As migas dos Caramelos

Fui em busca de um homem que demandou a Borda-d’água. É que eu queria acrescentar ao sabor destas migas de hoje este outro, que me permitisse saber como tudo era e acontecia por esse tempo, por aquele tempo em que os nossos homens a quem chamavam Caramelos, partiam para as Lezírias do Ribatejo, a dita região da Borda-d´água, uma expressão que depois tornaram mais abrangente quando iam para as terras do Sado e de Setúbal igualmente para as culturas do arroz e da vinha e por lá andavam quantas vezes mais de meio ano sem virem a casa.

Manuel Rama, hoje com 68 anos, nasceu nos Resgatados e com 14 integrou um rancho de homens recrutados na sua terra. Daqui e de outros lados mais crianças partiram, entregues ao capataz, e tinham como principal função distribuir água pelos trabalhadores, uma missão que não era fácil, pois chegavam a andar quilómetros cada vez que ouviam o grito: “Oh augadeiro, traz cá auga”.

Na sua memória está bem viva a primeira viagem com aqueles seus conterrâneos saídos da estação de Arazede até à Pampilhosa e daqui para Santa Apolónia. Com eles foram os parcos haveres de que dispunham, sendo os mais importantes os utensílios de trabalho: as enxadas, as tesouras e os serrotes de poda.

Manuel Rama lembra-se que nessa sua primeira viagem levaram para além das batatas, dos coiratos, do unto de sal e da farinha, também dez caixas de sardinha, sardinha salgada evidentemente, que teve de dar até ao fim da safra.

Quando chegaram a Lisboa, tinham a esperá-los umas carroças puxadas por mulas, que os conduziram até ao Cais do Sodré, onde atravessaram o Tejo para a outra banda. Uma vez chegados, lá estavam outras carroças iguais, que acabaram por os transportar até às herdades onde eram destinados.

Na altura, todos ficavam instalados em barracões onde dormiam quase sempre no chão, ou em tarimbas, em cima de esteiras que eles próprios faziam, pois o bunho abundava por ali. Quanto à comida, a que eles chamavam caldeira aberta, ela era sempre confeccionada do lado de fora daquelas instalações para todos os homens do rancho, com lenha que eles próprios por ali apanhavam.

Trabalhavam de sol a sol os sete dias da semana com excepção apenas do dia de Natal, do Ano Novo e da Páscoa. Só mais tarde começaram a folgar aos domingos, se os afazeres o permitia.

As quintas ou herdades onde laboravam e  pernoitavam estavam sempre afastados dos aglomerados populacionais e Manuel Rama confessa nunca por lá ter visto os donos, e que eram os capatazes quem mandava! E disse que faziam tudo para regressar em Julho, por forma a estarem cá no dia 24, que era a festa do S. Tomé da Ferreira, e que a alegria por esse regresso era tal que mal saíam do combóio deitavam foguetes! Quanto às migas, aquelas que se reportam aos primeiros tempos dos caramelos, a sua confecção assentava essencialmente na farinha cozida a que se juntava azeite, alho frito, banha e pão rijo que acompanhavam com sardinha assada.

Com os tempos, a sua confecção evoluiu e esta outra receita é hoje o testemunho deste manjar da nossa Gândara: “Cozem-se as batatas descascadas aos cubos e guarda-se a água. Num tacho coloca-se o pão duro partido aos bocados, juntam-se as batatas e vai-se mexendo adicionando a água das batatas (q.b.), até tudo estar envolvido e feito numa bola. À parte, numa frigideira coloca-se bastante azeite e muito alho partido aos bocadinhos deixando-o aloirar. Volta-se a envolver tudo. Acompanha com bacalhau frito. Para mexer/envolver/misturar as batatas, o pão e o azeite é usado um utensílio de pau que se faz artesanalmente, tipo calcão e que é conhecido pelo nome de giribira.

Autor: António Castelo Branco