Caminho das Índias

O aspecto franzino até pode, inicialmente, indiciar que Noémia Castelo-Branco é uma mulher frágil. Mas em poucos minutos de conversa percebemos que não poderíamos estar mais equivocados. Dona de uma forte personalidade e de uma grande vontade de viver, a goesa abriu-nos as portas de sua casa em Cantanhede e contou-nos a grande viagem que tem vindo a ser a sua vida.

Noémia Lobo, nome de solteira, nasceu no ano de 1941 em Goa (Índia), numa altura em que esta era a capital do Estado Português da Índia.

Os pais, ambos goeses, escolheram dar-lhe apenas dois nomes porque, segundo afirma, “achavam que era demasiado pretensiosa a moda que havia na Índia de dar imensos segundos nomes aos filhos”. E assim ficou.

Lobo, refere, é nome de família desde que esta se converteu ao catolicismo, tendo adoptado este apelido de seu padrinho, um dos capitães de Afonso de Albuquerque (segundo Vice-Rei da Índia Portuguesa).

Os pais, Maria Angélica de Conceição e Sousa e José Paulo Lourenço Justiniano Lobo, eram pessoas reputadas no seio da comunidade Carambolim. Maria Angélica era dona de casa, “mas sempre quis ser professora. Como não era bem visto as mulheres terem uma profissão, acabou por viver sempre revoltada com isso”. Já José Lobo era professor do ensino primário e dava aulas numa escola contígua à casa onde a família habitava.

Desde cedo que o pai de Noémia Castelo-Branco se tornou chefe de família. “O meu avô paterno morreu ainda jovem e deixou a minha avó com oito filhos. Se não fosse a comunidade – em que havia a lei da partilha dos rendimentos, das terras, lagoas e florestas comuns, sendo anualmente distribuídos pelos varões, viúvas e órfãos ajudas – ela, a minha avó, não teria conseguido sustentar os filhos”, explica a goesa.

Deste modo, foi ainda jovem que José Lobo teve que começar a trabalhar, descobrindo a paixão pela docência e pela arte de ensinar que mais tarde acabou por “contagiar” também a filha. Na verdade, enquanto criança, Noémia Castelo-Branco refere que era habitual ir assistir às aulas do progenitor, o que a ajudou a aprender a ler e a escrever desde petiza.

“Aos três anos já sabia ler e estava ansiosa por entrar para a escola. Fui insistindo com os meus pais até conseguir que me metessem numa. Queria aprender!”, conta-nos. Inicialmente, o pai quis inscrevê- la numa escola marata, onde se desenvolvia muito o raciocínio matemático através de cantorias, mas Noémia contestou: “Não me queria sentar no chão”, ri-se. A outra opção seria ir para uma das várias escolas inglesas que nessa altura eram muito populares por Goa.

“Todas as aldeias tinham escolas inglesas porque a ideia era aprender a língua para depois ou se ir concluir os estudos para outro país ou se seguir o marido. Depois de casar – normalmente os casamentos eram por conveniência – a mulher teria que ir com o marido para onde este fosse e nesse período a emigração era essencialmente para países onde se falava o inglês”, explica-nos.

Na escola inglesa Noémia Castelo- Branco aprendeu a dominar na perfeição o inglês. Em casa falava português – na altura um sinal de elitismo – e na rua, ou com a empregada, ainda falava concani, a língua nativa de Goa. Em suma, era uma verdadeira poliglota.

Dos tempos de criança passados em Goa recorda as brincadeiras normais pela rua com o irmão mais velho, Tertuliano Norman Lobo. Porém, aquilo que lhe deixa mais saudades são “os serões passados em grupo na varanda até altas horas da noite, a apanhar ar, a tocar guitarra e a cantar. Era uma liberdade diferente… A música, o canto e a dança são muito importantes para os goeses. Há uma alegria grande de viver”.

Apesar de, nessa altura, as diferenças sociais serem evidentes, mesmo dentro das comunidades, estas não se sentiam na hora da diversão. Ainda assim, aquilo que aborrecia a goesa era o facto de não ter uns tamancos iguais aos que calçavam os seus companheiros de brincadeiras. “Como os meus pais tinham possibilidades, eu andava de botas mas aquilo que queria mesmo era ‘chapinhar’ com os pés nas poças de água e por isso tinha alguma inveja dos outros meninos, que andavam todos contentes com os seus tamancos. Achava-me muito infeliz e desfavorecida nesses momentos”, confessa, entre risos.

Noémia Castelo-Branco afirma ter sido, acima de tudo, uma criança muito feliz e dinâmica mas, ao mesmo tempo, disciplinada, principalmente nos estudos, uma parte muito valorizada sobretudo nos países asiáticos, como é o caso da Índia. Para a goesa, todavia, aprender nunca foi uma obrigação mas sim um gosto.

