E depois dos fogos? A pressa não é boa conselheira…

 

A pressão e a pressa têm sido enormes. Todos querem medidas, todos apresentam propostas. Surgem de todos os lados, daqueles que sabem, ou deviam saber, e daqueles que desconhecem o assunto e se atiram voluntariosamente para a frente cheios de boas intenções ou apenas querem marcar uma posição política ou desejosos de um qualquer protagonismo.

Mas o “curto prazo” nos espaços florestais não se mede em dias, nem sequer em meses… A pressa é inimiga de boas soluções e deve ter-se em conta que o que se fizer agora, de bom ou de mau, tem repercussões para muitos anos.

A primeira tarefa é avaliar o que ardeu, o que existia no local antes do fogo e como ficaram esses espaços e as árvores após o fogo. A partir daqui são diversas as opções e que devem ser vistas caso a caso, tendo sempre em conta o espaço rural no seu conjunto.

Algumas considerações:

Se o que existia antes do fogo era um pinhal adulto (>20 anos) de boa conformação, então vai ocorrer regeneração natural intensa e o que se deve fazer é esperar pelo seu crescimento e intervir na condução do povoamento. Com 2 ou 3 anos de crescimento, consoante as estações, pode-se utilizar um tractor com grade, ou destroçador, para se ficar com o povoamento alinhado e limpo. É mais seguro, de melhores resultados e mais barato.

Esta situação é aplicável ao Pinhal de Leiria, sendo que o estimado em madeira para serração será de 1,2 milhões de toneladas. A um valor de 50€ a tonelada teremos cerca de 60 milhões de euros, o que é suficiente para recuperar o Pinhal e ainda “sobra” dinheiro para outras áreas de Matas Nacionais ou Áreas Comunitárias (baldios).

Os baldios têm normalmente maiores áreas contínuas. Devem, fundamentalmente, servir as suas comunidades e promover a economia de montanha, o desenvolvimento rural. Nestes casos, naqueles que foram afectados pelos fogos, devem ser revistos, reconsiderados os seus planos de utilização e promover uma ocupação que concilie um rendimento a curto prazo com outras áreas de crescimento a mais longo tempo, uma ocupação florestal que conviva com a silvopastorícia, utilizações agrícolas e outras.

A prioridade deve ser, em meu entender, tratar, cuidar do que existe de bons povoamentos. A preocupação com as áreas ardidas não pode esquecer as que não arderam. Fazer a devida prevenção no Inverno. Para tal devem existir apoios concretos para beneficiação desses povoamentos, nomeadamente para uso de fogo controlado em época apropriada ou outro tipo de limpeza de matos com grade discos ou destroçador.

As atitudes voluntariosas de recolher sementes e semear devem ser enquadradas pelo ICNF.

É importante a sensibilização de uma grande parte da população de quererem ajudar a recuperar as áreas ardidas, mas, na maior parte dos casos, os terrenos são particulares, têm donos e é a eles que compete decidir o que querem fazer das suas propriedades.

Por outro lado, não é boa política usar qualquer semente sem conhecer o povoamento ou árvores de onde provêm e o seu estado fitossanitário, com riscos de consanguinidade, autofecundação, hibridização, sementes não-viáveis, etc. Devem ser usadas boas sementes, que permitam um novo povoamento de qualidade e, se possível, com características genéticas mais favoráveis.

A situação catastrófica que tivemos também gera a oportunidade de se fazer melhor para que se evitem as mesmas condições no futuro.

Isto impõe Engenharia Florestal, impõe o contributo de outras áreas do saber e criar equipas multidisciplinares que contribuam para soluções equilibradas, incluindo, entre outros, agrónomos, arquitectos paisagistas, biólogos, economistas, etc.

Impõe-se que se faça planeamento, ordenamento e não é exclusivo da floresta, muito pelo contrário, é o ordenamento do território, o ordenamento rural em que são necessárias as várias actividades da floresta, da agricultura, da silvopastorícia, enfim, de tudo o que possa compor e diversificar a ocupação e a paisagem, entendida não como “objecto” visual, mas uma paisagem humanizada, com pessoas, com actividade económica que lhes proporcione qualidade de vida.

Os maiores riscos imediatos, para além da pressinha de dar nas vistas, é a erosão e as invasoras, sobretudo a acácia.

Os riscos de erosão são maiores em terreno nu, descoberto. São sempre menores quando existe coberto florestal cujas copas intersectam a chuva e as próprias árvores, e as suas raízes, ajudam à infiltração da água no terreno. Tudo vai depender do regime de pluviosidade que tivermos pela frente. Temo que soluções para controlar o escorrimento das águas e solo sejam demoradas e de difícil aplicação com os meios humanos e técnicos existentes. Devem ser definidas rapidamente as zonas de maior risco e aplicar soluções simples, nomeadamente estabelecer regos e valas que permitam, pelo menos, reduzir a velocidade da água das chuvas.

O risco da proliferação das acácias é enorme. Não há soluções técnicas fáceis, viáveis para o seu “extermínio”.

É uma espécie de luz, um fogo e a água que se lhe segue são as condições óptimas para despertar as milhares de sementes que estão em dormência.

Temos de aprender a viver com elas, sabendo-se que na medida em que seja instalado um povoamento, e este crescer, na sua zona de ensombramento as acácias ficam dominadas. Fiz algumas experiências localizadas para combate das acácias em condições muito particulares. A aplicação de herbicidas, que as dominam, traz problemas secundários e está naturalmente desaconselhado em termos ambientais e limitado pela legislação vigente. Por vezes aparece quem preconize o seu arranque. Sugiro que arranquem uma “muito jovem” planta de acácia e avaliem a dimensão da sua raiz… Cobrir com plástico preto ou outro material impenetrável à luz é uma solução mas só pode ser aplicada em áreas limitadas, pelo custo e dificuldade prática para o fazer. Finalmente, uma última solução: conduzir em alto-fuste e encontrar aproveitamento para elas. Por exemplo, há países em que se faz mobiliário de acácia, outros em que é aproveitada para pasta de celulose.

Em resumo, é preciso cuidar e preservar o que existe e não ardeu, definir prioridades, pensar e planear a recuperação das áreas afectadas.

Autor: Vasco Paiva (Engenheiro Florestal) 

O autor colaborou com o AuriNegra na elaboração de 13 textos referentes aos incêndios.