Desafio atrás de desafio

Carlos de Almeida Figueiredo nasceu a 12 de Janeiro de 1962. Natural da Pocariça, o antigo seminarista foi abrançando vários projectos profissionais ao longo dos anos, estando presentemente ao serviço do Turismo Centro de Portugal. Pelo meio, fundou a Estudantina da Universidade de Coimbra, foi professor, adjunto do Governador Civil, Vereador da Câmara Municipal de Coimbra e Deputado à Assembleia da República.

É com um sorriso aberto e afável que Carlos de Figueiredo nos recebe no seu gabinete na delegação de Coimbra do Turismo Centro de Portugal, para fazer uma ‘viagem’ pela sua carreira e vida pessoal.

Um homem de desafios, como se autocaracteriza, Carlos de Figueiredo começou o seu percurso como seminarista, sendo actualmente um profissional que conta já com um longo e recheado currículo em área distintas.

Embora seja natural da Pocariça, Carlos de Figueiredo passou grande parte da sua vida dividido entre vários locais do País. “Foi uma infância divertida mas com passagem por várias terras, pois acompanhávamos sempre o meu pai para onde ele ia trabalhar. As idas à Pocariça, a casa dos avós, acabavam por ser o ponto de encontro com a família, principalmente com os primos. A liberdade para brincar na rua, andar de bicicleta e fazer jogos tradicionais eram razões de sobra para querer sempre regressar. Eram tempos diferentes, em que as brincadeiras eram feitas com criatividade e em que até troços de couve serviam como sticks de hóquei”.

O pai trabalhava como ajudante técnico de farmácia, inicialmente em Cantanhede e depois em Torres Novas. Quando mais tarde trocou de carreira para a área bancária muda-se para Coimbra e mais tarde para o Porto (Vila Nova de Gaia) e, mais uma vez, a família segue-o, incluindo Carlos de Figueiredo, que já estava habituado à mudança e a fazer novos amigos nos sítios onde chegava.

Com efeito, é no Porto que acaba por concluir a Escola Primária e decide ingressar no Seminário do Bom Pastor, em Ermesinde. “A decisão, julgo eu, acabou por resultar, de forma muito natural, da forte participação que a minha família ia desenvolvendo na igreja, quer na Pocariça quer nos anos em que estivemos em Coimbra. Esse envolvimento, e alguns exemplos de pessoas que também lideravam projectos na Igreja, levou à minha ida para o seminário aos 9 anos”.

Nessa altura, conta-nos, “tinha muita vontade de ser padre e de ajudar os outros”. Fez os cinco anos correspondentes ao Ensino Básico e passou para o Seminário Maior do Porto, que frequentou até ao 11.º ano.

“Saí do Seminário no 2º ano do Complementar (equivalente hoje ao 11.º ano) e fiz, em Cantanhede, o último ano do Propedêutico (equivalente aos 12.º ano) ”. Os dois últimos anos de Seminário, como refere, foram muito enriquecedores e repletos de experiências novas, com uma maior vivência fora do seminário e “conheci outros aliciantes, que me levaram a repensar a decisão de ir para sacerdote. No ano em que entrei erámos 41 seminaristas e destes só um se tornou padre e é, actualmente, Bispo Auxiliar do Porto. Saí com a mesma naturalidade e espírito de missão com que entrei, convicto que era a melhor opção para a minha vida”.

Na verdade, Carlos de Figueiredo ainda hoje recorda os anos no seminário como uma experiência “muito rica”: “Inicialmente estava no seminário como interno, mas nos últimos anos já frequentávamos a escola pública. A convivência com os alunos mais velhos de Teologia mas também com alguns mestres foi extremamente enriquecedora e marcou, sem dúvida, o homem que hoje sou”.

Embora Coimbra seja a sua cidade, é do Porto que Carlos de Figueiredo guarda as melhores recordações. “Acabo por ter uma ligação mais forte ao Norte que ao Centro, pois foi uma altura de grande vivência cultural, nomeadamente no coro do seminário, onde descobri a minha paixão pelo canto”. Apesar de estar mais longe da família – que entretanto se mudara para Aveiro – o pocaricense acabou por se envolver na comunidade, dentro do seminário e não só. “No Porto vivi momentos e criei memórias que não se conseguem apagar! Assisti a alguns dos melhores concertos da minha vida, participei em cerimónias episcopais inesquecíveis e tive o privilégio de falar pessoalmente com D. António Ferreira Gomes, Bispo do Porto e figura ímpar de contestação ao regime de Salazar”, partilha.

