, com o apoio de outros pais, renovar o piso do edifício (exterior e interior), colocar os aquecedores em funcionamento, entre muitas outras coisas.

Depois desta primeira experiência, decidiu não parar e, anos mais tarde, voltou a ser presidente da Associação de Pais, desta vez na Escola Secundária de Cantanhede, onde recorda especialmente uma actividade em que conseguiu trazer à escola vários professores universitários. “A ideia era eles falarem dos vários cursos e áreas existentes. Dar aos alunos um retrato da realidade vivida nas universidades e também no mercado de trabalho”, afirma.

Porém, a sua maior experiência na área do associativismo e do trabalho em (e para a) comunidade deu-se em 2007, ano em que entrou para o Lions Clube de Cantanhede. Aconselhada por alguns conhecidos que já faziam parte do clube, Isabel Carvalho refere que foi fácil tomar a decisão, principalmente porque já conhecia o trabalho do Lions Internacional, e porque desde sempre se identificou com a missão e a ideia de “servir o próximo”.

Na verdade, a beirã recorda-se de ter um espirito solidário desde bem pequenina. Enquanto conversava connosco, relembrou até um episódio de há muitos anos que serve como “prova”: “Os meus pais na pastelaria tinham uma arca com gelados e eu, volta e meia, esvaziava a arca e levava gelados para todos os meus amigos. Já gostava de partilhar”, recorda, sorridente.

Quando, no ano seguinte à sua entrada para os Lions, se tornou Presidente do Clube, a beirã refere que a responsabilidade aumentou mas também a motivação. Habituada a dar o melhor de si, arregaçou mangas e foram muitos os projectos e eventos que organizou. “Aceitei o desafio de corpo e alma”, afirma.

Durante o ano em que esteve à frente da presidência dos Lions de Cantanhede – os mandatos são apenas de um ano – foram muitos os projectos que desenvolveu, mas Isabel Carvalho lembra alguns mais especiais: “Recordo-me, por exemplo, de uma altura em que a terapia com os cavalos ia acabar na APPACDM por falta de fundos, e nós conseguimos ajudar a mantê-la. Várias pessoas apadrinharam os cavalos, até os meus filhos tiveram um ‘afilhado’”.

Outra das actividades foi um torneio de golfe para ajudar os “lobitos” do Agrupamento de Escuteiros de Cantanhede e um concerto com o Padre Borga, “que correu muito bem. Centenas de pessoas quiseram assistir ao espectáculo”.

Actualmente, Isabel Carvalho continua associada dos Lions de Cantanhede e tem mantido funções de Assessoria da Governadoria a nível distrital e nacional do Lions Portugal. É ainda presidente da Divisão 2 que inclui os Clubes Lions de Cantanhede, da Figueira da Foz, de Santa Catarina, de Arganil e de Coimbra.

Entretanto, em 2013, uniu-se a alguns amigos – Ana Maria Rodrigues, Jorge Humberto Ribeiro, Paulo Moura Vieira e Manuel Castelo Branco –, e abriu um escritório de consultoria e aconselhamento empresarial em Cantanhede, Figueira da Foz, Coimbra e Lisboa, nas áreas da Gestão, da Legislação, da Fiscalidade e da Contabilidade, e no qual Isabel Carvalho se dedica essencialmente a questões relacionadas com o empreendedorismo e a internacionalização. Porém, praticamente ao mesmo tempo, e porque não é mulher de dizer que não a um projecto interessante, abraçou também uma nova função, que acaba por ter um sabor especial: é a actual assessora jurídica da embaixada de Cuba.

“Um dos meus tios foi, durante larguíssimos anos, o advogado da Embaixada de Cuba. Quando ele faleceu, o embaixador daquela altura convidou-me para continuar com o seu trabalho”, refere, acrescentando, emocionada, que aceitar o cargo acabou também por ser “uma singela homenagem” ao tio.

Como assessora da Embaixada, as suas funções passam essencialmente pela organização de eventos e apresentações sobre as novas políticas comerciais de Cuba. Em simultâneo, Isabel Carvalho é a “ponte” que liga empresários portugueses ao país caribenho, organizando missões comerciais, o que incluí acompanhá-los muitas vezes a Cuba, e tratando da documentação necessária para a introdução destes empresários naquele País.

Uma beirã cosmopolita

Com uma vida profissional bastante activa e as várias actividades em que está envolvida, nos Lions e não só, Isabel Carvalho tem por vezes que fazer um grande esforço para organizar o seu tempo.

