António de Lima Fragoso: o artista imortal

Natural da Pocariça, António de Lima Fragoso é um nome incontornável na música clássica e um orgulho não só para o concelho de Cantanhede, mas para todo o País.

No ano em que se celebra o centenário da sua morte, são muitas as iniciativas que vão decorrer de Norte a Sul de Portugal – e não só – e que pretendem evocar (e recordar) o importante trabalho desenvolvido pelo prodigioso músico e compositor, que perdeu a vida demasiado cedo.

Corria o ano de 1918 quando António Fragoso, na altura com 21 anos, sucumbiu ao vírus H1N1, responsável pela pneumónica, ou “gripe espanhola”, que matou milhões de pessoas em todo o Mundo, muitos milhares em Portugal. Da família, apenas um de quatro irmãos sobreviveu à doença, como explica a jornalista Laurinda Alves, numa reportagem do Observador, onde escreve que “na mesma semana, em Outubro de 1918, a família Fragoso viu sair 7 caixões pelas janelas de sua casa. Morreram 4 filhos, mais uma tia, duas primas e uma empregada. Os caixões saíam pelas janelas para que os que permaneciam vivos não se deixassem abater pela tragédia”.

A irmã sobrevivente foi Maria Fernanda, na altura com apenas dois anos, e que definiu como umas das suas prioridades de vida dar a conhecer ao mundo a música do seu irmão António, um desejo que foi seguido mais tarde pelo sobrinho Eduardo Fragoso, que preside à Associação com o nome do compositor.

António Fragoso desde muito cedo começou a revelar grande talento para a música. Com apenas seis anos estreava-se no piano, sob a batuta de António dos Santos Tovim, seu tio e médico em Cantanhede e um homem ligado fortemente à cultura musical.

Segundo Eduardo Fragoso afirmou agora ao Aurinegra, foi por volta dos 12 anos que António Fragoso começou a compor, dando início à obra “Toadas da Minha Aldeia”, que viria a publicar aos 15 anos e a interpretar aos 16, sendo, desde logo, muito aplaudido pela crítica musical.

Com o bichinho da música cada vez mais presente, António Fragoso decide continuar os estudos musicais e, com o apoio dos pais, começa a ter aulas privadas. “Os pais, nessa altura, compraram a única telefonia de que havia memória nesses tempos na freguesia da Pocariça. Ao serão sentavam-se para ouvir em família concertos e recitais”, refere Laurinda Alves.

Embora o pai quisesse que o músico seguisse os estudos na Escola Comercial, o compositor levou a sua avante, e com o curso geral dos liceus e os dois primeiros anos do Curso Superior de Comércio já completados, acabou por se matricular no Conservatório Nacional de Música de Lisboa, onde fez o Curso Superior de Piano – em apenas dois anos – com 20 valores, a classificação máxima.

Eduardo Fragoso recorda que ao longo da sua vida fui apurando o conhecimento  do tio António Fragoso, “primeiro pelas  pessoas que com ele conviveram, como a sua madrinha e minha tia-avó Maria José Fragoso que era sua ‘confidente’ e a primeira que ajuizava sobre as ideias criativas que António lhe pedia para ouvir. Essa tia e madrinha viveu connosco até aos meus 15 anos e foi quem melhor me contou quem era o António Fragoso. E descrevia-o como um jovem muito alegre e amigo dos seus amigos mas que punha sempre acima de tudo a sua família directa: os seus pais, por  quem nutria uma verdadeira veneração,  e os seus irmãos, incluindo a sua pequena irmã Maria Fernanda, de ano e meio”.

Quanto aos colegas e amigos, o sobrinho refere que o caracterizavam António Fragoso como “um virtuoso que muitas vezes punha a amizade acima dos seus próprios interesses. Era amigo e demonstrava-o, como por exemplo com o maestro e violinista Fernando Cabral, a quem fez tudo para conseguir comprar um violino novo, tendo atingido esse fim através de concertos de angariação de fundos. Era amigo e gostava de conviver com os seus mais íntimos e não vinha para a Pocariça sem alguns deles, que passavam aqui as suas férias grandes”.

As informações recolhidas por Laurinda Alves vão ao encontro desta caracterização: “Era alegre, criativo e comunicativo, fazia bons amigos com facilidade e levava-os consigo para a aldeia aos fins-de-semana e nas férias. Com os amigos músicos estudava e tocava até altas horas da noite. No Verão, faziam recitais caseiros, tocados numa casa de janelas sempre abertas, que se tornavam acontecimentos incontornável e vinham pessoas de toda a freguesia e redondezas ouvir os músicos. De tal forma que a estrada que passava perto da casa se enchia de gente de uma ponta à outra. Muitos traziam cadeiras e ali ficavam sentados nas noites de calor em silêncio, a ouvir”.

