Baga Lady: uma mulher no mundo dos vinhos

Caroline Zagalo tem 29 anos mas um percurso profissional na área da restauração já bem recheado. Actualmente escanção e sub chefe do Hotel Quinta das Lágrimas, esta jovem, natural de França mas que cresceu em Seixo de Mira, sabe bem aquilo que quer e também sabe bem daquilo que fala, principalmente se o assunto forem vinhos.

Para esta entrevista a escanção recebeu-nos naquela que é a sua segunda casa, a Quinta das Lágrimas, e falou-nos da adolescência, altura em que começou a trabalhar numa pastelaria no Verão, até à actualidade, em que, recentemente, se tornou a responsável por uma equipa de restauração jovem e dinâmica e por orientar os clientes na escolha dos melhores néctares para acompanhar uma refeição.

Trabalhar no ramo da hotelaria nunca foi um sonho para Caroline Zagalo. Na verdade, tudo se desenrolou quase por coincidência: “Desde cedo que comecei a trabalhar na pastelaria Doce Dia, na Praia de Mira, mas inicialmente nem pensava continuar na área. Tinha terminado o 9.º ano e até ponderava estudar Biologia mas comecei a pensar nas saídas profissionais e, como, entretanto, percebi que poderia gostar de hotelaria, decidi ir para a Escola de Hotelaria e Turismo de Coimbra tirar o 12.º ano, na vertente de Restaurante e Bar”.

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E foi durante o curso que teve o seu primeiro contacto com o mundo dos vinhos, numa disciplina de enologia. “Nessa disciplina aprendíamos as bases da enologia, os diferentes aromas, etc… Foi aí que percebi, finalmente, que o facto de ter um nariz grande não era coincidência. Afinal tinha um talento natural para identificar muitos aromas”; refere, divertida.

Depois do curso, Caroline Zagalo fez um estágio na Quinta das Lágrimas e depois foi trabalhar para o Real, na sua terra Natal. “Foi uma verdadeira escola, que me permitiu aprender a saber estar e saber lidar com os clientes”. Pelo meio fazia ainda serviços de casamentos.

Com 22 anos, a jovem decide voltar para os bancos da escola. De regresso à EHTC, tira Gestão de Eventos e reúne-se com antigos formadores e colegas. “E, nessa fase, volto a sentir o bichinho de Coimbra”, sublinha. No final do curso, através do chef Paulo Pechorro, começa a trabalhar em part-time na Quinta das Lágrimas. E começava assim a sua primeira aventura “mais a sério” no emblemático hotel, onde agora se sente como peixe na água.

“Nessa altura já o chef Pechorro me tinha dado alguma formação sobre vinhos e eu comecei a interessar-me mais e mais pela área”. Quando soube que o curso de Escanção ia abrir na Escola de Hotelaria não hesitou e inscreveu-se. Estávamos em 2011 e desde então a paixão e o interesse por vinhos foi sempre aumentando.

Pela Quinta das Lágrimas o seu percurso também tem sido assim: sempre a aumentar, mas a nível de responsabilidade. Com efeito, embora tenha começado em part-time, no serviço de mesas, actualmente Caroline Zagalo é sub-chefe de sala e escanção dos vários restaurantes do hotel, um cargo que, segundo explica, tem tanto de exigente como de motivante.

“Não é fácil. Nesta profissão, temos que abdicar muito da nossa vida e do nosso tempo. Temos que estar sempre a aprender e a mostrar o nosso trabalho constantemente, indo e dando formações”, explica-nos

A nível pessoal, o desafio não é menor: “O tempo é muito controlado. Temos que estudar, ir a eventos, reunir com produtores. Ou seja, é necessário um grande poder de organização, que nem toda a gente compreende”.

Mas afinal o que é ser escanção?

“Um escanção é a pessoa responsável pelo serviço do vinho, ou seja, aconselha aos clientes sobre o melhor vinho para acompanhar determinada comida. Também participa em prova de vinhos, por vezes como júri, e representa produtores”, explica.

A profissão de escanção completa Caroline Zagalo, que refere que a melhor parte é “ver como o cliente fica maravilhado com os vinhos que lhe apresentamos, mas também o carinho que alguns produtores têm por mim. É também muito bom sentir que fazemos um trabalho diferenciado, em que às vezes se arrisca, como por exemplo quando meti um vinho do porto a meio de uma refeição, ou apresentei, para um jantar, uma carta apenas com espumantes”.

Por outro lado, a maior dificuldade, diz, é ser mulher. “Este ainda é um mundo dos homens e para muitos é difícil respeitar e aceitar que uma mulher pode perceber mais de vinhos do que eles. Mas as coisas estão a mudar e as escanções portuguesas já começam a dar cartas”, afirma veemente, explicando, que, aquilo que é necessário “é que as mulheres sejam mais seguras de si e se reinventem”.

Na verdade, segurança parece-nos ser algo que não falta à escanção. Durante a longa conversa com o AuriNegra, Caroline Zagalo falou-nos de vinhos, como se fossem os seus melhores amigos. Ainda assim, nisto dos vinhos, também ela tem os seus preferidos. “Sou apaixonada pelos vinhos da Bairrada. Acho que não podia ser de outra forma, pois é uma região muito diversificada a nível de produtos vínicos. Na Bairrada temos de tudo, desde vinhos, a espumantes, passando pelas aguardentes. De vinhos jovens a vinhos velhos. É uma região que me preenche”.

Para a escanção, falar da Bairrada é inevitavelmente falar também da Baga, a casta rainha da região. “É maravilhosa e, ainda que seja uma casta caprichosa, e por isso mais susceptível, é cheia de potencial”, partilha.

Como forma de homenagear a região bairradina e levar o papel de escanção mais longe, Caroline Zagalo juntou-se à colega Vera Oliveira e criou o projecto Baga Ladies. “É um projecto que começou há algum tempo mas que só há dois anos é que ganhou mais ‘vida’. O nosso papel é ir a eventos, servir e falar de vinhos. Temos participado em várias iniciativas da Rota da Bairrada e a aceitação tem sido muito boa”. Seguras, bonitas e sempre munidas do sapato cor-de-rosa – a imagem de marca das Baga Ladies, Caroline e Vera pretendem ainda motivar as mulheres a investirem nesta actividade “e se sentirem mais à vontade para beber, falar e comprar vinho”.

Embora prefira “viver um dia de cada vez”, futuramente, a jovem seixense, imagina-se a continuar ligada ao mundo dos vinhos. A dar formações e workshops – “e a ensinar quem se interessa por esta área”, investir no projecto Baga Ladies, “criar um grupo de prova/formação onde as mulheres se possam sentir mais familiarizadas com o vinho”, e, quem sabe, alcançar voos mais altos, e trabalhar com um produtor, “mas sem nunca esquecer os meus ninhos, que foram a Escola de Hotelaria e a Quinta das Lágrimas”.