Amélia Carneiro e António Fragoso – Uma Época, Dois Artistas (Parte I)

Neste ano de 2018, em que se comemora o Centenário da Morte do compositor e pianista António Fragoso e se celebra a sua obra e o seu amor às Artes, é oportuno relembrar a sua amizade com a pintora Amélia Carneiro e o apreço artístico mútuo que os unia. Partilhavam ainda uma forte ligação à aldeia da Pocariça, no concelho de Cantanhede, terra natal de Fragoso e adoptiva de Amélia Carneiro que pintou, como ninguém, as suas paisagens, figuras e ambientes.

António de Lima Fragoso nasceu a 17 de Junho de 1897, na Pocariça, o mais velho de cinco irmãos, no seio de uma família amante de Música. Aos seis anos iniciou os estudos musicais com seu tio António dos Santos Tovim e, mais tarde, com o médico Ernesto Maia. Apenas com doze anos de idade deu início à composição do seu primeiro trabalho musical – “Toadas da minha aldeia”, inspirado na sua terra natal.

Foi sempre um aluno brilhante e exemplar. Fez o curso liceal no Porto, após o que, e em obediência ao desejo de seus pais, se inscreveu no Curso Superior de Comércio, também naquela cidade, que viria a abandonar ao fim de dois anos de frequência, quando obteve, finalmente, autorização para concretizar o seu sonho, há muito acalentado, de ingressar no Curso Superior de Piano do Conservatório Nacional de Música de Lisboa.

Assim, em 1914, dá início ao Curso Superior de Piano, completando os primeiros cinco anos em apenas quatro meses, graças à sua enorme tenacidade e obstinação em recuperar o tempo perdido. Esse feito, inédito na história do Conservatório, e motivo de grande orgulho da família, chamou sobre o jovem músico todas as atenções, primeiro dos seus pares, depois da imprensa e do público, que se foram rendendo ao seu mérito de pianista, de compositor, de intérprete, de improvisador.

Fragoso teve grandes professores, como Marcos Garin, Tomás Borba, Luís de Freitas Branco, e saboreou o reconhecimento público do seu génio musical ainda enquanto aluno do Conservatório Nacional de Música.

Logo na primeira apresentação pública, a 30 de Março de 1915, na Academia de Amadores de Música, em Lisboa, demonstrou as suas excepcionais qualidades de intérprete, que a assistência aplaudiu com enorme entusiasmo. Um ano mais tarde, a 16 de Maio de 1916, apresentou-se de novo na Academia de Amadores de Música, mas desta vez com um programa composto, exclusivamente, por obras da sua autoria. Tinha apenas 18 anos. Surpreendeu e deslumbrou todo o auditório, como referiu a imprensa da época.

Algumas das suas obras passaram a estar incluídas nos programas oficiais do Conservatório Nacional de Música, ainda durante a sua vida, sendo tocadas por sucessivas gerações de estudantes e músicos profissionais. A 13 de Julho de 1918 prestou as provas finais do Curso Superior de Piano, com a classificação máxima de 20 valores, tinha então 21 anos;

Partiu de seguida para a sua aldeia natal, a Pocariça, para o merecido gozo de férias de Verão, junto da família e de um grande número de amigos que ali se reuniam. No final dessas férias, em vésperas de regressar à capital, expressou, em carta, o seu entusiasmo por voltar ao trabalho, à volta da sua paixão – a Música: As férias estão terminadas. Dentro de breves dias iremos novamente trabalhar, “pró musica”, nessa complicada engrenagem da vida da capital, onde o nosso espírito se cansa, mas onde temos também os momentos de mais elevado prazer espiritual, aqueles que nos oferecem as audições das grandes obras dos grandes mestres da música, essa arte subtil e engenhosa que nós cultivamos com tanta fé e tão entusiástica paixão.”

 Uns dias depois de escrever essa carta, António Fragoso faleceu, na sua terra natal, a poucas semanas de viajar para Paris, onde prosseguiria os seus estudos com o mundialmente famoso compositor Vincent d´Indy (1851-1931), na Schola Cantorum. Como ele próprio dizia: –Estudar em Paris é o sonho dourado de todos os artistas da minha idade”.

Fragoso deixou-nos mais de 100 obras musicais. Não ficou limitado aos ensinamentos das escolas que frequentou, os quais absorvia como orientação e actualização das suas capacidades. Ele queria ir, e foi, muito para além disso, numa busca constante de inovação e originalidade, mas mantendo intacto o seu apreço e respeito pelos génios do passado (Beethoven, Chopin, Liszt, Grieg) e procurando inspiração, e. o., na escola francesa do início do século XX, representada por Franck, Fauré, Debussy e Ravel, os grandes mestres que mais o influenciaram.

Apesar da sua vida breve, ficou para a história da música portuguesa como um dos seus maiores talentos. Citando Maestro Pedro de Freitas Branco:

António Fragoso tinha a envergadura necessária para se tornar o maior compositor português de todos os tempos. Era um músico intelectual. A sua vincada personalidade impunha-o, tanto à nossa admiração, como o seu génio de compositor (…) e morrer aos 21 anos é quase não ter vivido.”

