De criança enérgica a CEO

João Diogo Ramos nasceu a 5 de Maio de 1978 em Cantanhede, mas foi no lugar do Pontão (agora Fontinha) que cresceu e é dali que guarda a grande maioria das suas recordações de infância e juventude. Caracterizado como uma criança “com bichos-carpinteiros”, o agora Engenheiro Informático passou os primeiros anos de vida por vários locais do País onde os pais – Silvino Ramos (Mestre em Agropecuária) e Isabel Maria Ramos (Professora de Matemática) – trabalharam, como Tondela ou Figueira da Foz, até se fixarem de volta na sua freguesia de Febres.

“Tive uma infância mais que feliz, animada, mas também um pouco rebelde”; começa por nos contar, entre risos, numa conversa descontraída, numa esplanada em Cantanhede, cidade onde construiu casa recentemente.

Era normal as crianças brincarem pela rua e que com ele isso não foi excepção: “As brincadeiras eram muito fora de casa, em comunidade”.

Pela freguesia gandaresa fez o ensino primário na Fontinha, tendo depois passado para a Escola C+S e posteriormente para a Secundária, ambas de Cantanhede, apostando no ramo das Ciências e Tecnologias, já com o intuito de seguir os estudos na área da informática.

“Desde cedo que soube o que queria. Ao contrário de outros miúdos, nunca tive aquele sonho de ser bombeiro ou astronauta. Eu já sabia que queria trabalhar com computadores desde o momento em que vi o primeiro”, começa por contar ao AuriNegra.

Na altura, em plenos anos 80, começavam a chegar a casa das pessoas os primeiros computadores que se ligavam à televisão e João Diogo Ramos foi um dos felizardos que começou a explorar as “caixinhas mágicas” desde tenra idade.

“Enquanto fui crescendo tive sempre muitos estímulos, não só da parte dos meus pais mas também de outros familiares e amigos com quem interagia. Um tio, Carlos Oliveira, apaixonado por tecnologia, volta e meia aparecia com acessórios para os computadores, livros, programas e jogos, para minha felicidade”, frisa, acrescentando que pensa ter tido o primeiro computador aos 8 ou 9 anos. Já nessa altura, João Diogo Ramos refere que era motivado “pelo resultado das coisas. Descobrir, investigar, perceber, chegar a algum lado”. Por isso, quando lhe chegava um novo programa, jogo ou livro às mãos, era sinal de grande alegria.

“Mais que jogar, comecei a ter curiosidade de perceber como é que aquilo funcionava”, assume, explicando que foi aí que começou a sentir interesse “mais a sério” pela computação: “O acesso aos computadores levou ao gosto pela aprendizagem e por isso comecei a fazer programação básica, de forma autodidacta”.

No 9.º ano de escolaridade, o talento natural para as tecnologias evidencia-se ainda mais e o febreense é um dos 30 alunos a ser seleccionado para participar nas finais nacionais das Olimpíadas de Informática, “isto, refira-se, antes de haver TICs nas escolas da região e sendo a equipa de Cantanhede a única com alunos abaixo do 10.º ano de escolaridade que foi à final”. A informática ainda era um mundo a ser descoberto aos poucos…

De programador a CEO

Quando em 1996 chega a altura de se candidatar à Universidade, João Diogo Ramos nem hesita em escolher Engenharia Informática, na Faculdade de Ciências e Tecnologias da Universidade de Coimbra, um curso, segundo o próprio, “não muito difícil, para quem gosta, mas muito trabalhoso”, e que estava numa época especial, visto que o Departamento de Engenharia Informática era ainda uma estrutura muito recente.

Embora assuma que nos primeiros anos, por distrações pessoais da vida típica académica, tenham sido poucas as cadeiras que concluiu, o febreense refere que “bebeu” ao máximo os ensinamentos que lhe iam sendo dados. “Tive professores excepcionais como o Professor Dias Figueiredo, Artur Ferreira da Silva, Henrique Madeira, entre outros, que incutiram em mim uma grande ambição e que me mostraram que, mais do que os conhecimentos técnicos, é necessário desenvolver uma forte componente de gestão, de marketing e comunicação”.

