Entre tachos e panelas

Oriundo de uma família de agricultores, desde cedo que Albano Lourenço soube o que era batalhar para ter comida na mesa. “A minha infância, ainda antes de trabalhar, já era passada a ajudar os meus pais. Mal comecei a andar comecei a ir com eles para a lavoura”, começa por afirmar.

Com cinco filhos para criar, os pais de Albano Lourenço mantinham várias terras, o que permitia manter a fome afastada. “O meu pai era um agricultor médio e era muito poupado. Era uma economia rígida. Como cultivávamos arroz, batata, entre outros produtos, não passávamos necessidades, mas também não havia fartura nem regalias como hoje”, conta-nos, acrescentando que o pai tinha ainda um barco moliceiro, com o qual colhia moliços na Ria de Aveiro.

Quando chegou a altura de ir cumprir o serviço militar o seixense fez a escolha de partir para a pesca do bacalhau. “Dois dos meus irmãos já tinham seguido esse caminho e incentivaram-me. Para além disso era a melhor escolha para me livrar à tropa. A ideia da guerra era muito assustadora e a emigração ainda era pouca. No bacalhau pelo menos ganhava-se bom dinheiro”, refere.

Com apenas 20 anos, Albano Lourenço embarcava rumo aos mares gelados da Terra Nova a bordo do navio de pesca de bacalhau à linha “Vaz”. A ideia era dedicar-se à faina maior apenas durante os setes anos necessários para se livrar à tropa. Acabou por ficar quase duas décadas.

Nas duas primeiras campanhas começou como moço, realizando tarefas variadas, que passavam pelo tratamento do peixe (tirar sames e caras) e pela limpeza do navio. “Essas primeiras viagens não foram nada fáceis. Tudo era novidade e os enjoos pareciam intermináveis…”.

Na terceira viagem foi-lhe proposto ocupar o cargo de ajudante de cozinha. “Inicialmente fiquei desmotivado. Não tinha jeito nenhum, não sabia fazer nada de nada”, recorda, acrescentando, porém, que aos poucos foi aprendendo. Ainda assim, Albano Lourenço recorda: “Passei um bocado mau. O lugar foi-me dado porque disseram ao capitão que eu tinha experiência na cozinha e não era nada assim. Felizmente, três meses depois já me desenvencilhava”. Apesar de nunca ter chegado a ir ao mar nos dóris, os dias do seixense eram cansativos e começavam logo pela madrugada.

“Era preciso acordar bem cedo para cozer pão. Depois era necessário preparar todas as refeições, o que se tornava complicado, principalmente a bordo de um barco”, frisa.

Enquanto ajudante de cozinha, Albano Lourenço chocava-se principalmente com a diferença entre pescadores e oficiais a nível de alimentação e das próprias condições no barco: “Era um pouco revoltante ver que aqueles que trabalhavam mais tinham que passar por vezes com a mesma sopa ao almoço e ao jantar. Já os oficiais tinham sempre refeições com dois ou três pratos”.

Nessa altura, pré 25 de Abril, Albano Lourenço refere que as condições do navio eram péssimas. “Dormíamos em beliches apertados, não havia grande limpeza, a água doce era muito pouca e tinha que ser bem racionada”, refere. Para além disso, havia um certo abuso de autoridade da parte dos oficiais “que recorriam muitas vezes à violência”.

Seis anos volvidos no mar, e com alguma experiência angariada, o seixense passou a cozinheiro principal do navio. “Nesse período eu já tinha livrado à tropa e pretendia sair da pesca do bacalhau. Porém o capitão ‘obrigou-me’ a ir, agora como cozinheiro”.

