Da Tocha para Angola, sapatinho a sapatinho

Psicologia e sapatos parecem ter pouco ou nada a ver, mas para Lara Guina tem sido a receita para o sucesso. Dona de uma marca de sapatos que exporta cerca de 90%, é na Tocha que a jovem tem o seu outro negócio: um Centro e Atelier de Tempos Livres.

Lara Guina recebeu-nos no ATL “Mentes Dotadas”, onde passa grande parte do seu tempo, para nos contar o seu percurso, que começou há 31 anos, quando nasceu na Suíça. Filha de pais emigrados e naturais de Ançã, com 8 anos regressou a Portugal e mais tarde mudou-se para a Figueira da Foz, cidade escolhida para tirar Psicologia.

Depois da licenciatura especializou-se na área clínica e chegou a trabalhar, até 2011, na Obra do Frei Gil, na Praia de Mira. Como entretanto ficou desempregada, decidiu criar a sua própria empresa, um ATL em que dá apoio e desenvolve actividades com crianças, após o horário escolar.

“Escolhi a Tocha porque reparei que aqui não havia este tipo de oferta. O meu objectivo é ir ao encontro das necessidades dos pais, que por vezes não têm tempo para acompanhar os filhos. Aqui sabem que eles estão bem entregues e que organizam o seu estudo, para depois, quando chegarem a casa, terem tempo de qualidade em família”.

No ATL “Mentes Dotadas” as crianças têm apoio para organizar o estudo e fazer os trabalhos de casa. Há ainda um conjunto de actividades, como Zumba, Reiki (para crianças e adultos), Dança, Yoga e aulas de música.

“Quem nos procura são essencialmente pais que têm horários mais complicados ou com filhos com dificuldades de aprendizagem”, frisa. E é nesta última parte que a formação em Psicologia se torna mais útil. “Para perceber as dificuldades dos alunos e também para lidar com algumas perturbações comportamentais”, partilha, acrescentando que dá ainda algumas consultas de psicologia e organiza eventos para crianças, com insufláveis, modelagem de balões, etc.

O projecto, refere, tem corrido “muito bem em todas as suas vertentes. Nota-se que há um investimento cada vez maior neste tipo de acompanhamento escolar, mas também nas actividades extracurriculares diferentes”. Porém, e ainda que satisfeita com o ATL, Lara Guina continuou à procura de novos desafios e foi assim que, também na vila da Tocha, decidiu criar um segundo negócio, na área dos sapatos.

Como o marido é da zona Norte e tem familiares ligados à indústria do calçado, um sector que “tem vindo a crescer imenso”, decidiu arriscar. Desenhou alguns sapatos, apresentou-os a uma fábrica de São João da Madeira e começou a contactar possíveis vendedores.

“O objectivo era exportar e conseguimo-lo de imediato”, frisa a gestora.

Assim que teve a primeira encomenda para Angola, o negócio foi ganhando força e estendeu-se ao território nacional, mas também a outros países, como Taiwan, Suíça, Luxemburgo, Alemanha e Hungria. Actualmente, Angola vale 75% das vendas (a marca está presente em 12 lojas) e é o melhor mercado para Lara Guina, que ainda assim tem algum receio devido à incerteza económica e política que o País atravessa.

Para a empresária, o que distingue o seu calçado do restante calçado português é principalmente o tipo de modelos, mais arrojados: “Tenho uns modelos mais europeus e outros feitos propositadamente para o mercado angolano. Por exemplo, para Angola, o calçado tem de ter um formato mais bicudo e alongado e também cores vivas, nas peles pintadas à mão. Em Portugal, as preferidas são as formas mais redondas e as peles pretas e castanhas”.

Em reuniões presenciais com os clientes, ficam acordados os modelos, mas também as cores, as solas e as aplicações a usar. “É um trabalho personalizado, ao qual os clientes dão muito valor”. Depois disso, são várias as visitas que vai fazendo à fábrica, para ir acompanhando o processo.

Após quase três anos de negócio, o balanço, refere, tem sido positivo. A participação em feiras em Düsseldorf, na Alemanha, tem ajudado a abrir novas portas.

Lara Guina produz pequenas quantidades – cerca de 2 mil pares ao ano – e trabalha praticamente sem stocks, garantindo cerca de 2 coleções por ano, para agradar “a clientes que gostam do manter o estilo clássico mas, ao mesmo tempo, andar na moda e usar algo personalizado e menos usual”. Quanto aos preços, este variam, em Portugal, entre os 130 e os 200 euros, no calçado de homem. “Um preço ainda assim muito competitivo em comparação com o resto do mercado nacional, uma vez que acaba por ser um trabalho praticamente quase artesanal e de grande qualidade”.

Nos próximos meses, Lara Guina vai começar a mostrar aos clientes também uma colecção feminina: “Há uns tempos tivemos alguns modelos femininos mas parámos a produção. Agora retomamos mas com modelos iguais aos de homem mas para senhora. Ou seja, modelos clássicos mas ao mesmo tempo elegantes e diferentes. Vamos ver como corre”. Futuramente, a empresária espera alargar a sua participação em feiras internacionais e também lançar uma loja online para levar a marca Lara Guina ainda mais longe.