Ajudar a tempo inteiro

A vida de Célia São José tem sido marcada pelo ajudar os outros. Enfermeira de profissão, é no Rovisco Pais que tem trabalhado nos últimos 15 anos, tentando dar o máximo de qualidade de vida às centenas de doentes que por lá passam por ano. Desde 2013 que é Vereadora da Câmara Municipal de Cantanhede, trabalhando em prol dos outros. O desafio mais recente foi integrar a CPCJ, que ajuda crianças e jovens em dificuldades.

O sorriso é aberto e sincero, e embora o cansaço seja muito – como nos conta – é boa disposição e boa energia aquilo que transparece. Célia São José recebeu-nos na sua segunda casa: o Rovisco Pais – Centro de Medicina de Reabilitação da Região Centro, onde está há 15 anos, para nos falar do seu percurso profissional mas também pessoal.

Embora seja natural dos Resgatados (em Arazede, Montemor-o-Velho), Célia Maria de São José Simões nasceu na Figueira da Foz, mas foi logo para Lisboa, onde o pai – Celestino Simões, funcionário da Polícia de Segurança Pública – havia sido colocado. Filha única, a pequena “Celita”, como era conhecida, nunca se sentiu sozinha e com o regresso a Cantanhede, com cerca de dois anos (novamente por colocação profissional do pai), passou a viver rodeada de quatro primos, que ainda hoje sente como irmãos.

“Nesse tempo, aquilo de que melhor me lembro era de brincar imenso na rua. Ao ‘mata’, à bola, de andar de bicicleta”. Embora fosse das melhores alunas da escola e uma criança muita “desenrascada”, era também “uma verdadeira maria-rapaz”: “Apanhava muita ‘porrada’. Porque adorava trepar árvores… Andava sempre toda esmurrada e com a roupa rasgada. Uma vez fui castigada e não pude ir saltar uma fogueira de São João, mas como o castigo era válido apenas nesse dia, decidi ir no seguinte saltar já com a fogueira apagada. Resumindo, acabei por cair mesmo no meio do brasido, que ainda estava incandescente, e queimei os pés todinhos. Não foi bonito de se ver”, recorda entre risos, acrescentando:

“Como era filha única a minha mãe não achava grande piada a esta rebeldia e então obrigou-me a ir para o Alfa aprender a bordar e costurar à mão e à máquina”.

O desporto era outra área em que a pequena “Celita” se destacava. “Fiz basquete durante anos e depois passei para o Andebol. Pela Escola de Cantanhede chegámos a ser Campeãs Nacionais de Andebol”, conta-nos.

Em simultâneo, era uma aluna concentrada nas aulas e o facto de lidar com os primos mais velhos diariamente trouxe-lhe uma maior preparação. “Eu via os meus primos a estudar e acompanhava-os, por isso, quando entrei para a escola, com sete anos, já sabia ler e escrever”.

As disciplinas favoritas sempre foram aquelas relacionadas com as ciências exactas. “Desde pequena que gostava de matemática, biologia e química. Era miudita e já fazia as contas de cabeça, divisões de quatro algarismos até”. Quando andava na primária, Célia São José recorda como a escola ainda tinha duas alas distintas, uma para meninos e outra para meninas. “Entretanto criaram as turmas mistas e a professora encarregava-me de ajudar os alunos com mais dificuldades”.

“No geral, posso dizer que tive uma infância muito feliz”, diz-nos, acrescentando que sempre gostou de Cantanhede, “ainda que voltasse de férias aos Resgatados, era e é em Cantanhede que me sinto em casa”.

O DOM DA ENFERMAGEM

“Ao contrário do que acontece com muitas crianças, eu desde pequena que dizia que queria ser enfermeira, quando me perguntavam o que queria ser quando crescesse”. A explicação não a sabe dar. O gosto pela biologia certamente que ajudou e, acima de tudo, o poder ajudar os outros.

No entanto, assim que terminou o Ensino Secundário, concorreu ainda o Magistério, para ser professora. “Mas apenas por insistência da minha mãe que achava que ser enfermeira não era uma profissão para uma senhora. Na verdade, cheguei a entrar no Magistério mas nunca lá meti os pés, porque entretanto fui chamada para as duas escolas de Enfermagem de Coimbra, acabando por escolher a Bissaya Barreto”.

Enquanto estudante universitária, Célia refere que era muito aplicada, “porque queria fazer tudo certinho e também mostrar à minha mãe que fiz uma boa escolha”. O curso, recorda, “não era nada fácil na altura e tinha-se que estudar muito”. Ainda assim, diz, continuava a ter uma vida social activa, “adorei participar na vida académica, ia ao cinema com os amigos, saíamos. Foram bons tempos”.

