Amor a toda a prova

O combinado era uma conversa breve, mas assim que Luís Isidoro começou a falar percebemos que havia muito mais para contar e também para ouvir. Desde a luta pelo seu verdadeiro e único amor, até aos anos na pesca do bacalhau… Luís Isidoro não fez cerimónias e abriu ao AuriNegra o livro da sua interessante vida

Luís Isidoro nasceu em Mira no ano de 1946 no seio de uma família humilde mas trabalhadora. O seu pai era funcionário dos Serviços Florestais de Mira e a mãe, para além de se dedicar à agricultura, era ainda empregada doméstica na casa de um dos familiares do regente florestal dessa altura, Gaspar de Barros.

Ainda em petiz, Luís Isidoro decidiu seguir as pisadas do seu pai e, como tal, aos 12 anos, apenas com a 4.ª classe, tinha garantido o seu primeiro emprego também na secretaria dos Serviços Florestais.

Nessa altura, e apesar da tenra idade, o trabalho era uma obrigatoriedade e os estudos, assim como os luxos, eram reservados a uma pequena minoria. “Vivíamos num período pós segunda-guerra mundial, então a vida era muito difícil”, afirma, acrescentando ainda assim que, apesar de algumas privações, “nunca faltou broa em casa”.

“O meu pai passava algumas temporadas em trabalho no Alentejo e quando regressava lembro-me de trazer pinhões para mim e para a minha irmã. Era uma grande alegria; uma festa”, recorda saudosista.

Desses tempos, Luís Isidoro relembra algumas brincadeiras que, apesar de simples, faziam as maravilhas da criançada: “Juntávamos todos os jovens do lugar e fazíamos festas populares. Os rapazes iam às canas, com as quais faziam uma paliçada, enquanto as ‘cachopas’ a enfeitavam com flores, principalmente sardinheiras, que colhiam. Depois, havia um que tocava harmónica de boca e os outros dançavam. Era uma animação”.

Os tempos livres eram ainda ocupados com jogos tradicionais, como o do arco, do berlinde, do botão e do lencinho. “Também jogávamos à bola, em campos improvisados. Era um tempo essencialmente de convívio”, lembra.

Quando tinha 18 anos, “já era praticamente um homem feito”, Luís Isidoro conheceu Maria Arsénia Balseiro, a sua actual esposa e, como não tem qualquer pejo em afirmar, o amor da sua vida. Na verdade, a história de Luís e Arsénia faz lembrar um verdadeiro romance de cinema, como explicou ao AuriNegra.

“Assim que comecei a namorar com ela, o pai dela virou-se contra nós. Não aceitava a relação pois queria que ela arranjasse um marido com posses”, começa por contar o mirense. Nessa época, e apesar de estar a viver em Moçambique, o seu sogro fez de tudo para separar o jovem casal, o que acabou por conseguir, mas por pouco tempo. “Como ela não se afastava de mim, ele levou-a para lá, assim como à mulher e aos dois filhos. Chegou até a ameaça-la que a punha num convento se ela não se afastasse de mim”, recorda.

Todavia, ainda que apartados por milhares e milhares de quilómetros, os “pombinhos” não deixaram o amor esmorecer. “Escrevia-lhe cartas que ela, às escondidas, ia pegar a casa de amigos que nos ajudavam e apoiavam”. Mais tarde, “e porque água mole em pedra dura tanto bate até que fura”, Arsénia convenceu “contra vento e marés” o pai a deixá-la casar com Luís Isidoro.

“Acabámos por casar por procuração em 1965. Ela enviou os papéis de Moçambique, assinados pelos pais, pois ainda era menor de idade. No dia em que casámos uma tia ‘substitui-a’”, recorda, acrescentando que a forma de “selar” o casamento foi uma chamada telefónica: “Ainda no mesmo dia liguei-lhe do telefone público dos correios de Mira para festejarmos a união. E foi assim a nossa boda: um telefonema de Mira para Lourenço Marques”.

No mesmo ano, Maria Arsénia regressou a Portugal sozinha para finalmente fazer vida de casada com Luís Isidoro. “Como não havia aviões, veio no navio Infante D. Henrique. Na altura, sem carro nem carta, fui buscá-la a Lisboa com um amigo da Lentisqueira que tinha uma carrinha de transporte de feijão e milho. Foi ali que viemos”, conta divertido.

Já por terras gandaresas as dificuldades não terminaram. Apesar de a noite de núpcias ter sido passada em casa dos pais de Luís Isidoro, a harmonia familiar não durou muito tempo. “A minha irmã não aceitava o casamento e não tratava a Arsénia bem e então tivemos que sair”, explica. Acabaram por ir para o Ramalheiro, para a casa dos sogros que ainda se encontravam em Moçambique e, mais tarde, para Carromeu.

