De advogado a presidente

É natural de Moçambique, cresceu em Vagos mas foi em Mira que se realizou pessoalmente e profissionalmente. Raul Almeida foi advogado, mas desde 2013 que abraçou aquele que é um dos maiores desafios, até ao momento, da sua vida: ser presidente da Câmara Municipal de Mira, o concelho que o acolheu de “braços abertos” há mais de duas décadas.

O cargo político que ocupa trouxe-lhe visibilidade, e é por ser o Presidente da Câmara Municipal que muitos o conhecem. No entanto, antes de abraçar a política, Raul Almeida era um advogado de sucesso, dedicado à profissão.

Com efeito, os dias que agora são dedicados ferverosamente ao Município e às suas gentes, já foram outrora ocupados com a advocacia e inúmeras viagens entre os escritórios de Mira e de Lisboa.

Para conhecermos um pouco do Homem por trás do Presidente, solicitámos, há já algum tempo, uma entrevista a Raul Almeida. E foi agora que nos recebeu, num final de tarde, no seu gabinete nos Paços do Concelho de Mira. E enquanto o dia para muitos estava a terminar, para o autarca ainda estava a pouco mais de meio.

É assim o quotidiano de quem ocupa um cargo público: o dia começa cedo e acaba, muitas vezes, tarde. As solicitações e os problemas são muitos, por isso há que saber organizar o tempo. Foi neste campo que a infância de Raul Almeida teve um papel preponderante.

Mas comecemos pelo início. Raul José Rei Soares de Almeida nasceu em Moçambique há 45 anos. Os pais – Moisés Soares de Almeida, sondador de profissão, e Maria Celeste Rei – ambos naturais de Vagos, partiram para o país africano ainda jovens à procura de uma vida melhor. Os filhos – Raul Almeida e a irmã mais velha – acabaram por nascer lá.

“Quando regressei a Portugal tinha apenas dois anos, por isso não tenho grandes lembranças dos tempos de Moçambique”, refere.

Já por terras gandaresas, a infância e as brincadeiras de menino, tão diferentes das que vivem os meninos do século XXI, deixaram marcas. “As diversões eram feitas essencialmente na rua. Qualquer pedacinho de estrada dava para brincar e jogar uma futebolada. Não havia playstations, nem internet, nem nada disso. Era uma grande liberdade”, recorda.

Embora tenha feito todo o ensino primário e parte do Ensino Básico em Vagos, no 7.º ano, os pais de Raul Almeida colocam-no num colégio interno em Albergaria-a-Velha. “Na altura não gostei nada daquilo, admito. Mas reconheço que as regras apertadas e a vida em grupo influenciaram, pela positiva, a minha formação”.

A timidez, que confessa ser uma das suas características, nunca o impediu de fazer amizades nem de, muitas da vezes, se assumir como líder nos grupos que integrava.

“Agora que penso nisso, cheguei a ser delegado de turma algumas vezes e capitão de equipa nos jogos de futebol. Talvez tenha alguma associação com a carreira política que, entretanto, abracei”, diz-nos.

Quanto ao gosto pela advocacia, começou a surgir no 10.º ano. “Nessa altura tínhamos algumas disciplinas relacionadas com o Direito e eu comecei a perceber que era aquilo que queria mesmo”, começa por explicar, acrescentando que o objectivo foi sempre ser advogado: “Nunca pensei em ser magistrado, como muitos dos meus colegas”.

Quando concorreu à universidade, ficou a poucas décimas de entrar em Coimbra e foi então para a Universidade Lusíada do Porto, onde recorda uma vida académica repleta de bons momentos. “Fui um estudante que aproveitou a vida académica em todos os seus sentidos. As aulas, as noitadas, as queimas das fitas, tudo…”, refere com um sorriso.

Do colégio, onde imperavam as regras, para a faculdade, foi uma mudança abismal. “Nessa altura aprendi a fazer a gestão do meu tempo da melhor forma. Foi uma fase muito boa, em que fiz grandes amigos, que ainda hoje mantenho e com os quais estou todos os anos, agora já com as nossas famílias”.

Por Mira

Quando aos 24 anos terminou o curso, Raul Almeida foi estagiar para um escritório de advogados em Coimbra. Depois disso, já em 2001, decidiu abrir um escritório em Mira, terra Natal da, na altura, sua namorada e agora mulher. Alguns anos depois foi convidado a integrar uma sociedade de advogados em Lisboa, que trabalhava essencialmente na área do direito informático, e aceitou o desafio.

“Durante anos as minhas semanas dividiam-se entre Mira e Lisboa. Passava muito tempo em viagens de comboio”, recorda. E assim se manteve até 2013, quando surgiu a oportunidade de concorrer à Câmara Municipal de Mira.