“Sempre tive uma grande sede de conhecer. Os livros vinham em barcos de Portugal e mal chegavam eu ia à livraria buscá-los e acabava por os ler todos ainda antes de começar o ano lectivo. Cheguei a ganhar vários prémios de melhor aluna, incluindo o Prémio Nacional atribuído ao aluno de melhor média nos exames em todo o território português”, recorda, defendendo que ainda assim não considera que algum dia tenha sido “a típica marrona”.

Mais tarde os Lobo mudaram-se para Pangim, a capital do Estado de Goa, onde o chefe de família foi trabalhar como metodólogo na Escola do Magistério e os filhos foram estudar para o liceu, com vista a um futuro melhor.

Noémia Castelo-Branco escolheu Ciências mas, ao mesmo tempo, e a pedido do pai, inscreveu-se no curso do magistério. “Da parte da manhã frequentava as aulas do liceu e à tarde tinha aulas de magistério. Era bastante cansativo mas eu aguentava-me”, refere, adiantando que só não acabou o curso do magistério porque, entretanto, com o liceu já terminado, recebeu uma bolsa de estudo para vir estudar para Portugal.

Embora José Lobo preferisse que a filha cursasse Medicina em Goa, Noémia Castelo-Branco tinha outros planos: ir para a Universidade de Coimbra estudar Matemática, uma paixão que entretanto havia descoberto. O objectivo era completar o curso e regressar a Goa para exercer, mas tal nunca chegou a acontecer.

A paixão pela Matemática

Com apenas 17 anos, Noémia Castelo-Branco era uma jovem desenvolta e cheia de sonhos que se aventurava num Portugal de que desde sempre ouvira falar. “Porém, quando cheguei não tinha nada definido, só sabia que ia para a Faculdade de Ciências cursar Matemática. Não tinha, sequer, alojamento destinado”, recorda.

Apesar de ter contado com o apoio de alguns familiares que já estavam no país, acabou por ficar no Colégio do Sagrado Coração de Maria, onde permaneceu até terminar a licenciatura em Matemática na Faculdade de Ciências da Universidade de Coimbra. Pelo meio, completou o 3.º ano em Lisboa, mas logo regressou à cidade dos estudantes.

No entanto, ao contrário daquilo que o seu pai esperava, Noémia Castelo-Branco não voltou para a Índia no fim da licenciatura. Em 1961 deu-se a queda de Goa, com o exército indiano a ocupar o Estado, derrotando as escassas forças militares portuguesas presentes no território. Voltar para casa nessa altura tornou-se impensável. Por isso, Noémia Castelo-Branco ficou por Portugal, angustiada com as poucas notícias que recebia da sua terra natal. ~

“Na minha família não havia o hábito de enviar telegramas. Então ia sabendo das coisas por cartas, que por vezes demoravam meses a chegar, e pela rádio. Era horrível, chorei muito nessa altura”, relembra a goesa.

Em Coimbra, a milhares de quilómetros do seu país de origem, Noémia vivia com a tristeza de estar longe dos seus. Mas, ainda assim, sentia-se uma privilegiada, pois tinha uma bolsa escolar, que lhe permitia sobreviver, e a ajuda de muitos amigos que entretanto foi fazendo por Portugal.

No entanto, e ciente de que nem todos tinham as mesmas condições, juntou-se a um grupo criado na Universidade, que pretendia dar auxílio a estudantes goeses. Curiosamente, e apesar do momento ser dos mais difíceis da sua vida, foi nesse grupo que acabou por conhecer Manuel Castelo- Branco, estudante de Direito, que viria a ser seu marido e pai dos seus quatro filhos.

Noémia Catelo-Branco terminou o curso e rapidamente encontrou emprego. Primeiro começou a exercer num colégio privado, em Arganil. Depois disso passou pelo Barreiro (Lisboa), por Penacova, por Mira, até se fixar em Cantanhede, um desejo que tinha há muito, principalmente por ser o concelho de origem do seu marido, natural de Covões.

“Para além disso, sempre achei que era o local ideal para criar os meus filhos. É calmo e ao mesmo tempo perto de tudo. Nas férias mudávamo- nos para a casa de família do meu marido em Covões, onde os miúdos podiam ter um contacto maior com a Natureza”, afirma. Em Cantanhede, Noémia Castelo- Branco leccionou inicialmente no Colégio Infante de Sagres. Mais tarde escolheu fazer o estágio de um ano que lhe daria acesso à função pública e que lhe permitiu tornar-se professora efectiva de Matemática na Escola Secundária de Cantanhede, onde deu aulas até 2000.

Na verdade, é com muita paixão que a goesa nos fala da arte de leccionar. “Adoro ensinar. É uma sensação maravilhosa sentir os alunos a aprenderem e a melhorarem”, confessa- nos, com o brilho no olhar de quem realmente ama aquilo que faz.

