Entre a Gândara e a Ásia

Jogador e treinador de futebol, professor dos ensinos secundário e universitário e, acima de tudo, jornalista – em Coimbra, Lisboa, Angola e Macau. Eis o perfil de José Rocha Diniz, um cidadão de Mira, um cidadão do Mundo.

José Firmino da Rocha Diniz nasceu, em Fevereiro de 1946, em S. Pedro do Sul, onde seu Pai era tesoureiro das Finanças, e onde, um ano mais tarde, nasceria o irmão Jorge. Pouco tempo depois o Pai foi colocado em Mértola, de seguida em Mirandela e, por último, em Cantanhede.

Abdicando de promoções que o obrigariam a rumar a outras paragens, o tesoureiro escolheu ficar na Gândara, onde se conjugavam duas circunstâncias: o facto de ficar perto de Mira, onde viviam os pais, e de ficar também perto de Coimbra, onde pretendia que os filhos viessem a frequentar a Universidade. E assim ali se fixou até ao fim da vida, desenvolvendo várias actividades para além da profissional, entre elas a de fundador da Sociedade Columbófila (aliás, a Mãe de Rocha Diniz, que já ultrapassou os 95 anos, ali continua a residir).

Foi, pois, entre Mira e Cantanhede que José Rocha Diniz viveu parte da infância e da juventude. Fez a 4.ª classe em Mira, depois foi para o Colégio de Cantanhede, até que uns parentes (o veterinário João Alfarelos e a sua Mulher) fundaram um colégio em Mira, que  frequentou até concluir o então 5.º ano do liceu (equivalente ao actual 9.º ano), altura em que foi estudar para Coimbra, para o Liceu D. João III (actual Escola Secundária de José Falcão).

Os dois irmãos, sendo o José o da esquerda

Como nos afirma Rocha Diniz, a primeira casa onde ficou alojado em Coimbra viria a ter um papel importante na sua formação e no seu futuro. Ficava na Rua Lourenço de Almeida Azevedo, entre o Liceu e a Praça da República, muito perto do Campo de Santa Cruz, que tinha como responsável o sr. Freixo, com cujos filhos Rocha Diniz fez amizade. Eram José e Gregório Freixo, que viriam a destacar-se no futebol, modalidade a que Rocha Diniz igualmente se dedicou com entusiasmo. Mais acima havia uma casa onde habitavam muitos cabo-verdianos, com quem estabeleceu relações de amizade. “Foram vivências que me fizeram compreender a diversidade das pessoas e a importância de me dar com toda a gente” – diz-nos, com alguma nostalgia.

 

DE ROCHA A ROCHINHA

Enquanto conversamos, na Praia de Mira, Rocha Diniz vai mostrando algumas fotografias verdadeiramente históricas. Uma delas da equipa da Académica onde estão, entre outros, um irmão do Jorge Humberto, Vieira Nunes, Cagica Rapaz, Francisco Andrade, Piscas, Brassard, António Jorge e o próprio Rocha Diniz. Numa outra, dos juniores da “Briosa”, está Horácio Antunes e Rocha Diniz.

Mas, curiosamente, quando veio para Coimbra, não foi na Académica que Rocha Diniz começou a jogar. Corria o ano de 1962, vivia-se uma crise académica (que, tal como a de 7 anos mais tarde, fora originada pela revolta estudantil contra a Ditadura salazarista), pelo que a Académica fora encerrada e todas as suas actividades suspensas. Por isso, foi nos juniores do União de Coimbra que começou a jogar; e só no ano seguinte passou para a Académica – treinado nos juniores pelo saudoso Prof. Bentes e já nas reservas por Mário Wilson. E treinando – e, eventualmente, jogando – ao lado de muitos “craques” da Académica, como o macaense Rocha, que ainda hoje o trata por Rochinha, como nos explica:

“Quando lá cheguei, o Rocha perguntou-me: ‘Ouve lá, miúdo, como é que tu te chamas?’. Quando lhe respondi que era Rocha Diniz, ele comentou: ‘Aqui Rocha só há um, que sou eu, tu passas a ser Rochinha!”. Ainda agora, quando nos encontramos em Macau, me trata por Rochinha”.

Num jogo particular das reservas da AAC na Guarda

E continua a contar-nos o seu percurso futebolístico:

“A certa altura, o Francisco Andrade foi treinar o Eira Pedrinha e levou-me com ele, já como jogador da equipa sénior. Algum tempo depois ele saiu e houve quem achasse que eu percebia de futebol e me convidou, passando eu a ser jogador-treinador do Eira Pedrinha durante alguns anos”. Mais tarde treinou os juniores e os seniores do Ala Arriba de Mira, quando o clube mirense se encontrava na terceira divisão nacional. Um “atrevimento” de que o Pai não gostou, mas que correu bem – porque daquela vez “santos da casa foram fazendo alguns milagres”, comenta.