Acaba por terminar o curso em menos dos 5 anos normais e, no último ano de curso, vai para o Porto viver e fazer um estágio curricular na empresa GlobalShop, um projecto financiado pela Salvador Caetano e “a primeira tentativa nacional de fazer um centro comercial virtual/online e que acabou por ser a primeira startup onde trabalhei”. Acaba por ficar um ano e meio, até que decide voltar a Coimbra e ingressa na Critical Software, na altura ainda com uns meros 4 anos de vida. Permanece e tem vindo a evoluir neste grupo nos últimos 15 anos.

Embora se assuma como um “geek”, o febreense refere que, desde sempre, preferiu falar com pessoas do que computadores: “Comecei como programador mas decidi rapidamente que o que queria era ser gestor de projecto e foi para isso que fui trabalhando de forma ambiciosa”, partilha. Dono de uma grande criatividade, aliada ao à-vontade com os outros e a uma forte componente comunicativa, o engenheiro passou, em pouco tempo, da programação para a área de gestão e a área comercial, o que o levou em projectos não só em Portugal com clientes como a Vodafone, Caixa Geral de Depósitos ou Soporcel, mas também em países como Cabo Verde ou Moçambique.

Em 2005, desafiado por Gonçalo Quadros, um dos fundadores da Critical, dá os primeiros passos no que viria a ser a origem, em 2008, da Critical Health para a qual João Diogo Ramos “migrou” e onde hoje desempenha o papel de Director Executivo (CEO). A empresa, entretanto renomeada Retmarker (o mesmo nome da tecnologia que desenvolve), resultou principalmente de uma parceria estratégica com o Instituto AIBILI (Associação para a Investigação Biomédica e Inovação em Luz e Imagem) e tem como objectivo principal desenvolver tecnologia que ajude à despistagem de doenças visuais da retina (ex: a retinopatia diabética, uma consequência da diabetes, ou o glaucoma, entre outras), com vista a prevenir a cegueira. A Retmarker desenvolve e comercializa uma tecnologia de inteligência artificial que faz uma primeira análise das fotografias da retina, permitindo despistar o risco de problemas de algumas das principais doenças que causam cegueira.

Se a “casa” de João Diogo Ramos é a Critical, o seu “parque de diversões” é, sem dúvida alguma, a Collectors Bridge, um projecto relacionado com o colecionismo e do qual fala com orgulho e entusiasmo.

Mas antes de falar no Collectors Bridge, o melhor é tentar perceber como começou o “vício” de colecionar, que vinha já da infância (onde incentivado por família e amigos, reuniu 2000 porta-chaves), mas que estava adormecido.

“Antes de mais”, frisa veemente, “convém explicar que quando meto uma ideia na cabeça é para a fazer. O Collectors Bridge começou com uma máquina Arcade, daquelas que existiam nos cafés, onde se punha uma moedinha para jogar. Decidi que queria uma, fui falar com donos de cafés, etc, e lá descobri um senhor que me arranjou uma. Comprei-a, reparei-a e restaurei-a (ao ponto de ter ganho um prémio internacional com a mesma)”…

Em linha com o tema dos videojogos, e passado pouco tempo desse projecto, um dia, conta-nos, foi a uma feira de velharias em Coimbra e viu um computador ZX Spectrum, semelhante àquele com que começou a descobrir a informática aos nove anos e não hesitou em trazê-lo para casa. Conseguiu colocá-lo a funcionar, aproveitou para recuperar mais um que andava às peças lá por casa e desde então o “bichinho” do colecionismo destas máquinas nunca mais parou. Actualmente, já não é um, nem dois ou três… mas sim mais de 200 objectos (computadores, acessórios e afins) que integram a sua colecção de máquinas Spectrum, inventadas pela marca Sinclair, em Inglaterra, em 1982, que esteve na génese dos videojogos, e que pode ser visualizada em www.geracaospectrum.com.