Entretanto, Luís Isidoro continuava empregado nos Serviços Florestais de Mira e Maria Arsénia ia trabalhando na agricultura. Sem o apoio das respectivas famílias mas com o amor um do outro, o casal manteve-se unido e feliz até ao momento de Luís Isidoro estar próximo da idade de ir para a tropa. “Não podia ir e deixá-la sozinha, ainda por cima os soldados rasos não ganhavam nada e nós precisávamos de sustento. Tinha que ganhar dinheiro”, diz-nos, explicando que, de forma a entrar para o serviço militar como furriel miliciano, foi estudar com um professor de Leiria, de nome Silva Nine, que, perseguido pela PIDE, se tinha fixado em Mira.

Com a ajuda desse professor concluiu o 2.º ano do liceu mas ainda assim a sorte não esteve do seu lado. “Nesse ano passaram a exigir o 5.º ano e lá fiquei eu enrascado”.

 

Pelos mares do Norte

Sem hipótese de fazer dinheiro com a tropa, de modo a sustentar a sua família, Luís Isidoro procurou outra solução e foi aí que se decidiu pelo caminho escolhido por muitos nessa altura: partir para a pesca do bacalhau.

“Como o Regente Florestal de Mira, o tal Gaspar de Barros, era gerente da empresa ‘Brites Vaz e Irmãos’ ajudou-me a entrar para os bacalhoeiros. Foi só tirar a cédula e embarcar”, lembra.

Com 21 anos, entrava pela primeira vez num navio de pesca de bacalhau. Consigo levava o enxoval, “costurado à máquina pela minha mulher”, e pouco mais. Da pesca, não sabia praticamente nada, pois nunca tinha tido grande contacto com os pescadores da zona.

“A primeira viagem no navio Vaz foi uma aventura. Com aquela idade vai-se à procura do desconhecido e não se tem muitos medos. Era preciso ir e pronto, não havia nada a fazer”, recorda. Porém, as dificuldades, como assume, eram muitas.

Primeiro, havia a adaptação ao mar e o navio que, no caso do mirense, correu relativamente bem. “Pouco enjoei, felizmente. Quando enjoava davam-me cação seco para mastigar e resultava. No início era tudo novidade mas, ainda assim, a adaptação foi razoável. Fui aprendendo tudo aos poucos e sempre de forma atenta”, diz.

Como moço fez de tudo. Desde os nós, à limpeza dos porões, passando pela preparação do pescado. No entanto, e apesar de ter entrado para a pesca do bacalhau ainda na fase em que esta era feita à linha, Luís Isidoro nunca pescou nos dóris.

Ainda assim, a sua vida não foi facilitada. “Os moços eram tratados abaixo de cão. Cheguei a ver homens de barba rija a apanhar com o chicote”, conta-nos, agora de rosto fechado.

Para além disso, as condições não eram as melhores.

“A alimentação era péssima e muito pouco variada. Depois, em dias de muito peixe, trabalhávamos cerca de 20 horas por dia e o tempo livre não dava para nada. Era trabalhar até à exaustão”. O frio, cortante, dificultava ainda mais a faina, principalmente na hora de largar e recolher os botes.

Quando passou para o arrasto, logo na sua terceira viagem, as condições de trabalho melhoraram. “Aí, como não tinha nenhuma especialidade, fui para criado de copa. A minha função era servir almoços e jantares aos oficiais, tratar das camaratas, entre outras coisas”, explica, acrescentando que, apesar do trabalho ser mais agradável, continuava a ser muito: “Tinha que estar sempre pronto a responder a qualquer tipo de pedido”. Na última viagem, o capitão do navio, de quem se tornou grande amigo, escolheu Luís Isidoro para ser co-piloto.

Dos sete anos que passou nos mares da Gronelândia e da Terra Nova, o mirense não recorda, no entanto, apenas as coisas más. “A parte boa eram as amizades, os momentos fantásticos que ali se viviam”. Entre esses momentos, Luís Isidoro recorda especialmente as idas a terra a St. John’s, onde encontrava uma realidade bem diferente da portuguesa: “Recordo-me por exemplo, da primeira vez que lá vi escadas rolantes, algo que não havia ainda em Portugal, e de comprar recordações para a minha mulher, entre outras coisas…”.

No geral, Luís Isidoro caracteriza a sua experiência na pesca do bacalhau como “agridoce”, pois “juntou momentos amargos, em que vi a morte de frente, como uma vez em que tivemos que ficar três dias de capa no meio de uma tempestade, mas também momentos agradáveis. As viagens de regresso sabiam muito bem, as pessoas imaginavam que a nossa vida era muito complicada e por isso erámos vistos com admiração”.

Mal ultrapassou a idade obrigatória para fazer o serviço militar, Luís Isidoro regressou à arenosa Gândara, para os braços da sua amada. As saudades eram muitas, revela, e começaram a “moer” ainda mais depois do nascimento da sua primeira filha.

