“Dar de si, antes de pensar em si”

Sorriso aberto, ar descontraído e ao volante do seu carro descapotável – um dos seus dois bens materiais mais preciosos, como nos diz entre risos. Foi assim que começou a nossa entrevista a Margarida Cardoso, um verdadeiro périplo pela vida da notária aposentada mas também pelos locais gandareses onde tem as suas raízes e que servem, sempre que precisa, de “porto de abrigo”.

Começamos pela Praia da Tocha, onde, num Palheiro, mesmo em frente ao mar, passa alguns dias do ano “a ouvir música com a varanda escancarada e a ler livros”. É ali, na praia, e principalmente no Inverno, que encontra a paz interior que precisa mas que nem sempre esteve presente.

Margarida Cardoso nasceu em Aljuriça, Cadima, quase por acaso. Na altura, os pais – ele com raízes nessa localidade e a mãe, natural da Taboeira – já viviam em Aveiro, mas como era tradição quiseram que a filha mais nova viesse nascer à Gândara, onde haviam nascido os outros filhos.

Irmã mais nova de cinco, a notária recorda a sua infância como um período de alguma tacanhez e até tristeza. “Era a mais nova dos irmãos e acabava por brincar muito sozinha”; conta-nos, acrescentando que a morte de uma irmã de apenas sete anos, com difteria, veio tornar o seu período de meninice “mais pesado”: “Eu tive uma infância um bocado triste, porque a morte da minha irmã acabou por marcar muito a minha mãe e também o resto da família”; refere, visivelmente emocionada.

“Como os meus irmãos eram muito mais velhos fizeram as suas vidas, e eu fiquei quase como se fosse filha única. A seguir à morte da minha irmã, tive uma fase em que também era muito doente e acabei por ser superprotegida e um bocado solitária”, acrescenta.

Por Aveiro, fez a escolaridade até ao 5.º ano, no Liceu feminino José Estêvão. Só no 6.º ano começa a frequentar a escola mista e é dessa altura que refere ter melhores recordações. “Aí comecei a ter um grupo de coleguinhas de liceu e tenho grandes amigos que vieram dessa altura”, recorda.

No 7.º ano, a família muda-se para Coimbra. “Como se estava a aproximar a idade de entrar para a faculdade, o meu pai pensou logo ‘aqui d’el rei’ se a sua menina vinha sozinha para Coimbra e, como o sonho dele era aposentar-se na cidade onde tinha nascido concorreu para o tribunal de Coimbra e fomos para lá viver”.

Na procissão da Rainha Santa Isabel

Já na Faculdade, chegou a estar matriculada em Línguas Germânicas “porque adorava Inglês, mas depois comecei a pensar que não queria dar aulas e, por influência também do meu pai, decidi mudar para Direito”, explica.

Assim que entrou em Direito, Margarida Cardoso percebeu rapidamente que aquilo que queria realmente ser era notária. “Ainda fiz o estágio em advocacia, estou inscrita na Ordem mas pedi a suspensão da inscrição para ser notária”, refere. A explicação vem de seguida: “Era um desafio para mim estudar Direito para resolver os problemas que as pessoas traziam até mim. Então quando se tratava de testamentos era verdadeiramente desafiante, porque dois dos princípios básicos da função notarial- ‘fé pública’ e ‘adequar a lei à vontade das partes’, permitiam exercer a profissão com excelência nessa matéria”.

No segundo ano da Faculdade, começou a namorar. Dois anos depois casou-se e mudou-se para o Porto com o, à data, marido, onde ficou durante dois anos. “Depois regressei para Coimbra, onde acabei o 5.º ano, já grávida da minha primeira filha, que nasceu em 1975. Acabei o curso ’com a minha filha ao colo’, estudei as últimas cadeiras junto ao berço e com muitas poucas horas de sono”, recorda.

Embora tenha iniciado funções, aos 28 anos, como notária em Constância – para onde se deslocava diariamente de comboio a partir de Coimbra –, e tenha passado ainda por Góis, foi em Vila Nova de Poiares que desenvolveu a maior parte da sua carreira, de que nos fala com tanto orgulho e entusiasmo mas também com nostalgia e alguma mágoa.

