Educação foi o mote da celebração do 25 de Abril em Cantanhede

Uma conferência de Júlio Pedrosa sobre Educação deu o mote à sessão solene comemorativa do 44.º Aniversário do 25 de Abril em Cantanhede. Natural do concelho, o antigo Reitor da Universidade de Aveiro e ex-Ministro do XIV Governo Constitucional  começou por falar da sua infância passada entre Cadima e Lemede, assinalando o facto de apenas dois alunos da sua classe na escola primária terem prosseguido estudos, e lembrando também a sua experiência na Guerra Colonial para dizer que “isto é o passado que convém ter presente hoje, nesta data em que os portugueses celebram uma desejada e merecida transformação no seu modo de se organizar e de viver, no seu modo de olhar e pensar o futuro”.
“Hoje vivemos tempos diferentes”, declarou Júlio Pedrosa, enfatizando “os indicadores claríssimos dos progressos realizados e do desenvolvimento que o país conseguiu”, mas apontando também “as manifestações de atraso e as perversões da vida em sociedade que precisam ser eliminadas custe o que custar”.
Para o prestigiado académico, “a transformação de que Portugal precisa só pode acontecer através de boa educação, uma educação assente nos quatro pilares enunciados no relatório Jacques Delors para a Unesco”, no âmbito da Comissão Internacional Sobre Educação Para o Seculo XXI: “aprender a conhecer, aprender a fazer, aprender a ser e aprender a viver juntos”.
Júlio Pedrosa considera que “nestes 44 anos desde o 25 de abril, é manifesto o progresso alcançado e também o valor atribuído à educação pelas pessoas, pelas famílias, pelos decisores políticos, pelos responsáveis de organizações, de empresas, de serviços públicos”, mas nota que “o pilar que normalmente mais se valoriza é o “aprender a conhecer’. O ‘aprender a fazer’ vai ganhando alguma visibilidade nos últimos tempos, mas creio bem que há uma clara secundarização do valor do “aprender a ser e do valor do ‘aprender a vivermos juntos’”, sublinhou, com um lamento:“frequentemente vemos arredados da educação os princípios e valores que devem orientar a nossa vida em comunidade, seja na família, seja na escola, na empresa, no desporto, etc”.
Referindo que o indicador relevante do caminho percorrido consiste na comparação do nível de qualificação da população em 1974 com o que hoje observamos, o ex-Reitor da Universidade de Aveiro afirmou que “o apreço que a qualidade dos nossos profissionais merece justifica o ritmo a que as empresas estrageiras estão a fixar-se em Portugal” e salientou que “a investigação científica e o desenvolvimento do conhecimento aconteceram a um ritmo impensável há quatro décadas”.
Segundo Júlio Pedrosa “temos feito progressos de que devemos orgulhar-nos, mas isso não deve deixar-nos descansados, pois aconteceram algumas mudanças reveladoras de falta de perspetiva, de falta de sentido de futuro e de falta de capacidade de prever e planear. A educação é o fator crítico de desenvolvimento humano, para a criação de condições que permitam a dignificação das pessoas, a justiça, a confiança mútua, a liberdade e a solidariedade. O percurso que fizemos nestes 44 anos foi notável, porém é preciso que os desenvolvimentos futuros aconteçam a ritmos muito fortes, pois carregamos com alguns atrasos”, concluiu.
Também o discurso de Helena Teodósio fez um discurso centrado da educação, que considerou “o fator com um efeito estruturante mais acentuado na evolução da sociedade portuguesa desde o 25 de Abril. A educação foi o verdadeiro ascensor social para várias gerações de jovens, a igualdade mais autêntica emergiu da educação, em função da igualdade de oportunidades no acesso ao ensino”, declarou.
Para a presidente da Câmara de Cantanhede “o maior desafio passa agora por conseguir que o país acerte o passo com um modelo de desenvolvimento que permita otimizar recursos e que favoreça a rentabilização do investimento que o país tem vindo a fazer na educação e na formação dos cidadãos. Em Cantanhede, nós acreditamos que o Município está a cumprir bem essa função, acreditamos que o Município está a interpretar bem o seu papel de agente promotor de desenvolvimento, incluindo a aposta na Educação, investimentos que têm vindo a ser feitos na qualificação crescente da rede de equipamentos escolares e na valorização das condições em que decorrem as dinâmicas de ensino aprendizagem”, sublinhou.
Perante uma assistência que incluía o vice-presidente da autarquia, Pedro Cardoso, os vereadores Adérito Machado, Júlio de Oliveira, Célia Simões, Luís Silva e Gonçalo Magalhães, bem como presidentes de junta e outros autarcas, no decurso da cerimónia discursaram ainda o presidente da Assembleia Municipal, João Moura, e os representantes das forças políticas que integram o órgão deliberativo do município, designadamente Carlos Fernandes, pelo PSD, e José Vieira, pelo PS, e Carlos Negrão pela CDU.
No decurso da sessão, foram interpretadas algumas peças de António Fragoso “uma forma de prestar homenagearmos a essa grande referência cultural e artística do país precisamente no ano em que se assinala o centenário da sua morte”, referiu Helena Teodósio. Natural da Pocariça, o compositor faleceu precocemente aos 21 anos, deixando ainda assim uma obra amplamente reconhecida por eminentes musicólogos e melómanos.
“O maestro Pedro de Freitas Branco surpreendia-se muito com o valor dessa obra, até porque, dizia, ‘morrer aos vinte e um anos é quase não ter vivido’, mas o valioso legado musical de António Fragoso está mais vivo que nunca pela notável ação que tem vindo a ser desenvolvida pela Associação António Fragoso”, afirmou Helena Teodósio, lembrando “o apoio do Município de Cantanhede às iniciativas organizadas por esta entidade no âmbito do centenário da morte do compositor, na perspetiva de que cabe á autarquia contribuir para generalizar o conhecimento do valor patrimonial, artístico e cultural da sua obra”.
No final da cerimónia, representantes dos órgãos autárquicos e convidados assistiram na Praça marquês de Marialva ao Concerto da Liberdade, pela Associação Filarmónica Marialva de Cantanhede