Dois cientistas do Instituto Gulbenkian de Ciência ganham bolsas de mais de 1 milhão de dólares

Ana Domingos, investigadora principal do grupo de Obesidade, e Ivo Telley, investigador principal do grupo de Princípios Físicos da Divisão Nuclear, no Instituto Gulbenkian de Ciência (IGC; Portugal), receberam bolsas de Jovem Investigadores do Programa Human Frontier, no valor de 1,05 e 1,35 milhões dólares respectivamente, por um período de 3 anos.

Os projectos apresentados envolvem três ou quatro equipas de investigação de diferentes pontos do globo e são coordenados pelos cientistas em Portugal.

Apenas sete projectos Jovem Investigadores Human Frontier foram financiados este ano.

O programa internacional da organização Human Frontier, (International Human Frontier Science Program Organization –HFSPO) financia cientistas e projectos científicos de “investigação básica ou fundamental que tenham um potencial inovador excepcional e criativo, em diferentes áreas das ciências da vida”.

Este financiamento é altamente competitivo, sendo a taxa de aprovação destas bolsas de apenas 3%.

Ana Domingos, Portuguesa, estuda os mecanismos neuronais responsáveis pela degradação da gordura. Recentemente, a equipa de investigação liderada por Ana Domingos publicou um estudo na prestigiante revista científica Cell onde estabeleceu, pela primeira vez, que o tecido adiposo é inervado. “Nós determinámos que a activação de neurónios simpáticos entre adipócitos promove a degradação da gordura e consequentemente a perda de massa gorda. Este resultado representa uma nova estratégia para a indução da perda de gordura e em última instância, pode traduzir-se numa nova terapia anti-obesidade que poderia ultrapassar os problemas relacionados com o emprego de fármacos no cérebro”, refere Ana Domingos. Neste projecto, Ana Domingos irá colaborar com os grupos de investigação de Paul Cohen (Rockefeller University, USA) e Daniel Razansky (Institute for Biological and Medical Imaging, University of Munich, Germany) para compreenderem melhor a anatomia dos neurónios que rodeiam a gordura e a função que têm, combinando técnicas sofisticadas de genética e microscopia optoacústica.

A investigadora Portuguesa refere que “para encontrar uma cura para a obesidade temos que estar na fronteira da investigação em obesidade, o que muitas vezes requer interdisciplinaridade e estarmos dispostos a correr riscos – a Human Frontier apenas financia projectos que tenham estas características”.

Já Ivo Telley, Suíço, estuda o posicionamento do núcleo e o papel que aí tem o esqueleto da célula, durante as primeiras fases do desenvolvimento da mosca da fruta. No projecto agora financiado, Ivo Telley propõe investigar o rearranjo espacial de diferentes moléculas dentro das células e o seu impacto durante o desenvolvimento do plano corporal do animal.

Em particular, “estudamos como é que ocorre o seu posicionamento e porque é que as mesmas moléculas vão sempre para os mesmos locais, ou seja, como e porque é que o sistema é tão robusto”, explica Ivo Telley.

A maior limitação para compreenderem estes mecanismos prende-se com a complexidade de uma célula ou organismo. Por isso, neste projecto, Ivo Telley junta forças com os grupos de Martin Loose (Institute of Science and Technology, Austria), Sebastian Maurer (Center for Genomic Regulation, Spain) e Timothy Saunders (Mechanobiology Institute, Singapore) para “reconstruir” bioquimicamente a organização espacial e temporal das moléculas numa célula artificial e visualizar o processo usando tecnologia de microscopia de ponta e de alta resolução.

“Este financiamento permite que o nosso grupo aqui no IGC e os três parceiros trabalhem num aspecto importante da biologia que não foi ainda abordado mas que sempre suscitou muito interesse. A nossa equipa oferece uma combinação perfeita de experiência para tornar este ambicioso projeto um sucesso. É uma grande honra ver esta ideia reconhecida e ter os meios para a testar”, refere Ivo Telley, acrescentando que “o Programa Human Frontier tem um papel central no apoio a projectos de investigação de alto risco como este e é ao mesmo tempo prestigiante e de extrema importância para a ciência.”

Pode ler-se no comunicado da organização que a “International Human Frontier Science Program Organization (HFSP) irá atribuir cerca de 34 milhões de dólares para as 32 equipas de 2016. Os candidatos passaram por um rigoroso processo de seleção ao longo de um ano numa competição global que começou com 871 cartas de intenção envolvendo cientistas em 64 países diferentes em todo o Mundo. Para além dos 7 financiamentos Jovens Investigadores (envolvendo 22 cientistas) foram atribuídas 25 financiamentos de programa (envolvendo 78 cientistas).”