Reunindo a grande maioria dos computadores, preocupou-se então em alargar a colecção com vista a estudar e compreender a história da própria marca que produziu também calculadoras, rádios, televisões portáteis, veículos eléctricos entre tantos outros objectos e que agora estão também em Portugal com vista à sua documentação e preservação.

Todavia, mais que colecionar, João Diogo Ramos acaba por criar uma relação com estes computadores. “Cada peça tem uma história diferente por trás e tentar descobri-la e investigar dá-me a oportunidade de conhecer melhor o mundo fascinante que comecei a deslindar na infância”.

Quando decidiu construir casa em Cantanhede, reservou logo uma divisão para as suas colecções. “Eu comecei por dizer à minha mulher que era só um computador… Mas enganei-me e já são umas centenas de artigos… Mas ela respeita e dá espaço [risos]. A verdade é que o Spectrum tem uma importância a nível pessoal, porque acabou por ser o principal responsável pelo meu percurso académico e profissional. Adicionalmente é também um motivo de orgulho nacional, visto que aprendi que muitas das máquinas eram montadas em Portugal pela Timex. Portugal teve uma enorme importância nesta revolução tecnológica! Hoje possuo Spectrums vendidos em Países como a Argentina, Polónia, ou Estados Unidos, todos a dizer Made In Portugal”.

Fruto desta experiência pessoal, e como forma de expor estes objectos na Internet de modo apropriado, em 2013, João Diogo Ramos convidou três colegas e decidiu criar a Collectors Bridge (www.collectorsbridge.com), uma plataforma onde os colecionadores podem trocar produtos, opiniões e gostos e que é a “menina dos seus olhos”

“Vendo bem, é um portal que tenta ser o wikipedia, o facebook e o ebay, mas para colecionadores. O Facebook, uma vez que serve para partilhar a paixão, mostrando as coleções; o wikipedia, porque pode ter a origem e a história dos produtos; e o ebay, porque permite a permuta e venda de artigos”, explica sucintamente, enquanto, em simultâneo, vai fazendo o esquema em forma de triângulo, num papel.

O projecto chegou a concorrer ao concurso de empreendedorismo Arrisca-C em 2013, de onde saiu com o prémio de melhor plano de negócios e beneficiou de 25 mil euros, que serviram para lançar a empresa. Não obstante, a plataforma é uma solução muito especializada, o que faz com que não tenha uma base de utilizadores tão alargada como inicialmente idealizou.

Actualmente, a Collectors Bridge conta com cerca de 1000 utilizadores e tem conteúdos que vão desde legos, garrafas de coca-cola, máquinas fotográficas, moedas, garrafas de vodka, livros, etc. Para João Diogo Ramos, a plataforma será sempre essencial para a partilha das suas coleções, que para além dos Spectrums oriundos de todo o mundo, possui também jogos de tabuleiro, camisolas de futebol ou mesmo um VW Carocha de 1957. Mas uma das “joias da coroa” da sua colecção é mesmo o triciclo elétrico da Sinclair, produzido em 1986, chamado C5 e que foi um fracasso de vendas da marca (e um dos motivos da sua falência), mas que faz as delícias dos amigos e conhecidos do febreense.

Alimentar uma colecção não é tarefa fácil. E, por isso, são várias as horas que João Diogo Ramos dedica a pesquisas no ebay, em leilões, em grupos de colecionismo ou até mesmo no facebook. Através do colecionismo já fez vários amigos, em Portugal e não só, que para além de enviarem artigos colecionáveis também se tornam anfitriões quando viaja. “Como em Portugal nem sempre é fácil encontrar algumas peças, acabo por comprar fora do país. Tenho uma morada de um amigo em cada País e assim vamos ajudando-nos. O melhor exemplo foi quando estive no Brasil em casa de um luso-descendente, Marcus Garrett, que me preparou cinco computadores Spectrum brasileiros para trazer na mala e enriquecer a coleção. Hoje falamos regularmente e estamos até a fazer alguns projectos transatlânticos em conjunto, relacionados com a área”.

