As várias faces do desporto

Para a maior parte dos órgãos de comunicação social, tratar de desporto é, quase sempre, falar de futebol, analisar o futebol, entrevistar quem anda no futebol, criticar quem treina futebol ou quem arbitra jogos de futebol, dissecar as tricas relacionadas com jogadores, treinadores, e também, nos últimos tempos, com presidentes e “directores de comunicação” de clubes de futebol.

As televisões, então, enfermam de uma grave “futebolite aguda” (ou paranoia futebolística), que leva a que haja dias em que todos os principais canais estejam, horas a fio, com programas dedicados ao futebol, onde comentadores “profissionais” vão debitando umas tretas, não raro quase se insultando, provocando divisões e estimulando quezílias. Enfim, dando péssimos exemplos e denotando falta de desportivismo – o que, muitas vezes, tem como consequência condenáveis actos de falta de civismo a que se assiste nos estádios e à volta deles.

Mal vai a comunicação social, mal vai o País, quando, como há dias sucedeu, quase todas as televisões, quase todas as rádios, quase todos os jornais, elegeram como notícia do dia a “birra” arrogante do presidente do Sporting – que mereceu longas reportagens em directo e aberturas de telejornais (ironicamente, pouco depois era o dito dirigente a exortar os sportinguistas a não lerem jornais nem verem televisão, excepto o canal do clube…).

Ora o desporto não é isto! Pelo contrário, é algo completamente diferente.

Algo que as televisões quase nunca mostram, de que as rádios poucas vezes falam e que raramente aparece nas páginas dos jornais, mas de que há muitos e bons exemplos de Norte a Sul do País.

Aqui mesmo, em Febres, temos um desses exemplos, com a Secção de Atletismo da Gira Sol, que há vários anos vem desenvolvendo um notável trabalho, com atletas seus a competir, em pé de igualdade, com campeões nacionais dos grandes clubes.

Mas há muitos mais casos que mereciam grandes reportagens e elogios públicos, mas cujos protagonistas acabam por ficar, quase sempre, no esquecimento da comunicação social.

É desse conjunto de casos meritórios que hoje quero extrair um outro magnífico exemplo de um atleta desta região que acaba de juntar mais um título nacional a uma já longa e vitoriosa carreira. Refiro-me a Vítor Pleno, que há dias revalidou o título de campeão nacional de cross longo (como noticiamos mais à frente, na página 16 desta edição).

Trata-se de um atleta da APPACDM (Associação Portuguesa de Pais e Amigos do Cidadão Deficiente Mental) de Coimbra, que ostenta títulos de Campeão do Mundo, Europeu e Nacional.

O mais extraordinário é que para este atleta, de 32 anos, o desporto é uma actividade complementar. A sua verdadeira profissão é a de padeiro, na Tocha, um trabalho que lhe ocupa grande parte da noite em cada um dos dias de cada semana. Tem também uma vida familiar, com mulher e um filho pequeno.

Pois, apesar disso, roubando horas ao descanso, diariamente ruma a Coimbra para treinos duros e rigorosos, que lhe permitem alcançar os excepcionais resultados nas provas que disputa.

E, no fim dos treinos, regressa à sua terra e a mais uma jornada de trabalho como padeiro, pela madrugada adiante.

Há praticantes de outras modalidades, sobretudo de futebol, que trabalham muito menos, que treinam muito menos, mas que ganham muitíssimo mais. Alguns auferem mesmo somas “astronómicas”, não se percebe muito bem como, nem porquê…

Ora qual é o grande sonho do campeão Vítor Pleno? Não é um iate, um Ferrari, apartamentos de luxo, jóias, viagens milionárias – como costuma suceder com destacados futebolistas.

O sonho deste atleta é conseguir chegar aos Jogos Paralímpicos.

Pois oxalá consiga concretizar esse sonho e, se lá chegar, conquiste as medalhas a que tiver direito.

Mas se isso não suceder, creio que o Vítor Pleno já faz jus a um título dourado e à admiração de todos nós, ganha, com insuperável esforço, na dura competição que todos os dias trava contra o tempo, contra o cansaço, contra o comodismo, conciliando, com êxito, o papel de operário, de atleta e de pai de família.

Enfim, um grande atleta e um cidadão exemplar – que bem merece que a vida lhe conceda tudo o que deseja!

Autor: Jorge Castilho (Director do AuriNegra)