Das “notícias falsas” aos “factos alternativos”…

Aquele que já é considerado como um dos factos mais relevantes do séc. XXI, aconteceu no passado dia 20: a tomada de posse de Donald Trump como 45.º Presidente dos Estados Unidos da América do Norte.

Uma relevância que fica a dever-se às piores razões, pois são muitos os que temem as consequências da forma como Trump vai dirigir a nação mais poderosa do Planeta (aliás, as decisões tomadas logo nos primeiros dias só fazem aumentar as preocupações).

Entre as muitas explicações para a inesperada eleição de Trump, contam-se alegadas “notícias falsas” postas a circular para denegrir a sua opositora, Hillary Clinton. Ora é sobre este tema que quero focar a reflexão que aqui faço para os Leitores do AuriNegra.

Sempre considerei o jornalismo como uma das mais nobres profissões, que só se escolhe por vocação e paixão, já que não é (nunca foi!) ofício bem remunerado.

A nobreza desta actividade reside, essencialmente, no papel muito positivo que ela assume enquanto veículo de informação das populações e de defesa do bem comum, mas também enquanto contra-poder, instrumento de fiscalização das instituições, com o papel de denunciar o que está mal e de relatar o que de bom se faz, sempre da forma mais objectiva possível, sempre respeitando a verdade, o rigor, a isenção, a independência.

Por tudo isto não aceito esta designação de “notícias falsas”. As notícias, para o serem, têm de ser verdadeiras. Se são relatos falsos, não são notícias, são mentiras.

A verdade, porém, é que este conceito de “notícias falsas” (“fake news”) tem vindo a ganhar crescente importância, com centrais especializadas, a nível internacional, nesta indecorosa contrafacção – que, inclusive, já é feita também por robots e computadores programados para o efeito. O fenómeno assume tais dimensões, que têm sido criadas instituições e métodos sofisticados para verificar a veracidade dos relatos (“factchecking”).

Voltando a Trump, na sua primeira visita já como Presidente, na sede da CIA, assumiu o seu confronto com os jornalistas, que considerou serem “das pessoas mais desonestas à face da Terra”. Como exemplo dessa alegada desonestidade, afirmou que tinham noticiado que na sua posse estava um número de assistentes muito inferior aos que, efectivamente, lá haviam estado. Uma afirmação logo a seguir reforçada pelo seu porta-voz para a Imprensa na Casa Branca, que igualmente atacou a comunicação social.

A verdade é que, em resposta, foram exibidas imagens que confirmavam, de forma eloquente, que os media tinham relatado a verdade e quem mentira fora Trump e fora o seu porta-voz. Confrontada com esta circunstância, a Secretária de Imprensa da Casa Branca sustentou que o seu colega não dissera mentiras, mas apenas apresentara “factos alternativos”…

A leviandade e a desonestidade com que tudo isto se trata, deverá ser motivo de profundas preocupações. Porque nunca, como agora, houve tanta informação a ser produzida e distribuída, graças aos avanços da ciência e da técnica. Com destaque, naturalmente, para a Internet e para as chamadas “redes sociais”, que possibilitam que qualquer cidadão, em qualquer lugar, com um simples telemóvel, se torne num agente de comunicação.

Mas é, exactamente, essa facilidade e esse avassalador caudal que tornam a comunicação mais perigosa. Quando nascem conceitos como o de “pós-verdade”, quando surgem centrais de produção de “notícias falsas”, quando se banalizam as mentiras e estas são apresentadas, com naturalidade, como “factos alternativos”, num atentado à inteligência dos cidadãos, então começam a estar em causa valores essenciais.

Ainda recentemente o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa (que também foi jornalista), afirmava que “o papel da comunicação social é crescentemente fundamental na afirmação da democracia e da liberdade”. Importa que o público disto mesmo tome plena consciência, exigindo uma informação fundamentada, honesta, credível e reconhecendo que isso tem um custo que vale a pena suportar.

Antes que seja tarde e deixe de haver forma de distinguir a ficção da realidade. Antes que a mentira se transforme na “verdade” alternativa que nos quiserem impor.

Autor: Jorge Castilho (Director do AuriNegra)