Ângela de Oliveira – Mulher e Musa

Costuma dizer-se que “por trás de um grande homem há sempre uma grande mulher”.

E esta é uma frase que tem pleno cabimento no que toca ao escritor Carlos de Oliveira e a sua Mulher.

Maria Ângela Oliveira, uma jovem madeirense que conheceu na Universidade, viria a ser não apenas a companheira de toda a sua vida, mas também a sua musa inspiradora. E, depois da morte de Carlos de Oliveira, foi a mais acérrima defensora e divulgadora da sua obra, quer literária, quer pictórica. Porque, embora esse seja um lado menos conhecido, para além de escritor e de poeta de invulgares méritos, Carlos de Oliveira dedicou-se também à pintura.

Por infeliz coincidência, Ângela Oliveira faleceu no passado dia 15 do corrente mês de Fevereiro, poucos dias antes de ser inaugurada, em Febres, a Casa Carlos de Oliveira, para cuja criação ela muito contribuiu, quer no apoio à ideia, quer na cedência de valioso espólio (como sublinhou o Presidente da Câmara de Cantanhede na cerimónia de inauguração).

Para se avaliar do sentimento de Carlos de Oliveira relativamente a sua Mulher, basta ler um dos muitos poemas que lhe dedicou, este intitulado “Carta a Ângela”:

Para ti, meu amor, é cada sonho
de todas as palavras que escrever,
cada imagem de luz e de futuro,
cada dia dos dias que viver.

Os abismos das coisas, quem os nega,
se em nós abertos inda em nós persistem?
Quantas vezes os versos que te dou
na água dos teus olhos é que existem!

Quantas vezes chorando te alcancei
e em lágrimas de sombra nos perdemos!
As mesmas que contigo regressei
ao ritmo da vida que escolhemos!

Mais humana da terra dos caminhos
e mais certa, dos erros cometidos,
foste de novo, e sempre, a mão da esperança
nos meus versos errantes e perdidos.

Transpondo os versos vieste à minha vida
e um rio abriu-se onde era areia e dor.
Porque chegaste à hora prometida
aqui te deixo tudo, meu amor!

Na obra de Carlos de Oliveira há outros poemas igualmente inspirados pela Mulher que conheceu nos bancos da Universidade de Coimbra e com quem casou em 1949, e à qual se refere, por vezes, com anagramas – como “Geelna”, em “O Aprendiz de Feiticeiro”; ou “Anne Gall”, a quem dedica em “Pastoral” (o último dos seus livros de poesia) o poema “Chave”:

Rodar a chave do poema

E fecharmo-nos no seu fulgor

Por sobre o vale glaciar. Reler

O frio recordado.

Ângela é, pois, uma personagem presente na obra de Carlos de Oliveira, de forma mais ou menos explícita, mas que o poeta compara a um anjo protector.

Aliás, para além dos poemas e das alusões na prosa, Ângela foi também inspiração para o pintor Carlos de Oliveira, que a retratou em tela.

Uma sua Amiga, a dr.ª Ana Teodósio, diz ao AuriNegra que Ângela Oliveira era uma pessoa discreta e confirma que se tratou da musa inspiradora do escritor.

Quando lhe perguntamos o que recorda dela, afirma:

“O que recordo? Conversas, sorrisos (ela sorria como se o sol lhe passasse nos olhos), leituras, o gosto de me ouvir dizer poesia, toda a poesia, embora a poesia do Carlos de Oliveira a enternecesse particularmente. Era uma mulher tranquila, suave, comprometida. Gostava muito dela. Havia uma visita combinada que não aconteceu e que já não vai acontecer. Mas sempre que me derem as saudades, sei que a vou encontrar dentro de um daqueles poemas que o Carlos lhe dedicou”.

Para além das ofertas que fez à Casa Carlos de Oliveira, em Febres, Ângela de Oliveira doou grande parte do espólio ao Museu do Neorealismo, situado em Vila Franca de Xira.

Mas Ângela de Oliveira não se limitava a divulgar a obra do Marido, antes teve uma intensa actividade cultural, tendo sido, por exemplo, uma das fundadoras da Casa da Achada – Centro Mário Dionísio, em Lisboa para além das tertúlias com figuras das artes e das letras na sua própria casa, na Avenida Praia da Vitória, na capital.

A casa onde viveu durante 35 anos após a morte de Carlos de Oliveira, rodeada de memórias do escritor, poeta e pintor.