Disfarçados de refugiados

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António Fresco fresco@fresco.pt Designer gráfico

É tempo de rescaldo das eleições presidenciais (assim mesmo, sem maiúsculas). Dizem e eu discordo, porque o rescaldo só é feito quando o incêndio foi grande e, sinceramente, estas eleições estiveram sempre, na melhor das hipóteses, em lume brando. E sobre o acontecimento não se me apraz dizer ou escrever mais coisa nenhuma, para além do que já disse neste parágrafo que, estranhamento, foi gasto para dizer que não falava daquilo que falei. O meu psicanalista terá, com certeza, um nome para isto…

Como muito mais “sumo” chegou-me esta notícia de que a Amazon Itália (versão italiana do gigante americano de vendas online) terá retirado das “prateleiras digitais” uns “disfarces de refugiado” (para menino e para menina, dos 4 aos 12 anos) que estavam à venda para este Carnaval…

Considerados “de mau gosto” pelo público italiano, os disfarces são produzidos por uma empresa britânica e continuam à venda em todos os outros países onde a Amazon tem representação. Compreende-se que a proximidade (histórica e geográfica) dos recentes e repetidos acidentes no Mediterrâneo torna os italianos mais sensíveis a estas questões.

Curiosamente, os disfarces não são de refugiados sírios, iraquianos ou africanos, mas sim de evacuados da I e II grandes guerras (alturas em que, sobretudos as crianças, fugiam das grandes cidades para o campo), realidades profundamente marcadas na memória colectiva da Grã-Bretanha. E até são de bom gosto, pelo menos esteticamente falando: bem acabados e com todos os pormenores, sem esquecer o boné (na versão masculina) e a obrigatória mala de cartão.

Por mais que seja deplorável que seja a situação dos refugiados na Europa e por mais lamentáveis que sejam as mortes de inocentes, não podemos armar-nos de (quantas vezes falsos) moralismos e limitar a liberdade de outros, só porque não comungam da nossa opinião e visão, num exemplo da mesma falta de tolerância que apontamos aos países de onde são originários os referidos êxodos.

E muito menos sob o argumento do “mau gosto”. Até porque, no que aos disfarces de Carnaval diz respeito, o mau gosto é uma coisa transversal. Numa similar linha de raciocínio, um folião disfarçado de Hitler não será exemplo de gosto mais apurado. No entanto, aposto que cada corso europeu terá, pelo menos, uma boa mão-cheia.

Remato com um comentário que li num fórum de discussão sobre o assunto (e assinado, simplesmente, “Ana”) e que, por ser tão bom, gostava de ter sido eu a escrevê-lo: “Qualquer dia até comer é ofensivo porque há gente a passar fome…”.