Com o fim do curso, Célia São José escolheu iniciar carreira em Centro de Saúde (CS) e, para tal, escolheu a localidade de Vila Nova de Poiares. “Era uma miúda mas já desenrascada. No primeiro dia lá fui eu com uma amiga no meu Ford Escort amarelo, com as estradas cheias de gelo … Nem sei como lá cheguei”; relembra, sorridente.

O objectivo em CS, refere,” era, acima de tudo, ensinar as pessoas a prevenir doenças. Ali acompanhávamos os doentes de uma forma global. Fazíamos consulta e muita visitação escolar e domiciliária. Era um meio onde havia muita pobreza e uma forte comunidade cigana e por isso acabávamos por sentir que realmente fazíamos a diferença. Foram 2 anos e meio muito bons”.

Embora tenha tido oportunidade de vir para Mira, a enfermeira escolheu manter-se por Vila Nova de Poiares, e até ponderou comprar por lá casa. Só com a gravidez é que escolheu regressar a Cantanhede, onde ainda hoje se mantém.

Do Centro de Saúde passou para o Hospital e decidiu em simultâneo tirar a licenciatura (tinha Bacharelato) e uma especialidade em Enfermagem de Reabilitação. “Na altura, o meu filho Gonçalo nasceu com 7 meses e muitos problemas de saúde, que o obrigaram a fazer cinesioterapia respiratória e tive a sorte de encontrar uma enfermeira maravilhosa que me fez ganhar vontade de seguir essa área”.

Em Cantanhede passou por todos os serviços. Teve ainda 2 meses e meio em cardiologia no Hospital de Covões. Tirou uma pós-graduação em Administração de Serviços de Saúde e, mais tarde, ainda um Mestrado em Gestão.

Até que foi chamada para o Rovisco Pais e a sua vida mudou. “Cheguei aqui para um novo hospital, com uma equipa que desconhecia e apenas 8 doentes”, explica, frisando “o desafio que foi abraçar este projecto”.

Enquanto os anos foram passando, a experiência também foi aumentado. Pelo meio, foram muitas as horas de formação e de estudo. “Tive que procurar saber mais, estudar muito, mas valeu a pena, porque é muito bom ver as pessoas a reconhecer o meu trabalho”, refere a especialista em reabilitação e chefe de enfermagem, desde 2007.

“Sinto um pouco este hospital como meu, porque afinal fomos crescendo a par”, revela, recordando várias situações que, involuntariamente, lhe trazem alguma comoção à voz.

Com os pais

Durante 11 anos esteve no serviço dos lesados medulares e Acidentes Vasculares Cerebrais, no entanto, há 4 anos passou para a Unidade de Cuidados Continuados.

“Tive um convite para ir para Angola mas rejeitei. Depois vim de férias e soube que ia para a UCC. Foi um balde de água fria…mas hoje já não quero sair daqui”, refere.

A paixão pela profissão é notória. O olhar brilha enquanto nos fala das pessoas que ajudou, algumas histórias mais marcantes que outras, mas todas com base na premissa de fazer o seu melhor. Para além do Rovisco Pais, Célia São José trabalhou até 2015  na Fundação Ferreira Freire e deu ainda aulas na Bissaya Barreto.

“É o gosto que me move. O gosto pelos projectos, pelas pessoas… Mas também tenho noção da disponibilidade e por isso, depois de 18 anos, tive que deixar a FFF”, afirma.

Ser enfermeira em ambientes como lares de idosos (essencialmente com idosos com demência, como é o caso da FFF) e no Rovisco Pais exige uma grande sensibilidade mas também um “desprendimento” e um pensamento positivo.

“Por exemplo, nos primeiros dias que vim para cá chorei muito. Lidava diariamente com pessoas, algumas jovens, e que estão presas dentro de um corpo. Foi difícil, muito difícil, mas fui aprendendo a lidar. O importante é fazer o nosso melhor. Quando estou a lidar com um doente o meu objectivo é ajudá-lo a reconstruir aquilo que é mais importante para ele”.

E continua: “Ninguém estuda para estar doente, por isso, nós, da área da saúde, devemos lutar por aquela pessoa, dando-lhe um tratamento devido mas também algum tipo de conforto”. Como enfermeira do Rovisco Pais Célia lida com pessoas de todos o País, mas também com situações diferentes, “o que me fortalece enquanto pessoa e profissional. O melhor da profissão é sem dúvida ver os doentes a conseguirem reintegrarem-se e vê-los a combater as dificuldades”.

