Crescer na diferença (com fotogaleria)

A celebrar 40 anos de existência, a Cerci Mira é uma “casa” especial para gente especial e isso nota-se mal se entra pelo portão de entrada. O que ali se respira é alegria, descontração e respeito. Muito respeito pelo outro, mas essencialmente muito respeito pela diferença.

Aqui todos têm o seu papel, todos têm uma utilidade e todos participam activamente nas actividades que lhe são sugeridas, com entusiasmo e num grande clima de entre ajuda.

O AuriNegra foi conhecer melhor esta associação e o trabalho que ali se desenvolve diariamente com os cerca de 160 utentes. A recepção foi feita com sorrisos, carinho e até algumas poses para as fotografias, tanto pela parte dos clientes como da equipa multidisciplinar (de cerca de 60 funcionários) que ali trabalha e que tem formação em áreas tão diversas como a psicologia, a fisioterapia, a terapia ocupacional, a animação e educação social, entre outras.

Criada em 1978 e situada na freguesia do Seixo (Mira), a CerciMira tem como missão gerir a diferença, promovendo a igualdade de oportunidades e a qualidade de vida das pessoas com deficiências e incapacidades.

“Na Cercimira partilhamos a visão de sermos uma referência organizacional no mercado da reabilitação, tornando único cada um dos nossos clientes, através da prestação de serviços personalizados, abrangentes e de proximidade”, refere a associação no seu site oficial, onde surgem também elencados os valores que a guiam: solidariedade, responsabilidade, ética, perseverança, iniciativa e proximidade.

Como nos explica Eduardo Barreira, na associação há 28 anos e um dos directores executivos da Cerci, o objectivo inicial da associação era colmatar a dificuldade educativa que existia para as pessoas portadoras de deficiência. “Assim, a ideia era criar uma escola que prometia educação para todos, uma educação especial e orientada”, refere, acrescentando que hoje a missão da Cerci vai ainda mais longe “hoje temos outro tipo de intenção e muito mais valências, direccionadas essencialmente para jovens e adultos”.

Com efeito, são três os tipos de resposta que a Cerci Mira oferece: o Lar Residencial, o Centro de Actividades Ocupacionais

(CAO) e a Formação Profissional.

Comecemos pelo Lar Residencial. Criado em 2013,conta com 17 clientes, “e uma fila de espera de dezenas de pessoas”. “São pessoas que não têm suporte familiar ou cujos pais já não conseguem tomar conta”; explica o Técnico de Serviço Social, acrescentando que o objectivo futuro da associação é aumentar esta parte “para dar resposta a mais clientes”.

Já o CAO – actualmente com 90 frequentadores – é dirigido a pessoas com maior incapacidade e que precisam de ser acompanhadas em actividades que vão desde a agricultura à cozinha, passando pela hidroterapia, trabalhos manuais e terapia ocupacional. Para permitir esta diversidade, a Cerci conta com uma área de vários hectares e vários pavilhões, por onde se repartem as actividades. Um dos locais favoritos dos clientes mas também dos funcionários é a sala de snoezelen, uma terapia multissensorial, que estimula os cinco sentidos e ajuda a reduzir o stress.

“É uma sala utilizada principalmente para acalmar alguns doentes e tem resultados espectaculares”; refere Eduardo Barreira durante a visita guiada que nos faz às instalações e que vai sendo pontuada com pequenas conversas com os utentes.

Na Formação Profissional, a Cerci disponibiliza quatro cursos com dupla certificação (profissional de nível 2 e académica, com equivalência ao 9.º Ano): Operador Agrícola, Serralheiro Civil, Operador de Acabamentos e de Mobiliário e Madeiras e ainda Assistente Familiar e de Apoio à Comunidade

No total são 32 os utentes a frequentar estes cursos, e mais de 40 aqueles que já estão inseridos no mercado de trabalho através de estágios e parcerias com várias empresas dos três concelhos abrangidos pelos serviços da Cerci: Mira, Cantanhede (Zona Noroeste), Vagos (Zona mais a Sul)

“Os nossos clientes vão muito bem preparados para trabalhar e as empresas têm cada vez mais gosto em aceitá-los. Considero que isto acaba por ser uma parte importante para as empresas, que devem ter uma responsabilidade social, e para as pessoas portadoras de deficiência, que assim têm forma de meterem em prática aquilo que aprenderam e, concomitantemente, de se inserirem mais facilmente na sociedade”, frisa.