Apesar de a matemática, em Portugal, ainda ser para muitos alunos “um bicho de sete cabeças”, a professora desdramatiza: “A matemática é apenas uma questão de atitude. É preciso treinar e olhar para ela como uma coisa divertida. Recordo-me de um professor, o Dr. Osório, que tive ainda na Índia, e que durante as aulas declamava poesia… Era brilhante, a coisa mais linda que já se viu. Talvez tenha sido aí que me apaixonei pela matemática”.

O regresso às origens

Noémia Castelo-Branco tinha 35 anos quando regressou a Goa, pela primeira vez, depois de a ter deixado aos 17. Nessa altura já muito se tinha passado. Noémia tornara-se professora, esposa e mãe de quatro filhos.

O regresso às origens teve, no entanto, um sabor amargo: o seu pai, José Lobo, entretanto morrera, sem que a goesa se pudesse ter despedido dele. “Desde o dia em que apanhei o avião para Portugal, aos 17 anos, nunca mais voltei a ver o meu pai. Soube da morte dele somente algum tempo após ele ter falecido porque as cartas demoravam a chegar. Idolatrava o meu pai e por isso fiquei destroçada”, conta-nos com o olhar perdido num passado que não volta.

Para além disso, regressar à Índia “foi um choque” pois, como nos conta, “no início já nem conseguia falar a língua local nem sequer reconheci a minha mãe… Tinham-se passado muitos anos e aquilo tornara- se muito diferente, muito mais gente e confusão”, sublinha.

Ainda assim, e após esse primeiro regresso, passou a ir a Goa de quatro em quatro anos. Quando a sua mãe ficou doente, as viagens, que fazia, por vezes acompanhada dos filhos, tornaram-se mais frequentes – de três em três meses –, até que esta faleceu, já com 91 anos.

Agora, as visitas ao país indiano são muito mais esporádicas e servem essencialmente para tratar de assuntos relacionados com a herança deixada pelos pais e pelo irmão, entretanto também falecido. São viagens curtas, em que Noémia Castelo-Branco aproveita para visitar as sepulturas dos familiares e para visitar alguns amigos e a única prima que por lá se mantém.

Há mais de cinco décadas em Portugal, Noémia Castelo-Branco diz sentir-se mais portuguesa que goesa. No entanto, reforça: “É lá que estão as minhas raízes. Ainda é a minha terra”.

De goesa diz guardar principalmente o espírito de sacrifício e a dedicação extrema à educação e à aprendizagem. Talvez por isso, refere ter sido sempre exigente, no que diz respeito aos estudos e ao trabalho, tanto consigo mesmo como com os quatro filhos: Manuel (50 anos), Miguel (48 anos), Noémia (47 anos) e Gonçalo (38 anos).

Com efeito, é com grande orgulho que fala dos filhos, todos eles reputados nas suas carreiras profissionais e, curiosamente, nenhum ligado à Matemática. Manuel Castelo- Branco é presidente do Instituto Superior de Contabilidade de Coimbra (ISCAC) e advogado como o pai; Miguel Castelo-Branco é professor de Medicina na Universidade de Coimbra e director do Instituto Biomédico de Investigação de Luz e Imagem (IBILI ) e do Instituto de Ciências Nucleares Aplicadas à Saúde (ICNAS); Noémia Castelo-Branco é médica especialista do Instituto Português de Oncologia de Coimbra; e Gonçalo Castelo-Branco é professor universitário e cientista sénior na Suécia.

Em comum, afirma a professora de matemática, têm não só a inteligência, mas “essencialmente uma grande capacidade de trabalho”. “É feitio, parece-me. Nesta família somos todos parecidos, ou seja, queremos fazer montes de coisas ao mesmo tempo. Torna-se cansativo para os outros”, sublinha.

A nossa entrevistada diz-nos que, tal como os seus pais, sempre foi rigorosa com os filhos: “Havia tempo para brincar mas não se faltava a uma aula e não se descansava antes de fazer todos os trabalhos de casa”. Se pudesse voltar atrás, assume que talvez fosse “menos rígida. Dar-lhes-ia uma educação mais europeia, mas talvez eles não fossem como são hoje”.

Quando pensa como poderia ter sido o seu futuro se tivesse regressado à Índia, como era esperado, Noémia Castelo-Branco é peremptória: “Penso que não me adaptaria. Certamente que teria casado por conveniência e ficado por lá, mas já não me adaptaria”. Mas como o presente não se faz de “ses”, é junto do marido, dos quatro filhos e dos cinco netos que vai aproveitando o dia-a-dia, vivendo com entusiasmo e sorrindo, sorrindo muito.

Actualmente com 74 anos, os seus dias são passados entre leituras – lê principalmente livros sobre Goa, onde vai tentando descobrir mais sobre os seus antepassados; cuida do marido, entretanto aposentado da sua carreira de advogado, e dá explicações de Matemática, o “bichinho” que ainda diz ter bem vivo dentro de si: “Enquanto dou explicações esqueço-me dos problemas. É assim que sou feliz”

Autor: Redacção (Carolina Leitão)