“Acredito e tento contribuir para que a nossa passagem no Universo não fique só pela memória”

Raúl José das Neves Pires Amado nasceu a 1 de Setembro de 1954, em Pinhel, distrito da Guarda. Embora seja um beirão de gema, tem uma forte ligação à Gândara, onde passava férias em criança e onde sempre viveu  a esposa e mãe dos seus dois filhos

Raúl Amado nasceu na Beira Alta, na pequena cidade de Pinhel, no distrito da Guarda. Filho de um funcionário público – Francisco Jacinto Pires Amado – e de uma doméstica – Arlete das Neves Azevedo Amado, foi o primeiro de cinco filhos varões.

A infância foi vivida pela serra, “entre Pinhel e a localidade de Trancoso, onde terminei a escola primária e conclui o ensino básico”. Desses tempos há recordações que não esquece e uma delas foi a participação num acampamento organizado pela Mocidade Portuguesa “onde se partilhava um chocolate quente, durante a madrugada, à volta de uma grande fogueira e em alegre cavaqueira”.

Mais tarde, ainda durante a adolescência, passou ainda pelas cidades da Maia, Monção e mais tarde Lamego, onde frequentou o Colégio de Lamego, “um ensino de cariz cristão e onde fiz amizades que ainda hoje se cruzam na minha vida”.

Para acompanhar o pai, a família Amado deslocava-se frequentemente e foi assim que Raúl acabou por concluir o Ensino Secundário no Liceu de Setúbal.

Em relação às frequentes mudanças de residência, o médico explica ao AuriNegra que estas acabavam por ser “entendidas como oportunidades que se tornavam em desafios à minha maneira de ser e de estar na vida e que me ajudaram a saber valorizar mais tarde o sentido da palavra trabalho”. No geral, confessa que viveu “uma infância feliz, sem dificuldades e uma adolescência responsável”.

“Trago essencialmente à memória, com saudade, alguns encontros de família e, no fim, o mais importante: beijos, abraços fortes de longos afectos e de promessas. Lágrimas num misto de nostalgia e de felicidade. O reconhecimento da força da vida em movimento, o poder do tempo que tudo transforma”, recorda, emocionado.

Com a chegada do Ensino Superior, Raúl Amado opta pelo curso de Medicina “por acreditar nos valores de fazer o bem e desejar ser útil ao próximo com abnegação e humildade” e muda-se para a cidade do Barreiro, onde se mantém como trabalhador-estudante até concluir a licenciatura na Universidade Nova de Lisboa, em 1981, já casado e com o primeiro filho.

“O início na faculdade foi marcante e um pouco conturbado porque coincidiu com a revolução militar de Abril e as mudanças que se foram processando na sociedade portuguesa. No entanto, o meu curso conseguiu manter um rumo assertivo e, mesmo sem passagens administrativas por decisão dos alunos, conseguiu-se manter um ritmo aceitável que permitiu terminar o mesmo sem grandes sobressaltos”, relembra.

Enquanto estudante, o desempenho estudantil e social “foi muito positivo”. Assim que terminou o curso optou pela cidade de Coimbra para iniciar a actividade médica e é pela cidade dos estudantes que tem permanecido nos últimos 37 anos.

Ao longo das quase quatro décadas de carreira, Raúl Amado tem passado por várias posições. “Desempenhei funções docentes no ensino secundário, superior e de formação contínua em saúde, em que destaco a docência em Escolas Superiores de Enfermagem e as funções de coordenação científica e pedagógica na área de Saúde Ocupacional no então Instituto de Clínica Geral da Zona Centro. Nessa altura, desempenhei também funções de assessoria técnica junto do Vogal Médico da Comissão Instaladora da ARS de Coimbra”, um desempenho que lhe valeu inclusive um louvor público.

Em 1986, Raúl Amado decide separar a actividade pública da privada – como Médico de Medicina no Trabalho – e pede uma licença de longa duração, que mantém até hoje.

“Mais tarde ainda tive uma incursão no sector estatal, num espírito de missão e serviço público. Durante cerca de seis anos desempenhei a função de Médico Coordenador dos Sistemas de Verificação de Incapacidades no então CRSS do Centro com competências de organização do serviço de peritagem médica. Actualmente, desempenho a função de Assessor Técnico de Coordenação na instituição”, frisa.

O médico em criança

No entanto, a actividade principal de Raúl Amado é como médico especialista em Medicina do Trabalho. Um trabalho que tem vindo a desenvolver na área de consultoria e prestação de serviços de Segurança e Saúde no Trabalho a diferentes organizações, através da empresa Seghisa, Lda que criou e dirige há mais de 25 anos.