“Quando a Maria Arsénia teve a nossa menina passou a custar muito mais, principalmente porque foi um parto muito difícil e eu estava longe”, conta-nos com uma lágrima a surgir pelo canto do olho. Nessa altura, como refere, “soube do nascimento pelo telégrafo, porque só passado muito tempo é que vinham as cartas. As cartas demoravam, por vezes, meses a chegar. Na verdade, a nossa troca de correspondência parecia uma verdadeira epopeia, porque nos era tudo sonegado”.

Apesar de recordar os maus momentos com muita mágoa, Luís Isidoro refere ter vindo mais adulto e responsável da pesca do bacalhau e que, só por isso, valeu a pena tudo o que passou. “Aqueles sete anos no mar ajudaram a fazer de mim o estoico que sou hoje”, conclui.

 

O regresso

Luís Isidoro regressou a Mira a 20 de Abril de 1974. À sua espera continuava o emprego na secretaria dos Serviços Florestais e também a sua querida família. Feliz por regressar às suas raízes, o mirense tinha, porém, outros planos mais ambiciosos.

“Decidi que ia tirar logo a carta de condução e tirar um Curso Superior, para ter progressão na carreira”, e assim fez. Ao mesmo tempo que trabalhava, licenciou-se em História na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Depois disso, entrou para a Direcção Regional de Agricultura em Coimbra como técnico superior e, mais tarde, tornou-se chefe de divisão dos Recursos Humanos, onde se manteve até aos 50 anos, idade em que se reformou.

Pelo meio foi Dirigente Sindical da Função Pública, algo motivado, em parte, pelo que viveu na faina do bacalhau. “Tudo o que passei e aquilo que vi fez de mim um democrata a 100%. Acredito verdadeiramente na igualdade de direitos, de oportunidades e de tratamento. Somos iguais e devemos ser tratados como iguais sempre”, assevera. Foi ainda, em 1985, candidato a deputado pelo Partido Socialista e, de 1981 a 1983 e depois de 1995 a 2005, presidente da direcção da Cooperativa Agrícola Mirense.

Durante alguns anos dedicou-se também ao voluntariado, tendo feito parte da direcção do Movimento dos Companheiros Construtores, o que o levou a percorrer vários países da Europa.

Já aposentando, mas nem por isso com vontade de parar, Luís Isidoro criou em 2011 o Movimento de Cultura e Cidadania de Mira, no Café Aliança, do qual se tornou arrendatário. “A ideia era fazer algo diferente e não estar ali simplesmente para servir cafés”, explica-nos, acrescentando que por lá passaram apresentações de livros, homenagens, exposições de pintura, palestras e debates, e até caras bem conhecidas do panorama nacional, político e não só, como foi o caso de Camilo Mortágua e do Major Mário Tomé.

Apesar do Movimento estar numa fase latente, “parar recuperar energia e repensar a sua continuidade”, Luís Isidoro prossegue activo. Em casa, por exemplo, é na maioria das vezes o cozinheiro de serviço e também ajuda a esposa no quintal. Ajudar os outros é outro dos seus entreténs. “Eu e a minha mulher somos muito procurados por conhecidos para aconselhamento sobre questões legais, como as reservas agrícolas, problemas com carros, entre outros”, refere orgulhoso.

Agora, aos 69 anos, Luís Isidoro prepara-se para uma nova fase da sua vida. Soube da novidade há pouco tempo e não podia estar mais entusiasmado: vai ser “caloiro” do curso de Solicitadoria e Administração, no Instituto Superior de Contabilidade e Administração de Coimbra.

“Só espero que não me praxem”, brinca, enquanto explica a razão que o leva a voltar para os bancos da universidade: “O curso vai-me ser muito útil para ajudar as várias pessoas que me procuram. Para além disso, há sempre muito para aprender e eu sempre gostei de tudo o que é relacionado com Direito”.

Depois de algumas horas de conversa, torna-se bem claro que a boa disposição, a simpatia e a energia contagiante de Luís Isidoro são aquilo que lhe permitem hoje ser um homem feliz e de bem com a vida e com a própria consciência. “Tive uma vida cheia”, refere, acrescentando que a sua maior realização foi ter conseguido construir, a partir do pouco, uma boa vida tanto para si, como para a esposa e para os dois filhos, Anabela (directora-geral dos Serviços Florestais dos Açores) e Luís Alexandre (Engenheiro Informático no Panamá). Ao lado de Maria Arsénia já lá vão 50 anos, mas o mirense quer muitos mais anos deste amor lutador e tão comovente. “Queremos ver se chegamos às bodas de diamante”, conclui com o brilho no olhar que só os apaixonados, pelos outros e pela vida, têm.

Autor: Redacção (Carolina Leitão)