Do rei dos belgas à servidão voluntária dos portugueses

É consabido que povo português não gosta de perder tempo com coisas sem importância, preferindo dedicar-se aos assuntos verdadeiramente essenciais, quais sejam as telenovelas, o Preço Certo, as Queridas Manhãs, as Tardes da Júlia e quejandos.

Por isso, poucos portugueses terão notado que o Presidente Marcelo afirmou, aquando dos atentados de Bruxelas, que tinha manifestado a sua solidariedade ao “Rei dos belgas”. Disse “Rei dos belgas” e não Rei da Bélgica.

Poucos portugueses terão notado também que, na Turquia, após a chamada “tentativa de golpe de Estado” bastaram dez dias ao déspota Erdogan para fechar uma centena de televisões, rádios e jornais e fazer uma lista de quase cem mil pessoas a aniquilar – juízes, advogados, jornalistas, professores, funcionários públicos,… – para muitos dos quais quer repor a pena de morte. Como uma tal lista não se faz em dez dias, é óbvio que ela já estava feita e que, para poder liquidar toda esta gente que incomoda a ditadura, havia que simular um golpe de Estado.

Poderá o leitor perguntar o que terão a ver a Bélgica, democracia onde o povo não precisa de manifestar apoio ao seu Rei, com a Turquia, cujo povo sai massivamente à rua para apoiar o tirano que o oprime.

Um princípio de resposta poder-se-á encontrar num livro escrito por Étienne de La Boétie por volta de 1560, intitulado “Discurso da Servidão Voluntária”. Questionava-se ele: porque é que os povos, tendo escolha entre a liberdade e a servidão, escolhem voluntariamente a servidão, “adorando” quem os oprime? O próprio explicava que a maior parte das pessoas, não sabendo pensar por si, precisam de chefes que lhes deem a impressão de gostar delas, a quem conferem um poder que depois alimentam desde que o chefe continue a fingir que gosta delas, como era aconselhado por Maquiavel. E, na “Psicologia das Multidões e Problemas Coletivos”, Freud, em 1921, explicava como é que nas reuniões e comícios, os “chefes” fazem funcionar a ilusão de que gostam das pessoas que os seguem – engano funciona tanto melhor quanto menos esta gente se lembrar da célebre frase “O homem é o lobo do homem”, escrita 210 anos antes de Cristo por Plauto, no livro a que deu um expressivo título: “Comédia dos Burros”.

No séc. XVII, Thomas Hobbes, no livro “O Cidadão” explica que os chefes alimentam esta ilusão nos seus seguidores através de técnicas de discurso que dão sentido às afirmações que não têm sentido e que fazem parecer verdadeiro aquilo que é falso. E é falso eles gostarem dos seus seguidores; e é verdadeiro eles apenas quererem amansá-los para que estes lhes assegurem o poder. Assim se explicam as multidões que ainda hoje seguem todos os caminhos dos seus ídolos políticos, por mais curvas que tenha a linha política que seguem. Assim se explica que, por cidades, vilas e aldeias, as pessoas defendam, de forma incondicional e idiota, os chefezinhos locais façam eles o que fizerem, pensem eles o que pensarem – o que significa que quem os segue não pensa.

Em 1689, bastou um livro de John Locke, “Ensaio sobre o Entendimento Humano”, para derrubar o absolutismo dos Cromwell em Inglaterra e lançar as bases da democracia, fundamentada naquilo a que chamava “direitos naturais” – à vida, à liberdade e à propriedade. Tais direitos haveriam de ser retomados nas revoluções de julho de 1830 em França e de agosto do mesmo ano na Bélgica, com os reis Luís Filipe I e Leopoldo I a serem designados Reis “dos franceses” e “dos belgas”, respetivamente.

Porquê “Rei dos franceses” e não “Rei da França”? Porquê “Rei dos belgas” e não “Rei da Bélgica”? Precisamente porque, segundo o direito natural de propriedade, nenhum Rei é proprietário – ou soberano – de um país. O soberano – ou proprietário – do país é o povo. E, não estando a soberania no Rei mas no Povo, o Rei limita-se a ser o Rei do Povo e não o soberano do país.

O presidente Marcelo, homem de grande cultura, não falhou neste enorme “detalhe” que passou, naturalmente, despercebido aos portugueses, muito mais preocupados com coisas relevantes como as telenovelas e o futebol.

É por isso que os belgas, povo culto e personalizado, são soberanos do seu país e não permitem que o Rei o seja. É por isso que os portugueses – quase imitando os turcos –continuam a viver em “Servidão Voluntária”, submetendo-se aos chefes partidários e aos chefezinhos locais, pensando sempre o que eles pensam, qualquer que seja a opinião destes, e por muito que estes mudem de opinião.

No séc. XVIII, Rousseau, no seu célebre “Emílio”, dizia que só pela cultura o povo se poderia libertar desta “Servidão Voluntária”, em que as pessoas aceitam que a sua cabeça seja propriedade de outras pessoas.

Mas como falar de cultura em Portugal quando na esmagadora maioria das casas do país não existe um único livro?4