Do mar para o jazz

Francisco Jorge Ribeiro Pauseiro, mais conhecido como Chico Jorge, nasceu a 24 de Setembro de 1954 na Praia de Mira. Filho de um pescador de bacalhau, foi ainda em adolescente que decidiu dedicar-se à faina maior, de modo a “fugir” ao serviço militar.

Durante nove anos andou à pesca pelos mares do Norte, uma vida que só deixou devido a um grave problema de saúde. Depois disso, decidiu criar o bar Contra Baixo, ao qual dedicou grande parte da sua vida.

Filho de pai pescador e de mãe agricultora, Francisco Jorge, assim como os seus três irmãos, tiveram sempre uma vida humilde mas também tranquila. “Não tinha nada a ver com o que se passa hoje… Eram tempos difíceis mas ao mesmo tempo alegres. Eram tempos de grande liberdade. Lembro-me, por exemplo, de nadar na barrinha com os meus irmãos e da festa que era quando matávamos o porco, que dava para encher a arca frigorífica para muitos meses”, recorda.

Embora não houvesse “fartura”, havia sempre vegetais e legumes, vindos directamente da terra, sendo que “pelo menos uma sopinha era sempre garantida”.

Com poucos estudos – tirou apenas a 6.ª classe – Chico Jorge desde jovem percebeu que o seu destino passaria pelo mar, assim como o do pai e de dois dos seus irmãos.

Deste modo, aos 17 anos, decidiu entrar para a Escola de Pesca de ílhavo. “Já sabia que ou escolhia a pesca do bacalhau ou escolhia a tropa. Como nunca fui homem de armas, preferi lançar-me ao mar. Durante um ano, ia e vinha de Ílhavo todos os dias, até estar preparado para embarcar”.

Apesar de ter a perfeita noção dos perigos da vida em alto mar, também tinha algum conhecimento dessa difícil actividade. “Desde miúdo que ouvia histórias do mar, episódios arriscados. Lembro-me do meu pai contar que foram várias as vezes que iam sendo ‘virados’ em alto mar por submarinos de guerra, por exemplo”, refere, acrescentado que, ainda assim, “era muito mais assustadora a ideia de ir para a tropa”. Aos 18 anos, entrou pela primeira vez a bordo de um bacalhoeiro.

“Calhou-me o Santa Isabel, um barco de arrasto que na altura se estava a estrear. Tive muita sorte nesse aspecto”. Ainda assim, não se livrou dos enjoos. “Enjoava constantemente… Os primeiros dias no mar eram sempre terríveis”, refere.

Para além disso, “era muito inexperiente. Lembro-me que logo nos primeiros dias me pediram para fazer um pitéu de raia que eu, ingenuamente, coloquei numa mesa cá fora. Pouco tempo depois, como é lógico, veio uma vaga maior e aquilo virou tudo. Nesse dia aprendi que a panela se colava com um bocado de pão molhado. Eram pormenores desses que aos poucos se iam aprendendo”.

Apesar de novo nas andanças da Faina Maior, Chico Jorge refere que contou sempre com o apoio não só da família, que já conhecia a realidade, mas de conterrâneos como Alcino Clemente, que o acompanhou em algumas campanhas.

Não obstante os perigos que o mar traz, Chico Jorge refere, no entanto, que nunca foi de sentir medo. “O que me incomodava mesmo, mais até do que o mar, eram as pessoas, as atitudes, principalmente dos oficiais”.

Embora tenha entrado para a pesca do bacalhau numa fase de transição, no que dizia respeito às condições de trabalho, o praiamirense refere, ainda assim, ter presenciado várias injustiças.

“Aquilo era complicado, mesmo a forma como mandavam em nós. Era o tempo do fascismo, e não foi nada fácil”, assume. Ainda que tenha começado como moço, pouco tempo depois meteram-no a fazer funções de timoneiro, ou seja, a tomar conta da ponte e mais envolvido na navegação.

Mais tarde, passou a aprendiz de redeiro, redeiro e depois, já no Navio Santo André, a mestre de redes.

Durante os nove anos em que o mar foi a sua casa, Chico Jorge afirma que um dos principais problemas era a alimentação. “A comida não era suficientemente diversificada nem muito saborosa e, por isso, comia pouco mais que pão, café e manteiga. Logo na 1.ª viagem emagreci 12 quilos. Ainda me recordo daquilo que a minha mãe chorou quando me viu muito mais magro”, conta-nos, acrescentando, entre risos, que, embora tenha sido um processo doloroso na altura, até lhe deu jeito: “Estava um pouco gorducho”.

