Do seminário para o palco

B.I. Nelson Cadete nasceu a 18 de Agosto de 1968 na cidade de Toronto, no Canadá. Aos 10 anos regressa ao Seixo, a sua terra natal, onde faz questão de se envolver com a comunidade e ajudar nas mais diversas actividades, com destaque para o teatro

Nelson Cadete nasceu em Toronto, no Canadá, em 1968, mas é no Seixo (Mira) que desde sempre se sente em casa.

“Sou um seixense dos sete costados”, começa por nos dizer, dando início a uma conversa longa que vai desde os tempos de menino, ao Seminário, passando pela docência e pelo teatro – uma paixão que tem vindo a alimentar na sua terra natal.

Os pais – ambos seixenses – emigraram cedo para o Canadá e foi por lá que acabou por passar os seus primeiros dez anos de vida. Dos tempos de infância por terras do Norte da América, Nelson Cadete recorda as brincadeiras na neve mas também as suas primeiras experiências no campo da música e das artes.

À esquerda, numa das peças do Seixo

Em Toronto, Nelson frequentou a escola inglesa e portuguesa, mantendo, como nos diz, “uma educação muito cristã e alicerçada nos valores familiares”. A língua portuguesa era a escolhida para falar em casa, “depois ainda tinha aulas de português, entre outras disciplinas, às terças, quintas e sábados”.

Nessa altura, a escola que frequentava tinha já um plano curricular com um grande enfoque na parte cultural e por isso as artes eram parte fulcral do curriculum. “A música e o teatro sempre estiveram presentes na minha vida. Ainda em miúdo fiz logo parte do “coro da escola”, explica-nos. E os meus pais inscreveram-me no Conservatório, onde comecei a aprender a tocar asteel guitar”, uma guitarra que se toca colocada em posição horizontal”.

Quando aos 10 anos a família regressa a Portugal, Nelson, depois de fazer a 4ª classe na escola das Cabeças Verdes, ingressa no Seminário Menor da Figueira da Foz, onde, recorda, “havia um forte incentivo para participar nos diversos eventos (festas de Natal, festa dos pais, eventos no liceu, etc.) e onde aprendíamos as bases da teoria musical e, sobretudo, a trabalhar com colegas e superiores num espírito de colaboração”.

Nas férias, e de regresso ao Seixo, o contacto com a terra e com os animais era uma realidade que se impunha: “Os batatais, a ordenha das vacas, descascar o milho, a palha na cabana, as medas, o estrume, as matanças do porco”.

“Ainda que na adolescência não me apetecesse muito levantar-me de manhã cedo para ajudar a minha mãe nas fainas agrícolas – gostava das noitadas – nunca fui um ‘mouro’ de trabalho”, conta ao AuriNegra, acrescentando que a juventude acabou por ser passada “num ambiente de alegria e liberdade, sem grandes dificuldades, num clima familiar de respeito pelos mais velhos e de participação nas actividades da aldeia”.

Desses tempos recorda com especial carinho “as sessões de teatro, as festas de Carnaval e de Passagem de Ano, as tardadas na bola, as festas no Verão, os eventos culturais (exposições de pintura, fotografia, poesia, etnografia), entre muitas outras actividades, nas quais, desde sempre, o espírito comunitário nos diferenciava das outras aldeias do concelho”.

“O envolvimento nestas actividades era-nos incutido desde pequenos. Por isso, o contacto com o teatro e a música desde cedo fizeram parte da minha vida. Para além disso, na minha família já havia uma tradição nas artes performativas: o meu avô Alberto Aveiro já fizera grandes papéis no teatro, o meu tio-avô, João Seabra, era um entertainer nato, o meu padrinho e a minha tia também pisaram o palco, e o meu pai e minha mãe sempre cantaram lá em casa, ou seja, todos gostávamos de festa”.

Quanto à ida para o Seminário, não foi grande surpresa. Oriundo de uma família católica, era com naturalidade que, no Seixo, os jovens seguissem para o seminário. E assim, após terminar o Seminário Menor, passou ainda pelo Seminário de Aveiro, “onde se tornou ainda mais intenso o estudo da música. Foi (no Seminário da Figueira da Foz), com cerca de 14 anos, que comecei a tocar viola”. Durante os anos de Seminário foram muitas as actividades culturais em que se envolveu: “Tive imensas experiências teatrais e musicais, tanto religiosas como profanas. Fiz parte de coros e de tunas, era muito envolvido. O teatro também começou cedo e é com carinho que me recordo da primeira peça que fiz: um monólogo chamado Zé Pacóvio, tinha eu dez/doze anos”

A ser caracterizado para o teatro

No entanto, e embora o desejo inicial fosse seguir uma vida de sacerdócio, com a idade adulta vieram novos objetivos e desígnios e, com 22 anos, já depois de frequentar Seminário Maior de Coimbra, Nelson Cadete escolhe seguir outro caminho. “À medida que vamos crescendo vamo-nos apercebendo que temos outras escolhas de vida… Depois de muita reflexão entendi que não era essa a minha realidade”, acrescenta.

Ao deixar o Seminário para trás, Nelson Cadete continua a formação na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, onde cursa Português/Francês. Depois disso, passa ainda por uma experiência profissional, no Algarve, mas entretanto começa a dar aulas de Educação Moral Religiosa e Católica, em escolas da Figueira da Foz.