Até à sua morte, António Fragoso conviveu de muito perto com Amélia Carneiro, tanto no Porto como na Pocariça, onde a pintora passava férias desde pequena, em cada de familiares, e onde optou por viver no início da sua carreira artística. E era naquela aldeia que os dois amigos participavam, activamente, nos meses de férias, em frequentes iniciativas culturais e recreativas (récitas musicais e teatrais, festas de desfolhada e vindimas), em que Fragoso tanto estava ao piano como representava papéis teatrais, seu pai o Dr. Viriato Fragoso tocava contrabaixo, seu tio o Dr. José de Oliveira Lima violino e Amélia Carneiro actuava, também, em peças de teatro, para além de muitos outros participantes amadores.

Uns dias antes de adoecer, Fragoso relatou, em carta, o ambiente de festa na sua aldeia, nesse Verão de 1918: “E na verdade, a nossa vida, desde há dois meses para cá, tem sido um constante e vertiginoso rodopiar, entre os passos lentos, e tantas vezes cheios de ternura, de uma valsa de Berger, e os saltos ursinos e desengonçados de um Fox trot. Ontem, porém, despimos a rabona de todos os dias, e vestimos a jaqueta dos homens de lavoura; as senhoras enfeitaram-se com as cores garridas de Viana do Castelo; e, descendo da sala ao campo, fomos dançar numa eira, ao som da guitarra e do harmónico, as danças tão simples e tão pagãs do nosso povo. Tinha-se organizado uma esfolhada.”

António Fragoso estava cada vez mais dedicado à escrita, tendo deixado textos e correspondência de grande interesse e beleza, que nos ajudam a conhecê-lo melhor e à sua obra, pensamento, sentimentos, aspirações e ao mundo que o rodeava. Em carta dedicada exclusivamente à pintora Amélia Carneiro, datada de 27 de Julho de 1918, Fragoso expressava o seu apreço pela forma como ela representava, na tela, a vida simples da sua querida aldeia da Pocariça: “Uma grande artista. Venho do atelier da Senhora D. Maria Amélia Carneiro, a grande artista que aqui vive (…). No meu espírito, há ainda uma profunda impressão que me produziram alguns dos seus quadros, que não só pela beleza dos assuntos, como principalmente, pela maneira admirável como são tratados, têm merecido de todas as pessoas que os têm admirado e, entre essas, estão quase todos os nossos grandes artistas de Lisboa e do Porto, as mais elogiosas quanto justas apreciações. D. Amélia Carneiro é a pintora das coisas simples. Como os trabalhos de Jules Breton, que reproduziu nas suas telas, as paisagens e cenas mais sugestivas da sua terra, os melhores trabalhos de D. Amélia Carneiro são uma expressão fiel da alma do nosso povo, apanhado em flagrante, nas suas mais singelas ocupações de todos os dias. São cantinhos de casas rústicas, onde há manchas de sol de uma tonalidade brilhante, que tão bem contrasta com a penumbra azulada do interior, dando ao conjunto, a intensidade de expressão de claro-escuro, onde palpita a vida ingénua e altamente expressiva do povo da minha aldeia, que deve à grande artista as suas mais belas e características fotografias.” 

António Fragoso e Amélia Carneiro partilhavam o mesmo amor pela Arte, nas suas diversas facetas, que ele definiu, na carta dedicada à pintora, com grande emotividade, como se estivesse também a falar de si próprio, e muito provavelmente estava: “A Srª D. Amélia Carneiro é uma entusiasta pela Arte, que compreende e sente, como poucas pessoas, nas suas variadíssimas manifestações. E assim, quantas vezes a tenho visto entusiasmada, ao ouvir os trechos dos grandes Músicos, e sobretudo os de Beethoven, os de Chopin e os de Grieg, que tão bem quadram com o seu sentimento de artista meridional, e por isso mesmo apaixonada, quantas vezes a tenho visto parar, numa abstração muda, diante de um quadro, de um monumento ou de uma escultura, não sabendo, como ninguém sabe, traduzir por palavras, a forte emoção que a nossa alma sente, ao observar este imenso legado artístico, que a humanidade passada vai deixando à humanidade futura, como testemunho imorredouro de quanto é grande o seu poder criador.”

Para António Fragoso, a Música era como uma religião, a que se dedicou com paixão, o mesmo acontecendo com a entrega de Amélia Carneiro à Pintura, como testemunharam os admiradores dos dois artistas.

 

 

(A Parte II deste texto será publicada na edição de Aurinegra de Novembro)

Autor: Maria Manuel Magalhães Carneiro*

 

Maria Manuel Magalhães Carneiro – Licenciada em Filologia Germânica pela Universidade de Coimbra. Desempenhou funções ao serviço do Estado Português de assessoria nas áreas de Imprensa, Relações Públicas, Promoção do Comércio Externo e do Turismo. No âmbito da investigação histórica e genealógica, a que se tem dedicado, coordenou inúmeras iniciativas de divulgação da vida e obra da pintora naturalista Maria Amélia Magalhães Carneiro (1883-1970), sua tia-avó, como exposições, palestras e edição de publicações.