O frio era outro impedimento na uma vida feliz no mar, mas ainda assim, Chico Jorge prefere este ao calor. “Antes de deixar o mar fiz uma campanha na África do Sul, para a pesca do polvo, e o calor era insuportável. Para trabalhar é mil vezes pior que o frio”. O praiamirense refere que chegou a ter dias no mar com 50 graus negativos, temperaturas muito baixas que combatia através do trabalho: “O segredo era não parar, estar sempre em movimento… Só assim dava para aguentar”.

Também difícil de aguentar eram as saudades de casa e a dor que sentia cada vez que deixava o cais. “Custava-me imenso despedir-me. A minha vontade, muitas das vezes, era ir e nem dizer nada, porque a despedida custava ainda mais. Os primeiros dias no mar eram sempre dolorosos”, recorda.

Embora lembre vários momentos de tristeza, solidão e injustiça, Francisco Jorge considera-se um pouco privilegiado, por ter encontrado bons companheiros, bons navios e alguma segurança no seu trabalho. Ainda assim, não se livrou de alguns sustos, inclusive uma tempestade em que “só sobrevivi porque me agarrei a um cabo do navio, enquanto levava com toneladas de água em cima”.

Ser pescador de bacalhau foi, mais que uma forma de sustento, uma necessidade para fugir a outra dura realidade. Porém, para o agora empresário, foi ao mesmo tempo uma forma de conhecer outras pessoas, outros locais e outras culturas.

“Fiz muitos amigos a bordo, alguns dos quais com quem ainda mantenho contacto. Para além disso, tive a oportunidade de conhecer o Canadá, a Noruega e a África do Sul”, refere. Logo em St. John’s (Terra Nova – Canadá), Chico Jorge deparou-se com uma realidade muito diferente daquela que existia no Portugal de então.

“Já era mais evoluído que Portugal nessa altura. Lembro-me que, juntamente com alguns colegas, tinha como brincadeira preferida passar horas a subir e descer escadas rolantes no centro comercial, algo que no nosso país nunca tínhamos visto”, refere.

Outro dos prazeres a que se dava ao luxo sempre que ia a terra era comprar boa música. “Coisas que não chegavam a Portugal e que me foram ensinando a gostar, cada vez mais, de géneros como jazz, entre outros. A vida no mar tornou-se mais fácil com a música, tenho de admitir”.

Na verdade, foi a música que, de regresso a terra, deu mote àquele que viria a ser o “menino dos seus olhos”: o bar Contra Baixo.

Ao som do Jazz

Francisco Jorge tinha 28 anos quando se despediu da vida em alto mar. Na altura, aquilo que parecia ser uma simples gripe era afinal uma tuberculose pulmonar que o deixou impossibilitado de continuar na pesca do bacalhau.

“Foi um período horrível em que fui muito abaixo. Comecei a ficar muito por casa, com os meus vinis, a minha música e os meus amigos”, refere, acrescentando que foi um desses amigos – Carlos Lourenço – quem lhe propôs a abertura de um bar que servisse igualmente como ponto de encontro para os amantes de boa música e da cultura.

Com alguma experiência na área, pois desde pequeno que trabalhava durante o Verão em bares e cafés da Praia de Mira, Chico Jorge decidiu abraçar a ideia e criou o Contra Baixo.

“Desde miúdo que gostava de música. Eu fazia colecção de moedas quando era novito, e um dia decidi vendê-las, tinha 16 ou 17 anos, para comprar um aparelho para ouvir música”, recorda.

A sua preferência ia para Zeca Afonso, entre outros artistas portugueses e não só, que escutava a partir da sua coleção de discos, que chegou a ultrapassar as largas centenas de unidades. “Para além disso, já tinha o desejo de ter um espaço meu e por isso foi unir o útil ao agradável”. Acabou por criar o bar na sua casa.

Com efeito, durante mais de trinta anos, o Contra Baixo foi bar mas também sala de exposições, concertos, tertúlias… “Era verdadeiramente a minha sala de estar. Onde recebia os meus amigos, onde mostrava os meus gostos e ouvia a minha música”, refere o antigo pescador, acrescentando que por lá já passaram dezenas de artistas e intérpretes, de Vitorino a Rão Kyao, passando por José Cid, Maria João e Bernardo Sassetti.

“O bar acabou por tornar-se a minha vida”, afirma veemente, fechando o rosto para nos informar do seu recente fecho: “Há cerca de dois meses que está fechado e não deverá abrir mais”.

Depois de várias décadas como empresário, Chico Jorge refere que ainda ponderou voltar ao mar, para ter uma nova forma de sustento. No entanto, depois de refletir melhor sobre o assunto, refere que não seria capaz. “Na altura, era novo, e nem pensava muito nos perigos que corria. Agora, com a minha filha [de 15 anos], a responsabilidade e a preocupação são outras. O mar é, a nível da pesca, passado, mas também é presente, porque venho vê-lo quase diariamente”.