“Tive um professor mais tarde, numa pós-graduação em Estudos Europeus que me disse que nunca tinha visto ninguém com tanto sentido de função pública como eu. E na verdade, era aquilo que me realizava”, frisa, acrescentando que em Poiares conseguia fazer “um notariado de proximidade, junto da população. Eu vinha para o balcão, fazia procurações, reconhecimentos… Tudo e mais alguma coisa”.

Enquanto nos vai falando da vida de notária, que abandonou em 2007, após a reformulação da carreira que levou a que os cartórios se tornassem privados, Margarida Cardoso vai olhando para o mar, perdida em pensamentos.

“Quando deixei Vila Nova de Poiares fui muito abaixo. Foram 29 anos e, de repente, acabou”, diz pausadamente. “Como não queria tornar-me notária privada acabei por deixar a profissão, com muita pena, pois eu adorava aquilo que fazia. Assim, no dia 28 de Fevereiro de 2007 ainda era Notária, mas a 1 de Março fecharam-se as portas daquele cartório, onde todos os dias entrava tanta gente, onde eu adorava falar com as pessoas e ajudá-las”, recorda com tristeza, voltando novamente os olhos para o mar.

Recordações

Desde os tempos em que era uma jovem entusiasta que dava os primeiros passos na carreira, muito mudou. Primeiro terminou o casamento, quando os filhos tinham 9 e 11 anos, depois perdeu os pais, e, mais tarde, perdeu o ‘seu’ cartório. E foi sempre ali, na Praia da Tocha, que encontrou a paz. “Vinha muitos sábados para aqui, reconciliar-me com a vida. Andava e andava por aí. O mar é muito repousante…”, partilha.

A Praia da Tocha é o local que ainda hoje escolhe para descansar mas também para recordar a juventude, passada sob o sol durante todo o mês de Agosto, e onde fez bons amigos “como um casal de ceramistas de Bourges, França, que descobri aqui na Praia da Tocha quando esta ainda era um lugar remoto, onde se fazia nudismo, e com o qual nunca perdi contacto”.

Após o divórcio, e com o ex-marido a viver em Bruxelas, a notária refere que se tornou praticamente mãe solteira dos filhos, Teresa Margarida, actualmente professora na Universidade Aberta de Lisboa, e Pedro Júlio, engenheiro electrotécnico na Siemens, em Alfragide.

“Fui mãe e pai para eles e nem sempre foi fácil”; admite. Agora, é com os netos que ocupa parte dos seus dias: “Tenho quatro netinhos, dois rapazes e duas raparigas, e são eles, sem dúvida, a minha grande paixão e ocupação”, afirma, acrescentando que é habitual “acompanhá-los à piscina e ao futebol”.

Embora esteja afastada da profissão há precisamente dez anos, actualmente, os dias de Margarida Cardoso não são, ainda assim, muito menos ocupados. Sempre que tem disponibilidade, costuma marcar presença em colóquios, palestras, tertúlias, e eventos organizados pelos seus muitos amigos.

“O meu dia normal começa com uma caminhada de uma hora. Duas vezes por semana acompanho os meus netos nas actividades deles. Vou ao Alma Shopping (antigo Dolce Vita) tomar um café, vou também muito ao cinema, que adoro”, refere.

Nas paredes agora despidas do Palheiro da Praia da Tocha, e que entretanto passou para o filho, Margarida Cardoso explica-nos que tinha exposto o resultado de outro dos seus hobbies – a fotografia.

“Não tenho nenhum curso específico, mas adoro fotografar, paisagens, a praia, pessoas. Costumo dizer que continuo incessantemente à procura do melhor pôr-do-sol da Praia da Tocha para fotografar. Para além disso, gosto de tirar sempre muitas fotos com os meus amigos, para depois recordar”, confessa-nos, enquanto nos pede para tirar uma selfie, para assinalar a entrevista.

A escrita é outra paixão antiga, que agora junta à fotografia, nas redes sociais, onde dá asas à imaginação e vai abrindo o baú das recordações: “Acho que é um gostinho que vem do tempo em que escrevia cartas. Já me ‘chatearam’ para fazer um blogue mas, por enquanto, fico-me pelo facebook, porque assim partilho os meus textos e imagens só com os meus amigos, que adoram e interagem imenso”.