No entanto, e como diz o povo, “quem corre por gosto não cansa”, e, por isso mesmo, Isabel Carvalho continua a entregar-se de corpo e alma a todos os projectos em que se envolve, sejam eles profissionais ou sociais.

Apesar de se considerar uma mulher mais da cidade do que do campo, é sempre com muito gosto que regressa a Trancoso. Afinal, é lá que estão os seus pais e alguns familiares e amigos de infância, mas essencialmente as suas raízes e as recordações de uma infância livre e feliz, pautada por uma vontade de ir mais longe e mais alto.

“Gosto sempre de voltar, mas custa um pouco deparar-me com uma aldeia quase deserta”, afirma, lembrando que o lugar vivo onde cresceu é hoje mais calmo e vazio, depois de os jovens terem ido à procura de uma vida melhor para a cidade, como Isabel Carvalho também acabou por fazer.

Talvez pela educação saudável e pelo carinho que sempre recebeu dos seus pais, a beirã não hesita, nem por um segundo, em afirmar que a sua prioridade é, e sempre será, a família. Com efeito, e apesar de o tempo por vezes não ser tanto como o que desejaria, é junto desta que encontra a paz e o equilibro que necessita.

Isabel Carvalho tem uma relação muito forte com os filhos, de quem fala orgulhosamente e com um brilho no olhar. “Somos todos muito próximos. Quando a Margarida foi para a Universidade, por exemplo, custou-nos muito. Sempre que temos um bocadinho, seja em casa, de férias ou em fim-de-semana, é para estarmos os quatro juntos”, refere.

Confessa-nos que desde cedo desejava constituir família, tendo sido sempre a sua ideia ser mãe ainda bastante jovem, o que realmente aconteceu.

“Para mim é muito gratificante chegar a este ponto com os meus filhos [Margarida, de 19 anos, e Francisco, de 15] já crescidos e mais autónomos. Sempre quis ser mãe novinha, para que no início me dedicasse mais a eles e, só depois, me pudesse focar na vida profissional”, refere, fazendo notar, mais uma vez, a importância da família.

Como mãe, aquilo que mais deseja é que os seus filhos sejam felizes e que sigam os valores que desde cedo lhes tenta transmitir, principalmente o da generosidade.

“Fico muito feliz quando vejo que a minha filha Margarida, que actualmente está no curso de Medicina Dentária na Universidade de Coimbra, gosta de se envolver em movimentos associativos: foi presidente da Associação de Estudantes da Escola Secundária de Cantanhede e participa actualmente na associação juvenil dos Lions – os Leos”, refere, mostrando que “filha de peixe sabe nadar”.

Apesar da humildade que dificulta na hora de falar de si própria, Isabel Carvalho assume a sua veia solidária como uma das características principais da sua personalidade e explica que a vontade de ajudar os outros é algo que foi enraizado desde cedo na sua educação. “Desde miúda que me lembro de ouvir dizer que devemos ajudar os outros. Ouvi muitas histórias dos meus avós que, nos tempos de guerra, ajudaram muita gente, principalmente através da distribuição graciosa de pão, um bem que nessa altura escasseava”.

Apesar de alguma timidez ao longo da conversa, Isabel Carvalho mostra-se como realmente é. Uma pessoa de sorriso aberto, realizada e sempre pronta a novos desafios, principalmente quando estes envolvem ajudar os outros. “O mais importante é sentir-me bem comigo própria, fazer com que as pessoas à minha volta se sintam bem, ter um ar bem-disposto e viver a vida com alegria”, afirma, sem qualquer hesitação.

Quanto ao futuro, não sabe nem como nem onde será: “Penso que estamos num tempo em que toda gente deve ter o passaporte actualizado, tal é a incerteza em que vivemos a nível de trabalho”, afirma, acrescentando, ainda assim, que, por agora, é em Cantanhede que está e onde gosta de estar.

Porém, Isabel Carvalho reforça que não é uma mulher de um só sítio: “Sou de Freches, de Trancoso, da Figueira da Foz, da Holanda e de Cantanhede… sou do Mundo. Pode-se dizer que sou uma cosmopolita beirã”, refere, entre risos.

“Já fiz um filho, já plantei uma árvore… Só me falta escrever um livro”, conclui de sorriso aberto, prometendo que talvez um dia até o escreva.

Autor: Redacção (Carolina Leitão)