Foi nessa altura que Albano Lourenço entrou para o navio Neptuno, aquele de que guarda melhores recordações e que nos mostra numa fotografia que mandou emoldurar. “Como gostava muito do capitão e a vida ali era boa decidi ficar mais uns anos. Curiosamente, apesar de no início não saber fazer nadinha na cozinha, acabei por me sentir bastante realizado como cozinheiro do Neptuno. De resto, também tentava não ter chatices com ninguém, o que ajudava a sentir-me bem naquele papel…”, refere, acrescentando, em jeito de brincadeira que “as simpatias também se conquistavam um pouco pelo estomago”.

A bordo do Neptuno, a alimentação era a mesma para pescadores e oficiais e Albano Lourenço tinha à disposição tudo aquilo que precisasse. Os tempos, refere, eram outros: “Comíamos de tudo. Eu antes de embarcar tinha total liberdade para comprar os mantimentos que achasse necessários para confeccionar os pratos. Felizmente, depois do 25 de Abril tornou-se tudo mais fácil para todos”.

No entanto, o dia na cozinha continuava a ser uma azáfama. “Cozinhar em alto mar era, por vezes, uma verdadeira aventura. Apesar de os fogões serem especiais, para manter as panelas de vários litros no mesmo sítio, havia dias em que isso era muito difícil”.

Entre os episódios mais complicados, Albano Lourenço recorda um em que, no meio de uma tempestade de grandes dimensões, todas as panelas e fritadeiras se viraram. “Aí tive medo. O barco parecia que ia mesmo afundar. Na cozinha era caótico. Óleo quente e comida por todo o chão… Várias horas de trabalho desperdiçadas. Nesse dia acabaram todos por comer uma sandes”, lembra.

Do mar para a vacaria

Quando completou 15 anos na pesca do bacalhau Albano Lourenço decidiu que era altura de mudar de vida. Já casado com Maria de Fátima, a namorada que desde os 17 anos esperava que este voltasse dos mares do Norte, e com um filho, o seixense escolheu voltar à Gândara para estar junto da família. “Apercebi-me que mal estive presente na infância do meu filho e não queria que isso voltasse a acontecer. O meu segundo filho já nasceu depois de eu deixar o bacalhau”, conta.

Inicialmente ficou a trabalhar na agricultura, e sempre que podia fazia alguns serviços de cozinha em casamentos, mas entretanto decidiu tentar a sua sorte no Canadá, onde foi trabalhar na construção. “Fiquei por lá quatro anos. A minha mulher ainda foi ter comigo mas achou aquilo uma prisão e como tinha aqui a família não quis ficar. Foi então que voltámos para o Seixo”.

De volta às raízes, decidiram abrir uma vacaria e foi à frente desse negócio que se manteve até há poucos anos, altura em que se aposentou.

Quanto à experiência na cozinha foi algo que ficou para trás. “Em terra nunca me quis dedicar a essa vida. Primeiro porque não tinha grande formação e depois porque era uma vida muito presa, e numa ‘prisão’ já eu estive nos 15 anos que vivi da pesca do bacalhau”.

Em casa Albano Lourenço também não tem o hábito de cozinhar. “Deixo essa tarefa para a minha mulher, que é melhor cozinheira que eu”, diz, entre risos, acrescentando que, ainda assim, não se livra de algumas reprimendas: “Ela às vezes queixa-se de que nunca cozinho para ela e que só cozinho quando estou com os meus amigos”.

E quais as especialidades que faz, perguntamos por curiosidade: “De tudo um pouco, assim como acontecia nos navios. Carne, peixe e, como não podia deixar de ser, muito bacalhau”.

Apesar da vida “presa” da faina maior, Albano Lourenço revela-nos que é com saudade que recorda os momentos passados nos mares gelados da Terra Nova e da Gronelândia. “A verdade é que acabei por gostar daquela vida”. Prova disso, refere, “é a quantidade de vezes que sonho com momentos lá passados”.

“Era muito bom o companheirismo, o dinheiro que se ganhava e as condições de trabalho, que com o tempo se foram tornando cada vez melhores e mais justas”, conclui saudosista.

Autor: Redacção (Carolina Leitão)