SER VEREADORA: O DESAFIO

Em casa de Célia São José a cultura assim como a política estiveram sempre presentes. A mãe era do PSD e o pai CDS e a enfermeira acabou por se identificar mais com os pensamentos de direita. Ainda assim, foi com grande surpresa que, em 2013, recebeu o convite do, na altura Presidente da Câmara Municipal, João Moura, para ser vereadora da CMC.

“Eu não sou uma pessoa ‘muito política’ mas acabei por aceitar. Ainda pensei que não entrasse, porque era a quinta da lista, mas afinal entrei e tem sido um verdadeiro desafio que renovei novamente agora com o mandato da Dr.ª Helena Teodósio”.

Assumindo veemente “não se deslumbrar com o poder”, para Célia São José “ser político é fazer com que os outros fiquem melhor e nós também”. No caso da política local, “é também promover a proximidade e a solidariedade com as pessoas. Aprende-se muito com as pessoas com que nos vamos cruzando neste meio”.

Embora não tenha pelouro, é nas áreas da saúde e da solidariedade social que mais se centra. “Sou a menos ‘politizada’ dos meus colegas do executivo, mas eles têm muita consideração por mim, ouvem-me e têm em conta as minhas opiniões. Alguns chamam-me ‘caixinha de surpresas’”.

Calma e ponderada, a enfermeira dispensa, no entanto, os confrontos ou palavras mais aguerridas que por vezes podem surgir perante opiniões contrárias. “Tento sempre escutar as opiniões dos outros e percebe-las, porque por vezes essas até podem ser as melhores com vista a ajudar o próximo. O que fazemos é sempre pelo melhor”.

Se não ter pelouro nem estar a tempo inteiro na CMC podia fazer com que as pessoas não a conhecessem, Célia fica surpreendida quando a abordam na rua. “Pensava que ninguém me conhecia mas sou muito acarinhada”, refere do alto do seu – nada discreto – 1,70 metros de altura e com o sorriso rasgado, que já nos parece quase uma imagem de marca.

Há cerca de meio ano abraçou mais um novo desafio: integrar a Comissão de Protecção de Crianças e Jovens (CPCJ) de Cantanhede.

“É uma nova experiência, diferente mas muito desafiante, porque, depois de anos a lidar mais com adultos e seniores, isto centra-se em crianças. São situações complicadas, não só de saúde mas muitas comportamentais”.

O seu trabalho passa essencialmente por entrevistas com as crianças e jovens, encaminhando-as, caso necessário, para as entidades competentes.

“No fundo, continua a ser o propósito de ajudar que está presente. Ora na enfermagem, ora na política, ora na CPCJ. Julgo que herdei este querer ajudar, querer dar….Só assim me sinto bem e realizada”.

Se a nível profissional Célia São José anda sempre a mil. A nível pessoal os dias são levados com mais calma, “a desfrutar verdadeiramente dos momentos”.

O marido, namorado do liceu, foi durante vários anos Alferes. Mas entretanto deixou a carreira militar, passando para a Caixa Geral de Depósitos de Cantanhede. Com o namoro veio o casamento, “não era nada que realmente sonhasse, mas como era filha única fiz a vontade à minha mãe”.

Depois veio o filho, Gonçalo. “Depois de casar, estava com muitas dificuldades em engravidar. Estava a preparar-me até para tratamentos de fertilidade quando descobri que estava grávida. Foi uma grande felicidade, mas depois o Gonçalo nasceu muito doente e foi uma altura muito difícil”, explica-nos.

Apesar da vida profissional agitada, Célia São José refere que assim que chegava a casa o filho se tornava prioridade. “O tempo que estava com ele era a 100%. Agarrei-me muito ao Gonçalo, pelo que passamos para o ter e para o ver bem, ainda assim não o superprotegi. Ensinei-lhe tudo o que ele devia aprender para crescer”, diz-nos, naturalmente orgulhosa e “mãe babada”.

Aos 53 anos e com o filho já crescido – está a tirar o curso da Ordem dos Advogados – a enfermeira aproveita os – ainda poucos – tempos livres para caminhar com o marido, ir ao cinema, sair com amigos, ler e viajar.

Realizada e feliz, os sonhos de Célia São José estão bem definidos. “Acima de tudo quero continuar a viver em Cantanhede – adoro Cantanhede, nem sei explicar”. Depois, “com a ajuda do Euro Milhões”, diz-nos, entre duas gargalhadas, “gostava de criar um lar onde os seniores se identificassem e onde o dinheiro não fosse um fator importante. Um lar rodeado de lojinhas, cabeleireiro, tipo um minibairro, onde eles se sentissem em casa. Vou continuar a apostar no Euro Milhões”, conclui.