Aprender a programar

É de pequenino que se torce o pepino, lá refere o ditado, que em Mira é levado bem a sério, pelo menos no que diz respeito à programação.

No Agrupamento de Escolas de Mira, programar é para todas as idades, mais concretamente desde a idade pré-escolar até ao Ensino Secundário. Há dez anos que existe um Clube de Robótica no Agrupamento, um projecto autónomo na escola mas que tem recebido vários prémios, entre os quais o de dança do concurso nacional Robot Party, assim como uma grande aceitação por parte dos alunos.

Orientado pelos professores Ricardo Pinto e Carlos Alves, o Clube de Robótica, com sede na Escola Secundária de Mira, conta com uma dezena de jovens que, todas as quartas-feiras, dedicam algum do seu tempo à programação e à robótica mas também ao convívio saudável e à partilha de conhecimentos.

Neste clube, segundo Carlos Alves, ensinam-se “os primeiros passos de robótica aos alunos mais jovens” que têm vindo a aceitar o desafio com entusiasmo. Ricardo Pinto complementa: “Como é algo que não é obrigatório, são eles que escolhem vir e, por isso, acabam por estar sempre motivados e gostam bastante porque, acima de tudo, é algo diferente”.

“Vendo bem, é uma forma divertida destes alunos aprenderem electrónica, programação e mecânica”, frisa o professor da área das tecnologias, acrescentando que aquilo que aprendem pode depois ser demonstrado na Robot Party, uma das maiores competições de robótica da Europa, organizada pela Universidade do Minho, e que este ano juntou mais de 500 estudantes de todo o País.

André Domingues é um dos elementos do Clube de Robótica que no passado dia 5 de Março trouxe para casa o Prémio de Dança. No clube há dois anos, o aluno do 11.º refere que o gosto pela informática vem de há vários anos. “Por isso, quando o professor Ricardo me falou do Clube vim experimentar e fiquei”.

Pelo segundo ano consecutivo a participar na RobotParty, foi com muita felicidade que o jovem estudante recebeu a notícia da vitória na categoria de dança: “Apesar de não irmos ali pela competição em si, é uma sensação muito boa ver reconhecido o nosso trabalho. Para além disso, aquilo é um evento importante, porque conhecem-se outras pessoas, temos acesso a workshops, tem música, animação, um pouco de tudo”.

A mesma sensação é partilhada por Francisco Parada, aluno de Ciências e Tecnologias entretanto rendido também à programação e aos robots. Apaixonado por música, foi a ele quem coube a missão de fazer a coreografia que os robots Baiane e Cleide – duas “brasileiras” com um cheirinho a Carnaval e com muito jeito para o samba – demonstraram na competição.

“A programação e a robótica dão para unir vários dos meus gostos, o que é bom. A tecnologia sempre me fascinou e estar no clube é positivo pelo bom ambiente que aqui se vive mas também pela possibilidade de aprender diversas coisas. É uma experiência muito enriquecedora”.

Entre os alunos que frequentam o Clube são poucas as raparigas. Nesse dia encontramos apenas Luísa Brito.

“Há outra rapariga que vem às vezes, mas é só”; diz-nos, respondendo timidamente às questões. A aluna do 9.º ano diz que inicialmente nem pretendia frequentar o clube, “mas um dia vim com uns amigos e acabei por gostar e ficar”. Agora, garantem os professores, é das mais assíduas e aquilo que prefere é fazer a montagem dos robots.

“Aqui nem todos têm que gostar do mesmo. Há alunos que preferem programar, outros gostam mais da parte da mecânica… O ideal é a junção dos gostos e das capacidades de cada um e o trabalho de equipa”, frisa Ricardo Pinto.

Dos maiores para os mais pequenos

Há cerca de dois anos o Agrupamento de Mira passou a integrar um projecto-piloto da Direcção Geral de Educação e que passa por levar a programação aos alunos do 1.º ciclo (3.º e 4.º anos).

“Trabalhamos com duzentos alunos, das 8 escolas do concelho”, partilha Ricardo Pinto, mentor da iniciativa “Meninos a programar”, que, com Carlos Alves e Mário Silva, decidiu voltar a dar vida aos computadores Magalhães, oferecidos aos alunos pelo Estado em 2008 e que entretanto mal eram utilizados: “Fizemos uma limpeza aos computadores, muito deles ainda arrumados nas caixas, instalámos um novo Windows e é partir dali que eles programam”, explica o docente.

O objectivo, explicam-nos os dois professores, é “estimular o pensamento computacional destas crianças. Através do programa Scratch – que utiliza uma linguagem fácil e um interface que parece que estamos a brincar com blocos de legos – eles podem criar jogos, animações, histórias ou apenas ilustrar determinadas situações”.

Para ajudar os alunos nestes primeiros passos na programação são utilizados ainda os batráquios, pequenos robots, de fácil utilização, construídos com a ajuda de uma impressora 3D pelos membros do Clube de Robótica.

O balanço feito até ao momento, referem, é muito positivo. “Têm sido resultados brilhantes e os alunos estão muito motivados e sempre à espera das aulas de programação”. Por outro lado, os alunos do Clube de Robótica sentem-se orgulhosos, “pelo seus batráquios terem uma utilidade prática, nisto de levar a programação aos mais pequenos”.

No entanto, e em jeito de crítica, Carlos Alves lamenta apenas que o projecto não tenha uma continuidade. “Temos a introdução da programação no 1.º ciclo, através deste projecto, mas depois há uma lacuna no 5.º e 6.º, porque só no 7.º ano os alunos têm TIC. Cada vez mais, é necessário olhar para a programação e para a robótica como ferramentas essenciais, porque no futuro acredito que tudo será programável”.

Programar desde pequeninos

No dia em que o AuriNegra visitou o Clube de Robótica de Mira, também estava presente Maribel Pinto, professora da Universidade do Minho e responsável por um projecto de pós-doutoramento, na área da Tecnologia Educativa, que quer compreender a reacção das crianças, entre os 3 e os 6 anos, à utilização da tecnologia e da programação.

“A ideia é integrar o robot e os tablets, que estarão nas salas, nas actividades do dia-a-dia. Quando se conta uma história, os tablets podem servir para a animar, usando aplicações que transmitem conceitos básicos de programação”, exemplifica.

O projecto Kids Media Lab tem vindo a ser desenvolvido em cinco distritos (Aveiro, Braga, Coimbra, Porto e Viseu), sendo os jardins-de-infância do concelho de Mira, alguns dos escolhidos para participar no projecto.

“A ideia é criar nestas crianças ‘o bichinho da programação’, desenvolvendo actividades básicas de robótica e programação e estimulando um pensamento computacional, através de um programa que se chama Scratch júnior”, explica-nos a investigadora, que refere contar ainda com a ajuda preciosa de sete robots, em forma de animais, criados especialmente para o projecto.

Com três anos de duração, o projecto, financiado pela (Fundação para a Ciência e Tecnologia), tem tido uma boa adesão: “As crianças adoram os momentos com os robots, porque são momentos dinâmicos, em que aprendem como estes funcionam e interagem numa história que é sempre pensada pelas professoras, de acordo também com o plano curricular”.