Recorda ainda, com alguma nostalgia, os períodos de férias, passadas em família, em Ílhavo, “pois era sempre um período divertido, onde íamos à pesca e depois regressávamos a casa todos contentes com uns peixes. Ter andado de um lado para o outro ajudou-me a fazer amizades com facilidade e a contactar com muitas pessoas e também com outras realidades”.

 Um homem da Academia

Quando chegou a altura de ir para a Faculdade, Carlos de Figueiredo escolheu Coimbra, a eterna cidade dos estudantes. E, embora a sua primeira opção fosse seguir Direito, acabou por entrar em Filosofia, “que ia ao encontro da minha realização pessoal, uma vez que era um pouco dar continuidade aos estudos iniciados no Seminário”.

Pela Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra ficou cinco anos. Quatro a estudar e um dedicado exclusivamente às actividades académicas.

“Estava no meu terceiro ano quando decidi ‘usar’ esse ano para me dedicar apenas aos projectos da academia. Nem aos exames fui. No ano seguinte retomei o curso e concluí”, explica.

Nesse ano – estávamos em 1984 – organizou a Recepção ao Caloiro, a Queima das Fitas e participou afincadamente na luta pela autonomia das praxes académicas relativamente à Associação Académica de Coimbra.

“Embora a minha actividade académica tivesse começado logo no meu 1.º ano de curso, intensificou-se mais no segundo, quando entro para o conselho directivo da FLUC. Nessa altura, para além da questão das propinas, a luta mais significativa, no âmbito da Faculdade de Letras, era a da inclusão do estágio no próprio curso, de molde a facilitar a entrada no mercado de trabalho”.

Desde cedo envolvido também nas tradições académicas, Carlos de Figueiredo recorda que a primeira capa e batina foram emprestadas por um amigo. “No entanto, assim que juntei algum dinheiro a primeira coisa que comprei foi uma capa e batina próprias”, frisa.

Nessa altura, destaca, a Associação Académica de Coimbra fervilhava de actividade: “Era um espaço de inclusão, de aproximação à cidade, à universidade e aos colegas. A riqueza cultural em que se vivia era espectacular e resultava do encontro de diferentes cursos e formações, sensibilidades e experiências. A AAC era um centro muito dinâmico, tanto cultural como desportivamente”. E é por isso que o pocaricense recorda com nostalgia “uma Coimbra de tertúlias, debates e convívios”, que dava azo a conversas e discussões, “por vezes acérrimas, sobre tudo e sobre nada. Como se juntavam ali pessoas de áreas e personalidades diferentes acabávamos por saber de várias coisas mas sem ser especialistas em nada”.

A Secção de Fado da AAC foi, para Carlos de Figueiredo, uma segunda casa. Sempre envolvido nas suas actividades, fez parte de várias direcções e abraçou a criação da Estudantina Universitária de Coimbra como principal objectivo. “Achei a ideia mobilizadora e, atendendo a que nunca ninguém tivesse a força anímica para o fazer, pus mãos à obra e decidi arriscar… E nasceu a primeira Tuna do País. Começámos 4 ou 5 rapazes, todos ‘exímios’ músicos, e decidimos criar aquela que seria a primeira, a mais conhecida e respeitada das tunas nacionais. Foi a minha ‘primeira filha’ e, actualmente, é uma imagem de marca de Coimbra e dos próprios estudantes. Ainda cheguei a tocar cavaquinho mas aquilo que gostava mesmo era de cantar”.

Embora a Estudantina nasça em 1984, a sua primeira apresentação pública acontece em 85 na Póvoa do Lanhoso, num espectáculo que Carlos de Figueiredo refere que nunca esquecerá, e em que o reportório era composto, fundamentalmente, por composições de António Mafra.

