Avaliar o passado, preparar o futuro

Chegados que estamos ao final de 2016 e ao início de 2017 é tempo de balanços e de previsões, de olhares para o passado e de desejos para o futuro.

É certo que há quem pense que olhar para o passado é uma perda de tempo, uma atitude saudosista e inconsequente.

A verdade, porém, é que, como alguém comentou, até mesmo quando se está a acabar de escrever a palavra futuro, as duas primeiras sílabas já são passado. E se não fossem essas sílabas a suportá-la, a palavra não chegaria nunca a existir.

O mesmo se passa com o futuro. Se não o alicerçarmos no passado, ele corre sérios riscos de insegurança, de instabilidade.

Olhemos, pois, para o passado recente, antes de nos virarmos para o futuro.

Atendendo ao espaço e ao tempo, vou cingir-me apenas ao nosso País.

Como correu este ano que está a chegar ao fim?

Penso que um observador atento e imparcial terá de reconhecer que, apesar de todas as dificuldades, não obstante a grande quantidade de problemas, este ano correu, globalmente, muito melhor do que todos esperavam.

Sobretudo quando muitos profetas da desgraça anunciavam que vinha aí a tragédia, que se aproximava o cataclismo, que estávamos condenados ao fracasso…

A verdade é que os astros (para os que acreditam em astrologia), os deuses (para quem é crente) ou os seres humanos (para quem é mais céptico), conjugaram-se de forma positiva, contrariando as profecias e impedindo as catástrofes.

Depois de um ciclo de desânimo, de angústia, de desespero, de pessimismo, 2016 trouxe uma aragem de moderado optimismo, de esperança, de estímulo, de entusiasmo.

Como que a simbolizar essa mudança de rumo, até no desporto as coisas correram muito bem às cores nacionais, com destaque para um facto inédito que surpreendeu toda a gente: a conquista do Campeonato Europeu de Futebol (modalidade, aliás, em que o português Cristiano Ronaldo voltou agora a ser considerado o melhor do Mundo).

Mas ainda maior destaque merece o feito de outro português, António Guterres: foi eleito para o mais relevante cargo internacional, o de Secretário-Geral da ONU (Organização das Nações Unidas). E eleito num processo verdadeiramente exemplar, onde os seus muitos e enormes méritos superaram todos os “cozinhados” que tentaram fazer para que a escolha recaísse sobre uma mulher e de um país de Leste.

Claro que também houve muitas coisas que, ao longo de 2016, correram mal. É notório, infelizmente, que a maior parte das famílias continua a lutar com enormes dificuldades.

Mas, numa apreciação objectiva, creio que todos concordarão que se respira melhor, que se anda com maior leveza, que já se consegue encarar o futuro esboçando um sorriso esperançoso – quando antes apenas se via, na maior parte dos portugueses, um rosto crispado e apreensivo, um espírito pessimista e desanimado…

É justo reconhecer que para esta nova fase muito contribuiu a conjugação de dois factores: a maneira de ser e a forma de estar do novo Presidente da República; e a composição, o apoio parlamentar e o projecto político do novo Governo.

Relativamente a Marcelo Rebelo de Sousa, quando se pensa que já mais nada poderá fazer de imprevisto, eis que ele volta a surpreender tudo e todos. Por onde passa deixa um ambiente distendido, distribui sorrisos e beijinhos, oferece selfies e abraços, faz discursos optimistas, promove o diálogo, estimula consensos.

No que concerne ao Governo, e independentemente de convicções partidárias, penso que é injusto que se chame “geringonça” a um Executivo que, contrariando as previsões, tem funcionado. Um Governo que tem vindo a tentar cumprir o que prometeu, que tem atenuado as dificuldades com que os portugueses se debatiam e tem vindo a relançar a esperança. Um Primeiro Ministro que, além de conseguir uma coabitação exemplar com o Presidente da República e as outras instituições, se tem mostrado exímio a gerir a estreita margem de manobra de que dispõe para chefiar um Governo assente em complexos e melindrosos acordos com os partidos mais à esquerda.

Se a conjuntura continuar a ser favorável, como se deseja, se a confluência de vontades persistir, se a flexibilidade de entendimentos perdurar, então acho que temos fundados motivos para encarar o ano de 2017 com mais optimismo do que o fazíamos há um ano por esta mesma altura.

E é isso, seguramente, que todas as pessoas de bom senso desejam, independentemente de convicções partidárias, de credos religiosos, de fervores clubistas, de simpatias (ou antipatias…) pessoais.

Em nome da pequena mas esforçada equipa que produz o AuriNegra, endereço a todos os Leitores, Assinantes e Anunciantes, e respectivas Famílias, calorosos votos de Boas Festas e de um excelente ano de 2017!