Ao passar por uma das salas o cheiro a bolo chama a atenção. Ali decorre uma aula de assistência familiar, onde, numa divisão que recria uma verdadeira cozinha e sala de jantar, as alunas – todas mulheres –, aprendem a cozinhar, a colocar a mesa, a fazer centros e arranjos de mesa, a fazer decorações e a até mesmo as regras do saber estar à mesa. Animadas, vão-nos mostrando o que foram fazendo durante o dia, que já vai longo.

Curiosamente, a visita à Cerci aconteceu no dia em que a selecção nacional se estreou no Mundial de Futebol, e, por isso, já se notava o entusiasmo. Ainda assim o trabalho tinha que ser feito. Por isso, a horta – de onde saem morangos, bróculos e muitos outros vegetais e frutos – ainda estava a ser trabalhada por alguns dos utentes, de enxadas na mão. Nas restantes salas as aulas decorriam com normalidade, mas as bandeiras e os cachecóis já estavam a postos.

Um lugar inesquecível

Quem passa pela Cerci, garante Eduardo Barreira, não esquece. “Os nossos utentes são pessoas gratas”.

Na Cerci Mira o principal propósito passa por facultar aos utentes o maior número de competências, “para que sejam indivíduos que se sintam úteis e motivados e por isso ficam tão agradecidos quando alcançam o que quer que seja”.

Se com a deficiência vem a diferença, vem também um carácter muito especial. “São pessoas que dão valor às coisas mínimas, às quais por vezes os outros não dão”, partilha Eduardo Barreira, para quem trabalhar na Cerci tem sido uma aprendizagem: “Cria-se uma relação muito especial com os clientes, porque são pessoas muito fantásticas. Trabalhar com eles é muito compensatório, tenho aprendido muito mesmo”.

Da forma de trabalhar da associação, o técnico é peremptório ao destaca, acima de tudo, a participação dos clientes. “Eles fazem parte da casa e por isso são convidados a participar. Temos um grupo de 13 clientes com quem reunimos uma vez por mês. Em representação de todos os outros, fazem pedidos, dão sugestões, apontam as críticas que têm a apontar, etc.”.

Na associação o desporto também não é esquecido. “Temos equipas federadas de futsal, remo adaptado e boccia. Já tivemos vários campeões”, refere Eduardo Barreira orgulhoso, antes de entrarmos no pavilhão desportivo onde decorre mais um treino de Boccia e onde impera o silêncio e a concentração. “Eles levam isto muito a sério e é uma competição muito saudável”.

 

São Pirilampo

Para desenvolver o seu trabalho a Cerci Mira conta com o apoio da segurança social, no entanto a angariação de fundos assim como a consignação do IRS são outro forma de criar um fundo de socorro que permite investir continuamente na melhoria da oferta de serviços e materiais.

No entanto, neste âmbito da angariação de fundo há um momento especial para a Cerci e que está quase a chegar. A 7.ª edição do Festival do Petisco – São Pirilampo que se realiza a 7 de Julho, a partir das 16h00, e que este ano conta com a actuação do músico Amadeu Mota.

“A receita já é bem conhecida e tem resultado pelo melhor para garantir uma noite agradável: arraial popular, tasquinhas com petiscos, aqui e ali uma animação no palco ou nos arredores, um espaço infantil para a criançada se divertir, uma exposição de trabalhos”, pode ler-se na página online da associação.

Para Eduardo Barreira, “esta é uma festa que nos é muito querida e que integra a campanha do Pirilampo Mágico que este ano terá duas fases, uma em Junho e outra em Outubro. No Festival contamos com mais 70 voluntários que nos ajudam a preparar tudo e, claro, com os nossos utentes”, refere Eduardo Barreira, “convidando todos a visitar a Cerci neste dia”.

Para o director executivo, eventos como este são de uma importância extrema, como servem para “abrir a associação à comunidade”. Outra forma de ajudar a Cerci é visitar a lojinha solidária da associação, de nome “Item”, e onde são vendidos os vários produtos que os utentes vão produzindo, como compotas, licores, peças de artesanato, mantinhas, brinquedos, entre muitas outras coisas “handmade”.