A lista de passatempos de Margarida Cardoso continua. “Gosto também muito de dançar e ler”, refere, de sorriso aberto, para logo depois acrescentar: “Leio compulsivamente. Os três meses de férias, quando era miúda, eram passados a ler. Lembro-me de, na altura ainda bem novinha, ler toda a colecção do Stefan Zweig, pertencente ao meu Pai, e de autores portugueses como Alexandre Herculano e Gil Vicente. Hoje, o Gonçalo Cadilhe, o José Rodrigues dos Santos e o António Lobo Antunes, que conheço pessoalmente e de quem tenho todos os livros autografados, são os meus escritores favoritos”.

Viajar é outro dos prazeres da vida de que não abdica, conta, falando-nos da sua viagem mais recente à Birmânia, Laos e Tailândia, que fez com o escritor e amigo Gonçalo Cadilhe, e da qual foi falando, em jeito de crónica, na sua página do Facebook, “para os meus amigos ‘viajarem’ comigo’”. Com um espirito aventureiro, Margarida Cardoso já tem a próxima viagem marcada, desta vez a Itália, “onde vou fazer os passos de Santo António”.

Por enquanto a viagem que se segue é à Aljuriça, à casa dos avós paternos e onde “habitam” algumas das suas mais importantes recordações de infância.

“Embora nunca tenha aqui vivido, passava cá todo o mês de Setembro e a semana da Páscoa”, refere. A casa, entretanto recuperada, mantém ainda as características rurais – como o forno a lenha, a cozinha anexa, o alambique – mas também memórias, muitas memórias…

Margarida Cardoso com os filhos

“O meu pai faleceu há 25 anos e a minha mãe há 15, mas nesta casa sinto-me mais perto deles”, diz-nos emocionada, enquanto nos guia por cada divisão da moradia. “Era aqui que a minha mãe fazia os bolos da Páscoa e cozia a broa”, vai-nos dizendo, enquanto aponta para as gamelas de madeira e para o forno, onde tantas vezes passou serões junto das mulheres da família. Ao lado, no tanque de pedra, lavava-se a roupa, à mão, e lá fora, no poço, era de onde se tirava a água, com a ajuda de uma vaca.

Noutra divisão do piso térreo, funcionava a adega, onde os homens faziam os seus néctares. “Lembro-me de ser pequenita e de vir para aqui para ao pé do meu pai vê-lo fazer aguardante. A aguardante do meu pai era muito apreciada porque era feita com muito carinho e tradicionalmente, pingo a pingo”. Na parte de cima, visitámos ainda os quartos, onde ela e os irmãos pernoitam quando vêm à terra natal do avô paterno, como vai acontecer novamente nesta Páscoa, altura em que a família de reúne.

Entretanto, a tarde já vai longa, e com um ramo de flores colhidas no jardim, Margarida Cardoso vai fechando os portões da casa onde nasceu e despedindo-se da sua Gândara, onde nunca viveu mas onde, mesmo assim, se sente em casa.

“Sinto-me um pouco gandaresa, principalmente pela ligação que tenho à família e aos amigos e pela facilidade que tenho em me dar aos outros e com os outros”, refere. Prova disso mesmo é a sua ligação ao associativismo, uma causa que abraça com dedicação.

Depois de vários anos como notária em Vila Nova de Poiares, Margarida Cardoso é actualmente Presidente da Assembleia da APPACDM local. Para além disso, é membro do Rotary Clube de Coimbra – Olivais, para o qual regressou, depois de vários anos de afastamento, no dia 30 de Janeiro, por ocasião de um jantar-festivo que teve lugar na Adega Cooperativa de Cantanhede. Na ocasião, Margarida Cardoso estava bastante comovida por este regresso. “Quando saí do cartório fui um bocadinho abaixo e fechei-me um pouco em casa. Aos poucos voltei à minha vida e faz todo o sentido regressar ao Rotary também, porque tenho espírito rotário e porque é uma entidade com a qual me identifico, principalmente por partilharmos o mesmo lema, que é ‘dar de si, antes de pensar em si’. E eu sou uma pessoa que gosta muito de dar, de conviver e de cultivar amizades”.

Autora: Carolina Ribeiro Leitão