DO DIREITO À HISTÓRIA

Rocha Diniz, entretanto, concluíra o Liceu e entrara na Faculdade de Direito. Mas confessa que não gostou do curso, pelo que apenas fez a cadeira de Direito Romano (com o Padre Sebastião Cruz) e andou a marcar passo,  até que anos mais tarde passou para a Faculdade de Letras, para o curso de História.

Mas antes disso, uma vez mais, o futebol surgiu na sua vida:

“Um dia, junto à Porta Férrea, um grupo de veteranos vem ter comigo e comunica-me: ‘O caloiro, a partir desse momento, é o coordenador da equipa de futebol de Direito’”. Foi o primeiro passo para vir a ser o responsável pela equipa de futebol da Universidade de Coimbra, ao mesmo tempo que jogava na Académica e depois no Eira Pedrinha, para onde levou vários jogadores universitários.

Recorda que os jogadores e o treinador trabalhavam “de borla”, mas havia um engenheiro, mecenas do Eira Pedrinha, que pagava uns jantares de bacalhau no fim dos jogos, como prova de agradecimento.

Entre as fotografias que nos mostra está um cartão da FPF como jogador da equipa de futebol do Mealhada, que igualmente treinou, explicando: “Como não havia curso de treinadores, tínhamos de nos inscrever como jogadores para poder treinar”.

Outra fotografia mostra Rocha Diniz a cantar, integrado no Coro Misto da Universidade de Coimbra, nos jardins da AAC durante a Crise Académica de 1969, em espectáculo de apoio ao luto académico e à greve aos exames. Aliás, nessa altura foi mesmo preso por um dia quando andava a distribuir panfletos de apoio aos grevistas, depois de outros episódios de fuga à polícia de choque – num dos quais acabou no lago dos patos frente ao Teatro de Gil Vicente.

Um familiar ligado ao anterior regime, telefonou ao pai alertando-o para as actividades “esquerdistas” do jovem, que foi chamado a Mira, onde recebeu ordem para ficar por ali.

 

VOLUNTÁRIO EM ANGOLA MAS COMO PROFESSOR

Um dos fantasmas dos anos 60 e início da década de 70, para todos os jovens (e suas famílias) era a Guerra Colonial. O irmão Jorge foi mobilizado para a Guiné, com a especialidade de Minas e Armadilhas, colocado numa zona de combates constantes, o que muito o afectou. Até nas festas de S. Tomé em Mira, ao ouvir os foguetes, ficava muito perturbado, pensando que eram tiros. O José, que na luta estudantil de 1969 deixou de beneficiar de adiamento por ter feito greve aos exames, começou a avaliar  as possibilidades de ir parar a Mafra e depois ser enviado para a Guiné.

Decidiu, então, tentar uma via original: escrever para um reitor de um liceu de Angola a oferecer-se como professor, de forma a cumprir o serviço militar como elemento da guarnição da então Província Ultramarina, uma vez que lhe tinham dito que esses só cumpriam serviço nas cidades – isto é, as tropas idas da Metrópole é que eram enviadas para combate no mato.

E foi assim, desta forma invulgar, que José Rocha Diniz foi voluntariamente para Angola – não para a guerra, mas antes para o ensino. Na verdade não fora tão original: quando, em 1973, acabou por ira fazer o Curso de Oficiais em Nova Lisboa,  encontrou uma dúzia de amigos de Coimbra que haviam feito o mesmo.

Evocando os anos em  Carmona, José acha que não tem grande história. “Dei aulas em dois lados ao mesmo tempo, fundei um jornal, era presença habitual na Rádio e treinei equipas de futebol. Primeiro o Futebol Clube do Uíge, depois passei para o Recreativo do Uíge, que era o clube dos produtores de café”. Recorda que em ambos os clubes “fui muito feliz, obtive bons resultados e fiz grandes amizades”.

A verdade é que nunca mais era chamado para a tropa, pelo que ele próprio foi a Luanda, ao Departamento de Recrutamento Militar, para saber o que se passava. O sargento que o atendeu, “de fartos bigodes”, mostrou-se surpreso por ele querer ir para a tropa e, vendo o nome, disse-lhe que conhecera um Rocha Diniz na Metrópole, “que costumava ir a cavalo para Aveiro”. Logo descobriram que era o avô do José, e facilmente resolveu o problema, chalaceando que “ninguém quer entrar na tropa e você vem cá pedir para entrar ”.