Durante a adolescência, a carreira de António Fragoso ganha mais impacto e reconhecimento nos círculos culturais do país, tornando-se convidado para concertos públicos, recitais e soirées privadas e “socialmente badaladas”.

“Numa determinada noite foi convidado por uma duquesa para animar a sua soirée. No fim do serão a duquesa entregou-lhe cinco mil reis, que era um cachet enorme. Ele, numa carta a seu pai, contava que com esse dinheiro foi logo de manhã cedo a uma livraria da Rua Augusta e comprou todas as partituras de Ravel, Debussy, Fauré, etc.  E desabafava que tinha comprado todas as partituras que os seus bafientos professores não o deixavam tocar no conservatório”, conta ao AuriNegra Eduardo Fragoso, sublinhando a “genialidade e imortalidade” do seu tio.

“Ainda há dias me dizia um jovem maestro que nos tempos de hoje não seria possível existir alguém com tanta cultura, pois António devorava livros e informação, estudava as vidas dos seus compositores mais queridos e não perdia um concerto que se desse perto dele. Era um jovem interventivo, quer na política, quer na estratégia pedagógica do Conservatório”, frisa Eduardo Fragoso, recordando uma frase do Maestro Pedro de Freitas Branco, que afirma que António Fragoso “tinha a envergadura para se tornar o maior compositor português de todos os tempos. Era um músico intelectual. A sua vincada personalidade impunha-o tanto à nossa admiração, como o seu génio de compositor…e morrer aos vinte e um anos é quase não ter vivido”.

“Partiu cedo demais e no auge de uma carreira que tinha tudo para dar certo”, frisa Eduardo Fragoso, recordando que no seu penúltimo dia de vida, “e já muito febril, António Fragoso resolveu subir para a sala do piano porque desejava muito acabar a “Sonata Inacabada”.  Mas quando chegou ao piano, a sua criatividade era  compreensivelmente nula.  Pegou ao acaso uma partitura da sua estante, abriu-a e tocou aquela que seria a sua última interpretação. Quando terminou de a tocar, levantou-se e dirigiu-se para o seu quarto e faleceu no dia seguinte.  Quando foram ver o que seria tal música, depararam-se com a “A morte de Àse” de Grieg”.

Agora, cem anos depois da morte do compositor, Eduardo Fragoso, o mentor da Associação António Fragoso – criada com o propósito de deixar às novas gerações o seu legado musical e literário – quer mostrar o valor do tio directo e ao mesmo tempo comemorar o centenário da sua morte.

IN MEMORIAM

Assim, durante o ano de 2018 está em curso o ano do centenário, com uma variada programação, intitulada In Memoriam, e que incluirá dezenas de concertos e eventos musicais em Portugal e no estrangeiro, e que terá como um dos momentos mais altos a 14 de Julho, data em que se vai recriar, na casa senhorial da Pocariça, um concerto de janelas abertas. Para além disso, as peças do compositor estão a ser revistas e editadas, “as suas obras literárias serão publicadas e com elas desvendar-se-á a sua personalidade até agora desconhecida, e será editada em quatro ou cinco CD’s  toda a sua obra musical, a de piano, a de canto e piano, a de câmara e a de orquestra.  Talvez neste domínio ainda haja uma surpresa”, deixa em aberto Eduardo Fragoso.

Para o próximo mês de Fevereiro já são várias as iniciativas marcadas. A primeira é já no dia 2, no Auditório Paulo Quintela, em Coimbra, onde será lançado, pelas 19h00, um CD com o integral de piano do professor Aquiles Delle Vigne. No dia 9 é a vez da Figueira da Foz receber, no Museu Municipal, o encerramento do Coimbra World Piano Meeting 2018. No dia 17, é novamente na Figueira que continua o programa In Memoriam, desta vez com um concerto de câmara com o Quarteto de Moscovo,

Para dia 23 de Fevereiro está marcado no auditório do Museu Nacional de Machado de Castro o lançamento de um CD, de Carlos Caramujo (soprano) e do Maestro João Paulo Santos (piano). O mesmo CD é apresentado no dia seguinte (24), no Museu Nacional Soares dos Reis, no Porto.

Autora: Carolina Leitão