Enquanto engenheiro informático, o febreense já criou, apoiou e continua a desenvolver inúmeros projectos na área não só da tecnologia mas também do empreendedorismo. Um desses projectos é agora a alphaCoimbra, uma associação de empreendedores que visa estimular o ecossistema empresarial de startups na cidade dos estudantes.

“A meu ver é assim que as coisas têm de funcionar, ou seja, partindo dos empreendedores, daqueles que – como eu – se atiram aos desafios de cabeça e que têm a obrigação cívica de ajudar os seus pares. É, por isso, um projecto inclusivo e que aceitei desde o primeiro momento. A oportunidade de colaborar e aprender com pessoas que admiro, e que, quando não o são ainda, se tornam nossos amigos, é algo que me motiva. Juntar pessoas é algo que costumo fazer bem, principalmente porque acredito que só congregando esforços é que as coisas têm alguma probabilidade de correrem bem. Estou sempre a procurar contextos para fazer acontecer estas sinergias”, conclui. 

 

Anos 90 em Febres: um “caldeirão que fervilhava”

João Diogo Ramos considera-se um privilegiado por ter crescido em Febres, numa altura em que a vila vivia um momento excitante: era um “verdadeiro caldeirão a ferver”. Nesse período, recorda com alguma nostalgia, “Febres mexia, mexia mesmo!”. À noite, conta, eram vários os bares que atraíam jovens de todo o distrito.

Por outro lado, a Cooperativa AuriNegra estava num dos seus melhores momentos: “Tinha uma escola de Karaté, que fundei porque queria praticar a modalidade, uma escola de música, organizavam-se várias excursões e, claro, havia ainda a rádio e o próprio jornal (a primeira série)”.

Continua explicando: “Como o meu pai foi um dos fundadores da cooperativa e director do jornal, eu acabava por passar muito tempo ali, principalmente nas férias. Ajudava na composição gráfica do jornal e tratava da (pouca) parte informática. Por exemplo, fui eu que fiz a primeira base de dados de assinantes do jornal”, conta-nos. ”Escrevi também uma rúbrica para o jornal, que julgo que durou cerca de 2 anos, onde tentava partilhar algum conhecimento sobre o tema da informática para o cidadão comum. Chamava-se, em jeito de brincadeira, ‘Computando’. Ainda creio ter um exemplar de cada artigo”.

“Havia em Febres muitas pessoas que faziam as coisas acontecer, e acho que isso também me serviu de exemplo na vida. Acabei por crescer num ecossistema de dinamismo e talvez por isso nunca gostei, nem consigo estar parado”, confessa. “Quando se quer muito uma coisa, criam-se condições para elas acontecerem!”, remata.

Homem de trabalho e dedicação, mas também de diversão, João Diogo Ramos recorda ainda as festas da aldeia, “das maiores da região”, os cafés repletos de gente e o Taurus Bar, um bar/discoteca, que, por brincadeira, decidiu construir em casa. “Foi uma ideia que me veio à cabeça ao ver espaços similares de outros amigos, e não desisti até a concretizar. Juntei três ou quatro amigos e no Verão de 96 fizemos da garagem dos meus pais um bar, com direito a bola de espelhos, máquina de fumos e tudo”, recorda, divertido.

Dos tempos do AuriNegra, o febreense recorda também com carinho a secção de Ténis de Mesa da cooperativa, outra que fundou para poder praticar, e que funcionou entre 94 e 96, chegando a competir nas provas da Associação de Ténis de Mesa de Coimbra. Hoje está novamente a praticar esta modalidade mas através do Sporting Clube Povoense.

“Todos estes foram tempos inesquecíveis que fizeram de mim aquilo que sou hoje”, conclui de sorriso rasgado, e assumindo-se preparado para, quando surgir, abraçar outros desafios: “Quando vou, é a sério e até ao fim… Desistir, nunca!… ou pelo menos é muito raro (risos).”