Para trás, e pelo menos durante mais um ano, ficou a carreira como advogado, “da qual gostava e gosto muito. Sempre tive um grande empenho na minha vida profissional”. E isso não parece ter mudado agora que lhe cabe guiar os destinos do concelho de Mira.

Embora as funções sejam bem diferentes, há um ponto em que ser advogado e presidente da Câmara se cruzam: “São ambos trabalhos que, quando bem-feitos, dão uma grande sensação de reconforto. Ajudar a resolver os problemas dos outros é algo que me faz ir, ao final do dia, para casa, satisfeito”.

O interesse pela política, ao contrário do interesse pela advocacia, chegou um pouco mais tarde. “Comecei como militante do PSD, mas foi por volta dos 28 anos que me envolvi mais a sério na política, quando fui mandatário da campanha do Dr. Mário Maduro”, começa por contar. Aos 33 anos, Raul Almeida candidata-se à Assembleia Municipal de Mira e é nesse período que começa a ponderar seguir uma carreira na vida política.

“Nessa fase comecei a inteirar-me dos assuntos e problemas do município e ganhei uma visão do concelho mais aprofundada, que me levou a aceitar o desafio de me candidatar à Câmara”, explica. A vitória foi renhida, mas aconteceu. E, a partir daí, a vida de Raul Almeida mudou. “Custou-me deixar a carreira de advogado, claro, mas tive que organizar a minha vida e a minha agenda. Felizmente contei sempre com o apoio dos meus amigos mas também da minha família, com quem foi ponderada a decisão de me candidatar”.

Depois de três anos de mandato cumpridos, o balanço, refere, é positivo. Sobre o que mudou na sua vida, Raul Almeida é categórico: “Mais velho estou, de certeza”, diz, entre risos. De resto, afirma que aquilo que tentou e vai continuar a tentar, é “introduzir uma nova filosofia e uma nova forma de fazer política”.

“Tanto eu como a equipa que trabalha comigo privilegiamos a participação dos cidadãos nas decisões. Ainda falta um quarto de mandato, mas julgo que já se notam as diferenças: Mira está diferente e para melhor”, frisa.

Embora não adiante se irá ou não concorrer a um novo mandato, Raul Almeida refere que se sente realizado naquilo que faz.

“O tempo é de concretizar alguns projectos, e depois, a seu tempo, se pensará se haverá ou não uma nova candidatura”, frisa, acrescentando que há duas coisas que gostaria de “oferecer” a Mira: “Uma cobertura de 100% do saneamento no concelho e voltar a fazer da Barrinha aquilo que esta era há 20/30 anos, ou seja, uma piscina natural”.

A parte mais difícil do trabalho como Presidente, garante, é gerir tantas pessoas. “No total são cerca de 210 funcionários e torna-se complicado gerir egos e personalidades diferentes. Também é muito difícil tentar explicar às pessoas os constrangimentos financeiros, que não permitem fazer tudo aquilo que gostaríamos de fazer”. Já a melhor parte vem com o agradecimento dos munícipes, quando consegue resolver qualquer problema, “mesmo que seja um problema pequenino, é uma sensação muito boa saber que ajudámos alguém nesse dia”.

De diferente há ainda a azáfama que se tornou ainda maior. “Noites e fins-de-semana livres é quase uma miragem”, refere, acrescentando que a agenda está, na maioria das vezes, repleta de convites para eventos e iniciativas, do concelho e não só.

“Faz parte do cargo e quem lida comigo diz que sou um viciado no trabalho. O trabalho é essencial e felizmente a minha família percebe e apoia-me”, afirma. Com efeito, é à família que dedica todos os (poucos) momentos livres que lhe restam. “Tento estar com eles sempre que tenho oportunidade”.

A família é, sem dúvida, o seu “alicerce” e foi através desta que veio para Mira e se deixou apaixonar pelo concelho. “Conheci a minha esposa por volta dos 21 anos. Inicialmente, ainda como namorados, viemos viver para aqui, porque era a terra dela, e acabámos por ficar”, confessa.

Actualmente considera-se mirense, “posso não ter nascido em Mira mas já estou aqui há vários anos e é normal que me sinta daqui. Já conheço as pessoas e sinto-me acarinhado por todos”. Para além disso, foi em Mira que constituiu família. “Os meus filhos [tem um menino de sete anos e uma menina de cinco] nasceram aqui e é aqui que vão crescer”.

“Tento ter tempo de qualidade com eles. E embora haja ausências, estas são compreendidas. Por exemplo, todos os dias sou eu que os levo à escola, é o nosso momento”, diz orgulhoso. O pouco tempo que sobra é para estar em casa com a família, andar de bicicleta, jogar futebol com os amigos, “um dos melhores momentos de descompressão que tenho”, e fazer praia, um prazer do qual não abdica, ou não fosse viver naquela que diz ser a sua praia favorita e a “menina dos olhos” do concelho: a Praia de Mira.