Pouco a pouco, a Estudantina foi ganhando novos membros e também convites para actuar não só em Portugal mas também além-fronteiras. “Comigo ainda chegámos a ir a várias cidades Espanholas, à Finlândia, a São Tomé e Príncipe e a Paris que foi a minha última viagem com a estudantina”, partilha.

A ligação à Estudantina ainda durou vários anos, mesmo depois de terminar o curso. “Foi uma altura mesmo muito boa. Por onde fomos passando, fomos deixando recordações e ‘plantando árvores’ das quais sinto muito orgulho. Para mim é uma grande satisfação saber que a Estudantina nasceu comigo e que se mantém com força”.

Aceitar desafios

Assim que terminou a licenciatura, o pocaricense começou a trabalhar como professor de Filosofia e Psicologia no Instituto de Promoção Social da Bairrada (Bustos – Oliveira do Bairro), onde permaneceu durante três anos, até receber o convite para ser adjunto do Governador Civil de Coimbra.

“Estive durante dois anos no Governo Civil, primeiro com o Engenheiro Carlos Loureiro e depois com o Dr. Jaime Ramos”, refere, explicando que esse “foi um período muito rico de participação política e cívica. Relembro a criação da Federação das Filarmónicas do Distrito, da Presidência Aberta de Mário Soares, da 1.ª Exposição Nacional de Pintura e de tantos outros projectos que trouxeram outra dinâmica social ao Distrito”.

 

Depois disso, e devido a sua ligação à política – chegou a ser presidente da JSD de Coimbra e a integrar listas à Câmara de Coimbra – Carlos de Figueiredo é eleito Deputado à Assembleia da República, onde permanece um mandato. Em simultâneo assume a função de vereador da Câmara de Coimbra, pela oposição.

Sobre essa fase, o pocaricense é parco em palavras, mas refere que “a vida parlamentar é importante mas não é tão gratificante como poderá parecer. Apanhei um período político com vários momentos conturbados mas, mesmo assim foi uma boa experiência”, frisa, recordando a “sensação inexplicável” que foi sentar-se no hemiciclo pela primeira vez.

No fim do mandato, e de regresso a Coimbra, Carlos de Figueiredo regressa à docência, no INTEP, em Cantanhede, onde leccionou, até ao ano de 2003, psicologia, sociologia e marketing. Depois disso, esteve ainda um ano como adjunto do Encarregado de Missão, na CNLCS – Comissão Nacional Luta Contra a Sida e num projecto de gestão urbana na Agência para o Desenvolvimento Integrado de Tábua e Oliveira do Hospital, em que o objectivo era transformar o centro urbano destas duas cidades em zonas atrativas de modo a promover o comércio local.

Ao longo dos últimos anos, o pocaricense foi passando por áreas distintas, mas sempre desafiantes. “Tive um Professor, em Filosofia que me disse uma coisa que nunca esquecerei: Vossas Excelências vão sair daqui com uma licenciatura que não é mais que uma licença para estudarem sozinhos”. E foi isso mesmo que foi fazendo, sempre que abraçou novos projectos. O mais recente, e actual, é no Turismo Centro de Portugal, onde, para além de trabalhar na promoção da imagem da TCP dá apoio directo ao presidente, Pedro Machado.

“São nove anos de um trabalho gratificante e que é sempre novo. Porque todos os dias há novidades, coisas novas a fazer e a aprender. Temos vindo a perceber qual a dinâmica que vai ajudando a que o Centro de Portugal venha ganhando espaço, não só a nível nacional mas também internacional”, explica.

Actualmente encontra-se ainda a tirar Mestrado em Marketing, no Instituto Superior de Contabilidade de Coimbra. “Um desafio pessoal mas que acredito também venha a ser uma mais-valia para o serviço. O meu objectivo é estudar o perfil do turista da região centro de Portugal, para que possamos contribuir para uma promoção mais eficaz do nosso destino”.

Entretanto, o que pretende é continuar “a abraçar os desafios à medida que estes forem surgindo”, acompanhar a família e recuperar antigas paixões, como a música, que levou o 1.º Tenor de volta ao Coro Dom Pedro Cristo, onde participou durante os primeiros anos de faculdade.