Avatar digital: uma promessa de vida eterna?

Depois do filme “Her” do Spike Jonze – um sistema operacional com voz feminina (e não é por acaso) – a sensação de que é perfeitamente possível ‘conviver’ diariamente com um software, ainda que o tema não deva ser apresentado desta maneira (pouco rigorosa), tornou-se mais próxima. O modo como esta tecnologia invade o quotidiano, introduzindo um certo hiper-realismo digital (exposto na curta-metragem Hyper-Reality), esquece a complexidade comportamental do ser humano, substituindo a noção de ‘humano’ pela noção de ‘usuário’.

Fazendo a ponte para um contexto histórico-filosófico específico seria interessante relembrar o legado aristotélico, na medida em que nos levaria a assumir que estamos a conduzir para/ (n)o limite da própria desontologização de categorias classificativas, como é o caso da ‘substância’, da ‘relação’, do ‘tempo’, ou até, da própria ‘paixão’ (por exemplo).

Os romances não realísticos, quase que poéticos entre humanos e sistemas operacionais transmitem uma de muitas utopias de que tudo estará ao seu dispor por um preço; a própria ideia absolutista de que uma certa tecnologia pode ajudar as pessoas a lidar com um sofrimento profundo (p. ex. ‘luto patológico’) pode tornar-se perversa. Esta perversão aparece espelhada através de uma interação simulada que me leva a retomar, mais uma vez, o cenário paralelo da série Black Mirror no episódio “Be Right Back”:

1 – Martha (Haley Atwell) perde o marido – Ash (Domhnall Gleeson);

2 – Uma amiga de Martha sugere que esta experimente um chatterbot;

3 – Martha na tentativa de lidar com o seu sofrimento, decide experimentar a app., fazendo upload de toda a informação digital que guardava de Ash;

4 – Rapidamente, a empresa de IA oferece a possibilidade a Martha de receber um upgrade do software através de uma versão física do seu falecido marido em IA.

Ocorre-me, assim, a oportunidade para falar sobre uma app. não ficcional – a Replika (https://replika.ai/): mais uma tecnologia emergente que diz ter a capacidade de criar uma personalidade baseada na sua memória artificial. Trata-se de um chatterbot: um programa de computador que simula a conversação de um ser humano. E sim, o/a conceito/noção de personalidade e memória artificial mereciam que lhes dedicássemos um outro tipo de reflexão (cuidada). Contudo, interessa aqui pensar numa das possíveis consequências proveniente desta app. que, após a recolha de informação, tem como finalidade assumir por si uma conversação com os/as seus/as amigos/as.

O Replika ainda que peça para se ligar às suas redes sociais, não solicita o upload de emails e mensagens privadas como acontece no episódio “Be Right Back”, mas sugere-nos a naturalização da ideia de que retomar uma ligação programada computacionalmente com o avatar digital de uma pessoa que faleceu é o próximo passo. Convém perguntar quanto antes: o que é isto de um monumento digital – por si – só fomentar a ideia de que se está a falar com uma pessoa falecida? Será assim tão atrativa a ideia de interagir com a versão digital de uma pessoa morta?

Falar de um avatar digital imortal representado pela app. da Eterni.me http://eterni.me/ – aplica a noção de in-finito ao contexto digital, anunciado a preservação de memórias e ideias ao bom estilo de um argumento prometaico e ignorando toda uma tradição secular em torno da perceção popular sobre o tema da morte e da dor, no fundo, do tempo. Acredito que o mais importante esteja no ato de informar que tudo se passa em torno de coletar a sua pegada digital através de redes como o Facebook, Twitter, LinkedIn, Instagram e criar – através de algoritmos de inteligência artificial – um avatar que traduz uma personalidade virtual.

O reconhecimento da necessidade desta informação é essencial para acompanhar o desenvolvimento da própria tecnologia, pois quando se fala de sofrimento na era digital não é suposto ignorar que este dito sofrimento ainda não é, por si só, digital.

Lia Raquel Neves

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