Desembarques e descarrilamentos

E pronto, eis que está a chegar ao fim mais uma “silly season”, aquele período de férias estivais em que escasseia actividade na política e no futebol (as duas principais “fábricas” de factos noticiáveis…), pelo que os meios de comunicação social dão espaço e relevo a ocorrências menores, que noutras épocas do ano passam despercebidas.

Mas houve excepções, isto é, registaram- se acontecimentos que bem justificaram o tempo e o espaço que os “media” lhes concederam. E que bem merecem continuar a ter atenção – não só do público, mas, sobretudo, daqueles que têm a responsabilidade de governar e de decidir.

Vou citar apenas dois factos (um a nível internacional, outro nacional), como exemplos de assuntos que são muito preocupantes, pelo que exigem medidas adequadas e urgentes.

A nível internacional, as imagens que nos chegaram no passado domingo de uma praia na zona de Cádiz, no Sul de Espanha, de um bote de borracha pejado com dezenas de migrantes a dar à costa e estes a fugirem para terra, em busca de asilo, perante a surpresa dos muitos banhistas que gozavam as delícias do Sol e do mar.

Estima-se que só este ano já chegaram às praias espanholas, desta forma clandestina, cerca de 25 mil pessoas (entre as quais muitas crianças), provenientes de diversos países de África. Muitos outros milhares têm demandado praias gregas e italianas, numa travessia muito arriscada, em embarcações frágeis e sobrelotadas.

Muitas delas têm-se afundado, provocando elevado número de mortes por afogamento. Apesar de saberem os enormes riscos que correm, continua a haver milhares de homens e mulheres que arriscam as suas vidas e as dos filhos para irem em busca de uma vida melhor.

Trata-se de um tema muito delicado, que exige medidas concertadas da comunidade internacional, de forma a melhorar as condições de vida nos países de origem, única forma de evitar estas fugas em massa.

A nível nacional, avulta o descalabro no transporte ferroviário, que tem vindo a agravar-se de forma inaceitável e que assumiu, durante este mês de Agosto, proporções verdadeiramente escandalosas.

Contudo, e ao contrário do que alguns dirigentes partidários tentam agora fazer crer, a responsabilidade para o caos instalado na ferrovia não é apenas do actual Governo.

O desinvestimento vem de há muitos anos, com sucessivos governos (de vários partidos) a concederem prioridade à rede rodoviária, incluindo a construção de novas auto-estradas onde já outras existiam, enquanto a rede de caminhos-de-ferro se ia degradando e os comboios iam envelhecendo e ficando obsoletos.

Apesar das crescentes preocupações ambientais dos países mais evoluídos e de serem os comboios muito menos poluidores do que o transporte rodoviário, em Portugal quem reina são as auto-estradas. Somos o único País da Europa que tem mais quilómetros de auto-estradas do que de vias férreas (aliás, um País onde a rede ferroviária tem vindo a ser sistematicamente amputada). E também somos o País que tem um dos piores serviços ferroviários em toda a Europa (segundo estudos de especialistas, pior que o nosso, só os da Roménia e da Bulgária!).

Impõe-se inverter esta situação, investindo num transporte que é menos poluente, mais rápido e mais seguro. E fazê-lo de imediato, comprando mais e melhores comboios, melhorando as linhas, contratando técnicos qualificados para fazer a manutenção e a reparação do material circulante.

Por outras palavras, importa mostrar que somos um País civilizado e evoluído, com dirigentes sensatos e capazes de pôr termo a este “descarrilamento” da ferrovia!…

Autor: Jorge Castilho (Director do Jornal AuriNegra)