Em simultâneo com a vida no seminário e depois na Faculdade, Nelson Cadete envolve-se cada vez mais nas actividades da aldeia e passa a assumir a direção do coro litúrgico da igreja do Seixo – onde se mantém – e a colaborar com mais regularidade com a secção de teatro da Associação Cultural e Recreativa.

Neste âmbito, Nelson Cadete não esquece o ano de 1999, que veio marcar uma viragem na sua vida artística no teatro, com “Os Maias”, de Eça de Queirós.

“Foi uma grande produção, na qual estive muito envolvido, e a partir daí as coisas foram acontecendo com normalidade. As pessoas mais velhas iam dando lugar aos mais novos (sem nunca deixarem de estar presentes) e, quando dei por ela, estava a encenar as peças de Natal.”

Depois disso, e pouco a pouco, o teatro no Seixo foi evoluindo, “com as inovações tecnológicas a acrescentarem muito valor a um pequeno grupo de teatro amador de uma pequena aldeia que tem como grande trunfo a colaboração de um grande número de pessoas que se disponibilizam para ajudar e participar”.

“Todos os anos há alguém que nunca fez teatro e que pisa pela primeira vez o palco. E temos trabalhado com todas as idades, dos 8 aos 88 anos. Há um sentimento de continuidade e o bichinho do teatro fica naqueles que por lá passam. Este é o meu maior orgulho”, refere Nelson Cadete, que no grupo é acarinhado por todos.

Ao longo de todos estes anos ligados ao teatro do Seixo, há, no entanto, um momento que destaca: “Quando o teatro no Seixo celebrou 125 anos, foi-me lançado o desafio de encenar o musical ‘José e o deslumbrante manto de mil cores’. E isso foi um grande marco, visto que coordenar 80 pessoas, organizar músicas, coreografias, crianças, cenários, figurinos e toda uma panóplia de elementos fundamentais num musical, foi um trabalho hercúleo. Mas depois, ver o sucesso que a peça alcançou – com mais de 10 apresentações ao longo do ano –, foi um sentimento magnífico. Foi a partir deste momento que o sucesso cresceu e o número de espectadores aumentou”.

Nas várias peças que encena, Nelson acumula frequentemente um papel de actor para ele próprio representar. “No entanto, se me perguntar se prefiro encenar ou representar, não há uma preferência. São ambos desafios enriquecedores e gratificantes. Ambas as situações exigem muito trabalho e, acima de tudo, a capacidade de relação com os outros elementos do grupo. Criam-se verdadeiras amizades e cumplicidades tanto a encenar como a representar, de tal modo, que até já houve casamentos que brotaram do teatro”, diz divertido.

Para além disso, há sempre uma causa solidária associada. “Este ano tivemos o dinheiro dos espectáculos a reverter para as vítimas dos incêndios de Outubro e também para a Larinha, uma menina da Praia de Mira muito doente”.

Quanto à escolha das peças a encenar, Nelson refere que não existe nenhum processo específico. “Às vezes é uma sugestão, outras vezes uma procura na internet e noutras uma ideia que surge ou um livro que se leu. Tento é ir sempre ao encontro dos gostos das pessoas do Seixo; é em primeiro lugar, para elas que representamos”, diz-nos, explicando que o processo se inicia em Setembro. “Depois, a partir de Outubro, começam os ensaios e no dia de Natal dá-se a estreia”.

No que diz respeito ao sucesso alcançado com estes teatros, Nelson frisa que tal se deve essencialmente “ao trabalho árduo que realizamos e às noites longas de ensaios de Outubro a Dezembro”.

Em palco com Boeing Boeing

“Depois, não podemos esquecer, temos o talento inequívoco dos nossos actores e dos nossos colaboradores nas diversas áreas técnicas e, finalmente, o apoio das nossas famílias e o carinho inexcedível do nosso público que nos reconhece valor e que vai passando a palavra e enchendo a sala”, frisa, adicionando: “Nos últimos anos têm vindo espectadores de longe para nos ver, o que só aumenta a nossa responsabilidade. Já fomos convidados para actuar em algumas casas emblemáticas mas preferimos manter-nos amadores, no sentido mais literal da palavra. Gostamos de teatro, queremos que as pessoas passem um bom bocado connosco e, quem sabe (talvez um pouco de presunção da minha parte) aprendam alguma coisa, para que no final, saiam mais felizes e animados para lidar com a vida de todos os dias”.

Para além do teatro de Natal, a secção faz ainda participações esporádicas em eventos da terra, como o cortejo de Reis, ou as feiras medievais, entre outros. “Somos uma terra que promove o convívio intergeracional. Pessoas participativas e colaborativas que dão valor à cultura, que tem muito de humano e que eleva o homem”.

Desde sempre extrovertido e comunicativo, Nelson Cadete encara a vida com boa disposição e por isso é com facilidade que enfrenta os desafios e projectos propostos pelas gentes da sua terra. Assim, para além do teatro, está ainda envolvido na política – é 1º secretário da Assembleia Municipal –, participa activamente nas festas da terra, e ainda que as chuteiras já estejam penduradas há vários anos, coopera também com a secção futebol – “muitas das vezes cozinhando para eles”. E embora assuma que não goste de pensar a longo prazo, os planos futuros passam por terminar o Mestrado – falta escrever a tese –, voltar a dar aulas e pensar já na próxima peça para o Seixo, para que tudo esteja a postos no próximo Natal. “Talvez se volte a fazer um musical”; diz-nos, levantando um pouco o pano.