Criar ou quebrar hábitos: o papel do sistema endocanabinóide

No nosso dia-a-dia, estamos constantemente a alternar entre acções intencionais e hábitos. Por exemplo, quando ao final de um dia de trabalho guiamos o nosso carro para um local onde nunca fomos, em vez de o levar até casa, estamos precisamente a quebrar um hábito. Esta capacidade de quebrar um hábito e de alternar a nossa acção para uma do tipo intencional é algo que aparece muitas vezes comprometido num conjunto de distúrbios neuropsiquiátricos, incluindo o transtorno obsessivo-compulsivo e a dependência. Mas como é que este processo tão fundamental é controlado no cérebro?

No artigo publicado a 26 de maio de 2016 na revista científica Neuron, resultado da colaboração entre cientistas do NIH (MD, EUA), UCSD (CA, EUA), MIT (MA, EUA), Universidade de Stanford (CA, EUA ) e do Centro Champalimaud (Lisboa, Portugal), é revelado que o controlo deste processo é feito ao nível da atividade neural numa região específica do cérebro chamada córtex órbito-frontal (COF). Esta área do cérebro é conhecida por contribuir para a formação de ações intencionais, provavelmente devido à informação que é transportada através das projeções dos neurónios que se estendem daí até uma outra zona do cérebro, chamada estriado dorso-medial.

Neste novo estudo é identificado o mecanismo molecular endógeno através do qual o cérebro reduz o fluxo de informação no COF, um processo que, de acordo com os resultados do estudo, promove a formação de hábitos. “Os nossos resultados sugerem que alterações no sistema endocanabinóide do cérebro podem estar a funcionar como bloqueadoras da capacidade do cérebro para “quebrar hábitos”. Por outras palavras, os endocanabinóides funcionam como um freio no OFC, permitindo a formação de hábitos”, explica Christina Gremel, investigadora na UCSD.

Para chegar a estes resultados, os investigadores treinaram o mesmo rato para fazer a mesma ação, ora de forma intencional, ora como um hábito. David Lovinger, investigator no NIH, explica: “Os ratos foram treinados para executar a mesma ação em 2 ambientes diferentes, sendo que em ambos obtinham a mesma recompensa alimentar. A diferença era que num ambiente o rato era induzido a desenvolver uma ação do tipo intencional, e no outro a desenvolver um hábito. Com este novo protocolo experimental foi-nos possível investigar os mecanismos cerebrais subjacentes à mudança de estratégias de ação.”

Uma vez que a formação de hábitos está associada a uma redução na atividade dos neurónios do OFC e que os endocanabinóides são conhecidos por serem responsáveis pela redução generalizada da atividade dos neurónios, os investigadores colocaram a hipótese de que os endocanabinóides poderiam ter um papel na formação de hábitos. Para testar esta hipótese, eliminaram seletivamente um recetor endocanabinóide, chamado de canabinóide tipo 1, nos neurónios do OFC, e observaram que os ratos onde estes recetores tinham sido eliminados deixaram de formar hábitos.

Para Rui Costa, investigador principal no Centro Champalimaud, “O nosso trabalho revela de forma muito clara a existência de circuitos cerebrais que funcionam paralelamente para mediar ações do tipo intencional versus hábitos, competindo assim pelo controlo do comportamento. No caso de abuso de drogas, ou mesmo em certos distúrbios neuropsiquiátricos, sabe-se que o balanço entre ações intencionais e hábitos se encontra afectado. Com base nos nossos resultados, o sistema endocanabinóide pode agora ser visto como um possível alvo para restaurar este balanço, permitindo a quebra de hábitos nestas situações, aliviando assim o sofrimento associado a estes distúrbios.”