Em Junho de 1973,  entrou, fez os 3 meses de recruta e os 3 de especialidade e ficou colocado em Nova Lisboa.

 

UMA TROPA TRANQUILA E TREINADOR DO CAMPEÃO

“A minha vida de tropa foi calma. Como já era casado, nem sequer dormia no quartel”.

E, uma vez mais, o futebol a surgir:

“A determinada altura fui convidado pelo Presidente do Sporting de Nova Lisboa para treinar a equipa, que jogava na II Divisão. Aceitei e consegui que eles subissem de divisão, não por mérito meu, mas porque era um conjunto de jogadores fabulosos – brancos e negros, uma grande equipa!

No ano seguinte, já em 1974  passei a treinar o Ferrovia de Nova Lisboa, que era o campeão de Angola. Eu aceitei, desde que aceitassem treinar duas vezes por dia – o que, na época, era absolutamente extraordinário, pois as equipas treinavam apenas uma vez por dia e nem todos os dias da semana. Tive então uma grande equipa onde existiam jogadores, como o Inguila (que veio para a Académica), o Nene (que veio para o Águeda), os irmãos Leitão e tantos outros”.

 

REVOLUÇÃO E REGRESSO

No dia 25 de Abril de 1974 era “aspirante” a oficial na EAMA-Escola de Administração Militar de Angola, em Nova Lisboa e seguiu os acontecimentos em Portugal, por rádios estrangeiras, com bastantes dúvidas sobre o sentido do golpe de Estado.

“Logo no dia 26 de Abril convocam todos os oficiais para uma reunião no teatro do quartel, onde anunciam que estava consolidada a vitória do Movimento das Forças Armadas, com o objectivo de  instaurar a democracia e a liberdade em Portugal. Confesso que não acreditei! Pensei que fosse uma ‘kaulzada’ de extrema-direita e estive quase a sair do local, até que um capitão que conhecia de Coimbra me garantiu que pertencia ao MFA e que era mesmo para acabar com a ditadura”.

Poderia ter passado à disponibilidade em Angola, mas optou por acabar o serviço militar nas forças portuguesas, desembarcando em Lisboa em Agosto de 1975, em pleno “Verão Quente”.

Regressado a Mira, a sua preocupação foi acabar o curso, que entretanto tinha mudado de programa. “Como podia fazer cadeiras de mês a mês, apressei-me a avançar, cheguei mesmo a refazer aquelas a que tinha notas mais baixas. Mas em 1976 deparei com um grande problema. Não havendo já tese de licenciatura, era imperativo  passar um ano a fazer um trabalho para a cadeira do Prof. Ferrand de Almeida”, adianta, realçando que “todos tivemos que escrever sobre a vida económico-social na época moderna de uma zona, com base no cadastro de propriedades, cabendo-me fazer sobre Cacia”.

Era um contratempo! Mas, como salienta, “arranjei que fazer”: ingressou no DN, foi treinar o Mealhada e concorreu como cabeça de lista para os órgãos de gestão da Faculdade de Letras, numa lista que integrou também Clara Rocha (filha de Miguel Torga). “Como ganhámos as eleições fui, ainda como aluno, para o Conselho Directivo presidido pela Profª Doutora Andrea Crabée Rocha, o que me deu grande experiência sobre a vida académica, que depois me seria muito útil quando dirigi uma Faculdade em Macau”, revela.

 

O “BICHO” DO JORNALISMO

Desde muito novo José Rocha Diniz foi atacado pelo “bicho” do jornalismo, que iria ser determinante para o resto da vida. Teria os seus 17 anos quando em Coimbra começou a colaborar com o “Centro Desportivo”, jornal dirigido por Sansão Coelho e onde colaboravam outros jornalistas, como João Bravo (já falecido), Álvaro Perdigão, Domingos Grilo e Alberto Martins (também já falecido). Colaborou ainda na “Via Latina”, com artigos sobre desporto, e esporadicamente num jornal de Cantanhede e mais tarde na “Voz de Mira”.

Quando chegou a Carmona, fundou e dirigiu o jornal “Ecos do Norte”, aproveitando o então seu sogro que tinha uma tipografia naquela cidade angolana. Quando regressa a Coimbra reencontra o jornalista Soares Rebelo (que conhecera em Angola e era chefe da delegação do Diário de Notícias em Coimbra), que propõs a sua contratação como repórter no DN. Quando terminou o curso, integrou os quadros do Diário de Notícias em Lisboa, onde esteve cerca de dois anos e meio. Depois passa a sub-chefe de redacção do semanário “Tempo”, dirigido por Nuno Rocha. Algum tempo depois é responsável por uma entrevista  política semanal no que hoje é a Antena Um, tendo como primeiro entrevistado Mário Soares, que na altura fazia a volta ao País na sua “luta” contra o então denominado “Secretariado”.