“Optei por trabalhar nesta área de serviços por acreditar ser importante ajudar a desenvolver as competências para o trabalho de qualquer cidadão em condições de segurança e de saúde e, consequentemente, contribuir numa melhoria da produtividade no seio empresarial”, partilha, deixando, no entanto, uma crítica à “ausência de atenção positiva por parte das entidades competentes no sentido de uma harmonização e regularização de mercado que corrija os desvios existentes e facilitadores de algumas injustiças comerciais como o que se constatam actualmente”.

Com uma vida profissional sempre ocupada e muito activa, o médico continua ainda, “para não perder a mão”, a praticar clinica médica no posto médico de Coimbra dos Serviços Sociais da Caixa Geral de Depósitos.

Um homem de causas

Se a vida profissional é importante para Raúl Amado, a vida familiar é-o ainda mais. Casado com a professora Graça Maria Cardeal Patrão Amado há quase 43 anos, é pai de dois filhos: “o Pedro com 31 anos e arquitecto, e a Patrícia com 40 anos, economista, casada e mãe de uma menina, a Matilde, que trouxe mais luz à nossa vida e me tornou num avô ‘babado’”.

Embora resida em Coimbra, a ligação à Gândara começou bem cedo e remonta ainda aos tempos de infância. “A minha família tinha por hábito gozar as férias de verão na Praia de Mira, onde ainda hoje mantenho lá uma casa que utilizo com muita frequência e que é o meu refúgio preferido”.

Desse período, são “muitas e boas as recordações vivenciadas com tantos amigos que fiz ao longo de mais de meio século passado nesta zona do país”. Contudo, a ligação à região tornou-se ainda maior quando conheceu a sua esposa, natural de Aveiro mas desde sempre a viver em Vilamar.

“Fui muito bem acolhido na família dela e, permitindo-me usar da boa vontade do AuriNegra, gostava de trazer respeitosamente à memória o pai da minha esposa – Idalino de Almeida Patrão –, um cidadão exemplar e solidário que soube sempre dignificar e servir Vilamar, a sua autarquia e a sua região”.

Para além das facetas profissional e pessoal, Amado tem ainda a desportiva. Com efeito, chegou a ser atleta federado nos diferentes escalões etários em modalidades como o futebol e o basquetebol. Há alguns anos, desempenhou ainda funções dirigentes na Federação Portuguesa de Ténis.

“Na minha actividade aquilo que procuro fazer é sempre o melhor em benefício da comunidade. Entendo a solidariedade como um objectivo e a essência da defesa do bem comum, sendo o meio adequado para fazer felizes os outros e nós próprios”, partilha com entusiasmo.

Com a esposa

Na vontade e empenho “de ajudar a construção de uma sociedade livre, justa e solidária” tem desenvolvido várias actividades associativas e filantrópicas em várias organizações e, em especial, na Associação Internacional de Clubes Lions, onde exerceu o cargo de Governador de Distrito 115 Centro Sul no ano lionístico 2016-2017. “Tive, ainda, a oportunidade de desempenhar funções políticas e socioprofissionais em estruturas de cariz partidário a nível concelhio, distrital e nacional, na esperança de contribuir para o bem comum – sempre, tornar mais felizes os povos – sempre, garantir a justiça social, a dignidade e a igualdade de direitos – sempre”.

Os hobbies também não ficam esquecidos. “Tento ter tempo para viajar, privilegiando sempre o nosso país. Gosto de ouvir música e jogar bridge Aprecio ainda a boa gastronomia e um bom vinho português. Depois, procuro fazer amizades e partilhar emoções”.

Como pessoa, Raúl Amado reconhece-se como um homem “orgulhoso das minhas origens, perfeccionista nas atitudes e nos valores, com alguma teimosia na defesa das ideias e convicções em actividade de cidadania e de intervenção desenvolvida na comunidade e, apesar de bastante tolerante e emocional, sou frontal e de alguma inflexibilidade racionalizada perante a injustiça social e a ingratidão”.

Já como “protagonista na vida real”, o médico refere: “Gosto de me poder ver ao espelho todos os dias e para isso procuro manter a minha dignidade e o meu caráter sem pisar a linha que separa a integridade da astúcia, da mancha e da deslealdade. Por isso, recuso abdicar de tudo o que o Homem tem na alma de nobre, de generoso, de grande, de racional e de justo. Hoje, mais do que nunca, recuso o servilismo intelectual, os aventureiros inteligentes, a corrupção, o patrono e o privilégio”.

“Na essência do tempo em que a única permanência que há é a mudança, sou um aprendiz em constante aperfeiçoamento e procuro dar continuidade à educação que recebi segundo os princípios da honra, do respeito pela palavra e do valor do trabalho e da família. Acredito e tento contribuir para que a nossa passagem no Universo não fique só pela memória!”, conclui.