Ançã tem um presépio muito especial

A Vila de Ançã é um dos pontos obrigatórios de passagem nesta época natalícia. Até dia 6 de Janeiro, a sede da Junta de Freguesia local acolhe um impressionante e mágico presépio que mistura tradição, actualidade e, acima de tudo, uma grande paixão… Tudo isto pelas mãos de Eduardo Azevedo, que conversou com o AuriNegra numa destas tardes frias de Dezembro.

Aos 74 anos, “quase 75”, o sotaque não engana. Eduardo Azevedo pode estar estabelecido em Ançã hã mais de cinco décadas, mas as suas raízes são insulares: “Nasci no Funchal, Madeira, numa família muito humilde. O meu pai era carpinteiro e nós eramos sete irmãos”; começa por explicar.

Ao lado da casa onde nasceu estava o colégio dos Salesianos, para onde entrou com 5 anos e onde conheceu o prazer e a arte de fazer presépios. “O meu primeiro presépio foi logo assim que entrei para o colégio. Era uma tradição que nunca falhava e eu, desde cedo, comecei a tomar-lhe o gosto. Na altura fazíamos já um grande presépio aberto ao público, que era visitado pelas tripulações dos barcos, que deixavam sempre alguns donativos”. O jeito para os trabalhos manuais e bricolage já era algum mas foi aprimorando no colégio, “onde, ao contrário do que acontece nas escolas de hoje em dia, aprendíamos praticamente todos os ofícios”.

Eduardo Azevedo acabou por tornar-se mecânico de camiões, profissão que exerceu durante décadas, já do lado de cá do Atlântico, onde casou. À pergunta como um madeirense veio parar a Ançã, o artesão é directo e célere: “Foi por amor”. Na altura de fazer o serviço militar foi enviado para a Figueira da Foz e foi aí que conheceu a sua madrinha de guerra – natural de Ançã e filha de uma boleira – e que, pouco tempo depois, viria a ser a sua esposa e mãe dos seus dois filhos.

Por cá foi ficando e actualmente já se sente, em parte, também ançanense. O que nunca foi esquecendo foi o seu gosto pelos presépios. Chegou a montar um presépio em Covões e também chegou a levar a sua arte à Madeira, na altura da tragédia das derrocadas em Serra da Água. Este que está em Ançã era para estar em Pedrogão Grande, “até porque a temática são os incêndios, mas houve uns problemas e não aconteceu”. Após seis meses de projecto e preparação, a oportunidade para mostrar o presépio em Ançã surgiu de Cláudio Cardoso, Presidente da Junta de Freguesia. Eduardo aceitou e apesar da cada vez mais débil saúde – tem que usar diariamente uma máquina de oxigénio – é com regozijo que recebe todos os que querem visitar o seu presépio.

A apoiar está a Junta de Freguesia para quem “é uma grande honra receber o trabalho do senhor Eduardo. São coisas como estas que enriquecem muito a vila de Ançã”.

Aberto ao público geral ao fim-de-semana e durante a semana para visitas de grupo (apenas por marcação), o presépio conta com centenas de figuras e mais de uma dezena de maquetes de igrejas, casas, capelas, entre outros.

As sete variedades de luzes ajudam a dar ao cenário um cheirinho ainda mais especial a Natal e também mais vida. Mas não se julgue que neste presépio é a perfeição que reina. “Quis trazer um bocado de actualidade e de realidade ao presépio e, como tal, escolhi retratar os incêndios que afectaram tão gravemente Portugal nos últimos dois anos. Assim, de um lado temos duas encostas queimadas e terrenos sem vegetação. Do outro já temos uma replantação, mas nada de eucaliptos. Temos pinheiros, carvalhos e outras árvores portuguesas”.

Ao todo foram necessárias três semanas para montar o presépio no local, onde Eduardo usou materiais como o barro, ferro, a imprescindível pedra de Ançã mas também pevides e até tremoços. Como “duendes” contou com mais seis pessoas, “uma equipa maravilha, onde o mais velho tinha 87 anos e o mais novo seis”.

Do lado oposto da sala está outro trabalho muito especial. “A primeira vez que vim a Ançã, na fase do namoro, a minha mulher quis-me levar a ver a fonte, e eu disse que um dia a haveria de recriar num presépio. Agora realizei esse desejo e tenho aqui recriada a fonte com a procissão do Senhor da Fonte, que conta com cerca de 80 peças feitas especialmente para o efeito e maquetas à base de canas de foguetes, caixas de morangos, entre outros materiais”.

Figura a figura, Eduardo vai-nos explicando a história deste presépio, com a mesma dedicação com que vai mostrando também a quem visita a Junta de Freguesia por estes dias. E têm sido dias bem concorridos: “Temos recebido Centros de dias, escolas e particulares”. Sem folgas – mesmo no dia de Natal vai estar com o presépio aberto das 15h00 às 19h00 – este projecto ganha ainda mais valor porque tem um cariz solidário: “Quis que isto tivesse um significado ainda mais especial e por isso, os donativos que as pessoas derem serão entregues à Liga Portuguesa Contra o Cancro”.

Texto e fotos: Carolina Leitão