 

O DESAFIO DE MACAU

Em 1981 passa a fazer também um programa sobre turismo na RTP (então o canal único de televisão), no âmbito do qual vai a Macau. E isso iria mudar o rumo do futuro!

Entrevista o Governador vice-almirante na reserva Almeida e Costa, o presidente da Assembleia Legislativa, Dr. Carlos Assumpção (que fora presidente da Associação Académica de Coimbra antes de Salgado Zenha), e tenta entrevistar o advogado Jorge Neto Valente, figura destacada dos meios de esquerda de Macau. Mas com este último não conseguiu falar.

Uns meses depois de publicado esse muito incompleto trabalho jornalístico sobre Macau, recebe em Lisboa uma chamada de Neto Valente, que o convida para almoçar e lhe lança o desafio: ir fundar e dirigir um futuro jornal em Macau, que fosse contraponto a um outro, conservador, que estava prestes a iniciar a publicação. José começa por dizer que não, mas, perante a insistência e a imediata afinidade em termos de princípios e valores com quem o estava a convidar, acabou por aceitar.

Natal em Ulan Bator (Mongólia) com 40 graus negativos

Duas semanas depois  de chegar a Macau estava nas bancas o semanário “Tribuna de Macau”, em 30 de Outubro de 1982 (um ou dois dias depois do início da publicação do concorrente, Jornal de Macau).

A verdade é que o Mundo dá muitas voltas, e 16 anos depois os dois jornais acabariam por se fundir, dando origem ao diário “Jornal Tribuna de Macau”, sob a direcção de José Rocha Diniz, que hoje continua a publicar-se, sendo o jornal local de informação geral em língua portuguesa que mais tem durado, desde sempre, em Macau.

Para além de dirigir o jornal, José  começou a dar aulas na Universidade de Macau, vindo a coordenar a área de Comunicação Social e a ser Director-adjunto da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas. Foi também Director de Informação da TDM (rádio e televisão oficial de Macau), onde criou e coordenou a Televisão Educativa de Macau onde se ensinavam as línguas oficiais de Macau – o Mandarim e o Português. Em 1999, um dia antes da passagem de soberania de Macau para a China, foi condecorado pelo Presidente da República Portuguesa como “Grande Oficial da Ordem de Mérito”, depois de, dois anos antes, ter sido condecorado com a Ordem de Mérito de Macau, pelo Governador Vasco Rocha Vieira.

Entretanto, Rocha Diniz divorciou-se, refez a sua vida com uma estudante da Mongólia que fez a licenciatura e um MBA (Mestrado em Business and Administration), e muito recentemente deixou a direcção, passando a ser apenas administrador do jornal (de que é o accionista maioritário) e mantendo uma intervenção política semanal na Televisão de Macau.

E se pensam que está preparado para baixar o ritmo, estão enganados! Treina a equipa do Consulado-Geral de Portugal, é Secretário Coordenador da secção do PS-Macau, Presidente da Associação dos Antigos Estudantes de Coimbra em Macau, Presidente da Assembleia Geral do Benfica de Macau e Vogal da Assembleia-Geral do Influente Clube Militar de Macau. Entre outros interesses que não revela…

E é assim que, quase 36 anos depois de ter chegado à Ásia, onde continua a viver, José Rocha Diniz nos confessa, no sossego da sua casa na Praia de Mira: “O meu coração está tripartido: hoje sou de Portugal – Mira, de Macau e da Mongólia”, reconhecendo que a sua maior felicidade é que “não perdi amigos do passado e ganhei muitos amigos novos”!…

 

Uma “pequena” questão cultural…

Ao longo dos anos José sempre assinou Dinis com s. Em milhares de textos distribuídos por jornais, revistas, textos académicos e até um jornal finlandês, imaginem. Tudo isto até ir renovar a carta de condução em Macau já depois da passagem da soberania. Com grande educação, a funcionária explicou-lhe que não podia renovar porque tinham mandado vir a certidão de nascimento e lá estava um daqueles zês de perna que não deixam dúvidas. Em Portugal parece coisa pouca. Em Macau teve que mudar tudo – do passaporte aos cartões de crédito e variados documentos. “E assim, quando lerem qualquer trabalho assinado por José Rocha Diniz, acreditem que é o mesmo que assinava José Rocha Dinis” comenta, sem constrangimentos. “É uma questão cultural; habituados aos caracteres, os chineses vêem letra por letra”…