Da rolha fez-se arte

Transformar rolhas de cortiça em arte tem sido o hobby de Samuel Oliveira Machado desde 2004. Actualmente com uma exposição de presépios em cortiça, patente na Biblioteca Municipal de Cantanhede, o jovem de 39 anos trabalha como Animador Sociocultural, mas desde cedo demonstrou talento para os trabalhos manuais.

Natural da Póvoa da Lomba (Cantanhede), Samuel Machado assume que “desde pequenino tinha jeito para as artes. Julgo que é algo que nasceu comigo”.

E foi esse “jeito”, assegura, que o levou escolher a área da Animação Sociocultural, com equivalência ao 12.º ano, e que lhe veio abrir portas no mercado de trabalho, como animador na PLASCE, uma associação local.

Depois disso, chegou ainda a ter uma empresa de brindes e convites de casamento, até que, em 2004, decidiu tirar uma licenciatura em Animação Sociocultural, pela Escola Superior de Educação de Coimbra.

Nesse mesmo ano, e enquanto monitor na Escola Rainha Santa Isabel, em Coimbra, Samuel Machado iniciou um projecto com os seus alunos, que passava pela reciclagem da cortiça. “Era um projecto dinamizado pelo grupo Amorim, intitulado ‘Rolhas que dão folhas’, e em que as escolas tinham como propósito recolher rolhas e trabalhá-las. Mediante a quantidade de rolhas, a empresa plantava sobreiros”, explica, em entrevista ao AuriNegra.

Embora já tivesse tido contacto com a cortiça, foi aí a primeira vez que Samuel começou a olhar para as rolhas como um material altamente moldável e versátil. “Desde então, dei continuidade a este hobby, que tenho vindo a levar cada vez mais a sério”.

As suas obras têm sido muito apreciadas e isso já lhe valeu a participação em várias feiras, como Expofacic e a FICOR – Feira Internacional da Cortiça, que acontece em Coruche, e exposições em Coimbra, Lisboa, entre outras cidades.

Da arte que tem vindo a desenvolver, o cantanhedense destaca principalmente “a forma diferente de trabalhar a rolha. Já se vê trabalhos com a rolha intacta, mas assim trabalhada não existem”.

Vender as obras está, por enquanto, fora de questão para Samuel Machado, que pretende, ao invés de tornar a sua arte num modo de fazer negócio, ir fazendo as peças para si mesmo e para aumentar cada vez mais sua coleção. “São trabalhos morosos e com os quais acabo por criar uma relação emocional, daí não querer vender”, acrescenta.

Até ao momento, pelas mãos de Samuel Machado já passaram milhares e milhares de rolhas de cortiça, “que os amigos vão entregando ou que vou pedindo em estabelecimentos comerciais e restaurantes”. A coleção, que não pára de crescer, já ultrapassa as 100 peças, entre quadros, estruturas e 22 presépios, que até dia 6 de Janeiro podem ser apreciados na Biblioteca Municipal de Cantanhede.

“Isto dos presépios começou por sugestão de pessoas conhecidas. Agora, acabo por ter uma predileção pelos presépios, pois é algo que me dá muito gosto fazer”, explica ao AuriNegra, enquanto nos guia pela exposição, que prima pelo detalhe. “Aqui é tudo reciclado, desde a cortiça, aos cartões, aos tubos que servem de estrutura. Até os bonequinhos que compõem o presépio foram doados por alunos. É um trabalho que é essencialmente de corte, modelagem e ralar a cortiça

Da padaria, ao mercado rural, passando pelo estábulo… No presépio de Samuel Machado, vida é o que não falta – e cortiça também não. “Tento recriar as coisas com o máximo de detalhe. Tenho peças que demoraram mais de três meses a fazer, mas também tenho outras, mais pequenas, que demoram horas”.

Depois de já ter exposto um dos presépios na sua terra Natal (Póvoa da Lomba) e agora na Biblioteca Municipal, o objectivo para 2018 é angariar apoios para fazer uma instalação com a sua obra num sítio “mais visível”, na sede do concelho, onde mais pessoas poderão conhecer (e apreciar) esta arte inovadora.